O debate sobre o antissemitismo dentro de correntes de esquerda volta ao centro das discussões públicas. No recém-lançado livro Antissemitismo Estrutural, o advogado e professor Gustavo Binenbojm revisita origens históricas dessa relação e aponta como ideias e decisões políticas atuais reforçam a tendência.
O autor lembra que Karl Marx, apesar de sua origem judaica, escreveu em A questão judaica argumentos que relacionavam o Judaísmo a valores incompatíveis com a emancipação humana. Para Binenbojm, Marx se coloca na linha de pensadores como Voltaire e Nietzsche, que alimentaram discursos hostis aos judeus sob diferentes motivações filosóficas.
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Ele destaca trechos em que Marx associa o Judaísmo à usura e ao egoísmo, chegando à conclusão de que a superação do Judaísmo seria necessária para a plena libertação da sociedade — visão que o autor considera desconectada da realidade, mas ainda presente em setores da esquerda contemporânea.
Da aproximação à ruptura no século 20
O texto relembra que, apesar do histórico antissemita na tradição intelectual europeia, a União Soviética foi a primeira nação a reconhecer o Estado de Israel em 1948. Lideranças sionistas mantinham forte vínculo com ideais igualitários, e Israel chegou a adotar modelos inspirados no socialismo, como kibutzim e sistemas públicos de saúde e educação.
Com o avanço da Guerra Fria, porém, a URSS rompeu com Israel, impulsionando uma narrativa que associava o sionismo ao imperialismo norte-americano. Esse movimento culminou na resolução da ONU de 1975, que equiparou o sionismo ao racismo — medida revogada apenas nos anos 1990.
Críticas à postura do governo Lula sobre Israel
Binenbojm afirma que ressurgimentos recentes de antissemitismo se intensificaram após os ataques do Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023. Segundo ele, críticas legítimas ao governo de Benjamin Netanyahu não justificam o que classifica como “duplo padrão” adotado por partidos de esquerda e governos alinhados ao campo progressista.

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) comparou as ações de Israel em Gaza com o Holocausto cometido contra judeus durante o regime de Adolf Hitler – Foto: Reprodução
No caso brasileiro, o autor aponta hesitação do governo Lula em condenar o ataque do Hamas como terrorismo e considera “constrangedora” a demora em repudiar o massacre de civis israelenses. Ele critica também a reação “tímida” diante da situação dos reféns e a rápida condenação das ações israelenses.
Outro episódio citado como evidência de postura parcial foi a recepção calorosa aos brasileiros de origem palestina resgatados em Gaza, contraste que, segundo ele, não se repetiu com judeus brasileiros trazidos de Israel.
Um relatório da Federação Israelita do Estado de São Paulo (Fisesp), de 2024, apontou que as denúncias de antissemitismo no Brasil voltaram a crescer em fevereiro. A entidade relacionava o aumento às declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que comparou as ações de Israel em Gaza ao Holocausto perpetrado contra judeus durante o regime de Adolf Hitler.
De acordo com o Departamento de Segurança Comunitária (DSC) da Fisesp, os registros de antissemitismo já vinham acima da média desde o ataque do Hamas contra comunidades israelenses no ano passado, episódio que desencadeou a guerra na Faixa de Gaza. Em outubro, mês dos atentados terroristas, foram contabilizadas 396 denúncias — mais de dez vezes o volume do mês anterior e doze vezes superior ao de outubro de 2022. O ápice ocorreu em novembro, quando foram registradas 674 denúncias, um aumento de 70% em relação a outubro.
Saída da IHRA e simbolismo político
Um dos pontos mais contundentes do artigo é a crítica à decisão do governo brasileiro de deixar a IHRA (Aliança Internacional para a Memória do Holocausto). Binenbojm afirma que a medida desconsidera o papel da entidade no combate ao antissemitismo, não guarda relação com críticas políticas a Israel e viola princípios constitucionais brasileiros que repudiam qualquer forma de discriminação.
Para ele, a ausência de justificativa clara do Itamaraty reforça a impressão de motivação política e simboliza desprezo por uma minoria historicamente perseguida.
Conclusão
O autor conclui que a democracia exige decisões pautadas pelo interesse público, e não por revanchismos ou alinhamentos ideológicos. Na sua avaliação, parte da esquerda contemporânea — inclusive no Brasil — reproduz um viés antissemita que ignora a gravidade histórica do Holocausto e o direito de Israel à autodefesa.
