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Uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro (PL) na eleição presidencial poderá alterar a orientação da política externa brasileira, com maior aproximação dos Estados Unidos, mudanças na estratégia de integração comercial do Mercosul e uma revisão das relações políticas com a China. As propostas do senador colocam em discussão não apenas o posicionamento diplomático do Brasil, mas também os interesses do agronegócio, da indústria, da mineração e de setores estratégicos da economia.
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O tema ganhou destaque na reta final da disputa presidencial entre Flávio e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). No primeiro turno, o senador obteve 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do petista. O segundo turno está marcado para 25 de outubro, conforme o calendário eleitoral divulgado pela Agência Brasil.
As possíveis mudanças foram analisadas por especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo, que apontam para uma política externa mais próxima de Washington, sem que isso necessariamente represente um rompimento comercial com Pequim. A dependência brasileira do mercado chinês, somada às regras do Mercosul, representa um dos principais limites para uma mudança radical de orientação.
Aproximação com Washington pode ganhar força
Flávio já manifestou interesse em ampliar a cooperação brasileira com os Estados Unidos nas áreas de segurança, tecnologia, investimentos e exploração de minerais críticos. O senador também defendeu uma parceria de longo prazo com os americanos para investimentos e processamento de terras raras brasileiras, recursos utilizados na fabricação de equipamentos eletrônicos, baterias, semicondutores e tecnologias de defesa.
Em maio, segundo o relato publicado pela Gazeta do Povo, Flávio se reuniu com o presidente norte-americano Donald Trump na Casa Branca. Entre os assuntos discutidos estavam o combate ao crime organizado, as tarifas comerciais e o interesse dos Estados Unidos nos minerais estratégicos brasileiros. No dia seguinte, o senador também se encontrou com o vice-presidente J.D. Vance e o secretário de Estado Marco Rubio.
A proposta de aproximação ocorre em meio à disputa entre Estados Unidos e China pelo controle de cadeias estratégicas de fornecimento. Washington busca reduzir sua dependência de fornecedores chineses em setores considerados essenciais para a indústria, a tecnologia e a defesa.
Nesse cenário, o Brasil reúne recursos minerais e capacidade produtiva que podem atrair investimentos dos dois países. Uma eventual mudança de prioridades diplomáticas, portanto, poderá influenciar a forma como o governo brasileiro negocia investimentos, contratos e parcerias tecnológicas.
O consultor de negócios internacionais Marco Aurelio da Silva, ouvido pela Gazeta do Povo, avalia que um governo Flávio tenderia a substituir a orientação de autonomia multipolar, associada à política externa de Lula, por uma estratégia mais voltada ao Ocidente e ao continente americano.
Essa aproximação, porém, também pode aumentar a exposição do Brasil às mudanças de prioridades da política externa norte-americana, conforme a avaliação do especialista.
China continua sendo peça central da economia brasileira
Apesar do interesse em ampliar os laços com Washington, uma ruptura com Pequim teria obstáculos econômicos significativos.
Entre janeiro e agosto de 2026, a China comprou US$ 77,1 bilhões em produtos brasileiros, o equivalente a 30,7% das exportações do país no período. Os Estados Unidos compraram US$ 24,1 bilhões, correspondentes a 9,6% do total.
Os números citados pela Gazeta do Povo mostram que o mercado chinês absorveu mais de três vezes o valor exportado pelo Brasil aos norte-americanos nesses oito meses. A diferença evidencia o peso de Pequim para setores exportadores brasileiros, especialmente aqueles ligados às commodities.
Para o economista Marcos Valle, professor da Escola de Negócios da Universidade Positivo, essa relação comercial funcionaria como um freio para uma mudança mais radical na política econômica externa.
O especialista ressalta que Estados Unidos e Brasil concorrem em segmentos como agronegócio e mineração, o que limita a possibilidade de os americanos substituírem integralmente a demanda chinesa por produtos brasileiros.
Por isso, a mudança mais provável, segundo a análise publicada, não seria o encerramento das relações comerciais com Pequim, mas uma revisão de prioridades em áreas como financiamento de infraestrutura, contratos estatais de longo prazo e cooperação tecnológica e espacial.
Flávio afirmou, em setembro, que pretende manter uma relação pragmática com a China e que o Brasil não precisa escolher entre Pequim e Washington. Ao mesmo tempo, já defendeu a revisão da participação brasileira no Brics, grupo que reúne, entre outros países, China e Rússia.
A combinação dessas posições indica que a discussão envolve o equilíbrio entre interesses comerciais e alinhamentos estratégicos, e não apenas uma escolha diplomática entre duas potências.
Tarifaço de Trump pressiona relação comercial
Outro desafio para um eventual governo Flávio seria administrar as barreiras comerciais impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros.
Segundo a reportagem da Gazeta do Povo, medidas tarifárias adotadas pelo governo Trump elevaram a tributação adicional de determinados produtos brasileiros a até 37,5%, quando as sobretaxas aplicáveis se acumulam. De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, as medidas alcançavam cerca de 23,1% das exportações brasileiras para o mercado norte-americano.
Brasil e Estados Unidos já haviam iniciado conversas para discutir barreiras tarifárias e não tarifárias. Em 30 de setembro, representantes dos dois governos se reuniram durante uma agenda ministerial do G20, em Milwaukee, e acertaram a criação de um grupo de trabalho para discutir possíveis soluções.
Flávio defende ampliar o diálogo com Trump e chegou a propor uma nova zona de livre comércio nas Américas, inspirada no acordo comercial que reúne Estados Unidos, México e Canadá.
A ideia, no entanto, não depende exclusivamente da afinidade política entre os presidentes. Qualquer negociação precisaria considerar os interesses dos setores produtivos brasileiros, as condições oferecidas pelos Estados Unidos e os compromissos comerciais assumidos pelo Brasil.
Uma aproximação diplomática poderá facilitar conversas, mas não garante, por si só, a retirada das tarifas ou a obtenção de condições comerciais mais favoráveis.
Mercosul pode entrar em nova fase de pressão por mudanças
O futuro do Mercosul também aparece entre os pontos centrais das propostas associadas a um eventual governo Flávio.
Atualmente, a Decisão 32/2000 do Conselho do Mercado Comum estabelece que os países integrantes do bloco negociem conjuntamente acordos comerciais com terceiros países ou blocos quando houver concessão de preferências tarifárias. As decisões do Mercosul são adotadas por consenso entre seus integrantes.
Flávio defende flexibilizar essas regras para permitir que o Brasil negocie acordos bilaterais com maior autonomia, inclusive com os Estados Unidos.
A proposta encontra afinidade com a posição do presidente argentino Javier Milei, que também defende maior liberdade comercial para os integrantes do bloco.
Uma eventual convergência entre Brasil e Argentina poderia ampliar a pressão por mudanças nas regras atuais. A concretização dessas alterações, entretanto, dependeria de negociações entre os integrantes e da compatibilidade das novas propostas com os compromissos existentes.
Para Marco Aurelio da Silva, a flexibilização permitiria ao Brasil buscar acordos individualmente, mas poderia reduzir parte do poder de barganha obtido nas negociações coletivas.
Marcos Valle também aponta riscos para a indústria regional. Uma redução da coordenação comercial poderia facilitar acordos bilaterais, mas exigiria avaliar os efeitos sobre a Tarifa Externa Comum, a concorrência internacional e a capacidade de proteção de setores produtivos locais.
Acordo com a União Europeia entra no cálculo
A discussão sobre o Mercosul também envolve as negociações com a União Europeia e a relação comercial com a China.
Ao negociar como bloco, os países sul-americanos buscam ampliar seu poder de negociação diante de mercados maiores. A flexibilização das regras não significaria automaticamente o fim dos acordos existentes, mas poderia modificar a dinâmica de futuras negociações e reduzir a capacidade de atuação conjunta.
Há ainda o risco de que uma maior abertura comercial, sem medidas para fortalecer a competitividade industrial, amplie a pressão sobre fabricantes brasileiros diante da concorrência de produtos importados.
Na avaliação de Valle, negociações individuais podem oferecer maior liberdade aos governos, mas também diminuir a força coletiva dos países sul-americanos diante de grandes potências econômicas.
O desafio seria conciliar a busca por novos mercados e investimentos com a preservação da capacidade produtiva nacional.
Decisão terá consequências além da diplomacia
As propostas de Flávio Bolsonaro apontam para uma possível reorganização das prioridades internacionais do Brasil, com maior aproximação estratégica dos Estados Unidos e pressão por mudanças no Mercosul. Ao mesmo tempo, o peso da China no comércio exterior brasileiro limita a margem para um afastamento abrupto.
Os efeitos de uma eventual mudança dependeriam das medidas efetivamente adotadas, dos termos negociados com Washington e Pequim e da capacidade de construir acordos com os demais integrantes do Mercosul.
A escolha entre maior autonomia para negociar individualmente e a preservação da força das negociações coletivas envolve consequências para exportadores, indústria, investimentos, emprego e desenvolvimento tecnológico.
Com o segundo turno marcado para 25 de outubro, a política externa se torna parte importante do debate sobre os rumos econômicos do país. Mais do que definir parceiros preferenciais, um eventual novo governo teria de transformar suas propostas em acordos concretos e demonstrar como pretende equilibrar interesses comerciais, segurança estratégica e competitividade nacional.
Europa acompanha eleição brasileira de olho no futuro do acordo com o Mercosul
Lisboa – O que muda na relação do Brasil com a Europa se Flávio Bolsonaro chegar ao Palácio do Planalto? A pergunta ganhou importância depois do primeiro turno da eleição brasileira e interessa especialmente a um continente que tem muito dinheiro em jogo na relação com o Brasil e o Mercosul.
Para os europeus, o resultado interessa muito além da política brasileira. Brasil e União Europeia registraram em 2025 uma corrente comercial recorde de US$ 100,1 bilhões. Foram US$ 49,81 bilhões em exportações brasileiras e US$ 50,3 bilhões em produtos europeus vendidos ao Brasil.
Há ainda o acordo entre União Europeia e Mercosul. Segundo a Comissão Europeia, o comércio de mercadorias entre os dois blocos movimenta cerca de €88 bilhões por ano. Somados os serviços, são outros € 34 bilhões.
É nesse cenário que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro introduz uma dúvida: qual seria o espaço da Europa numa política externa mais próxima dos Estados Unidos de Donald Trump?
Os sinais dados até agora pelo senador apontam para uma relação diferente daquela construída pelo governo Lula com as principais capitais europeias.
A relação com Washington caminha em sentido oposto. A proximidade política da família Bolsonaro com Trump é conhecida e coloca os Estados Unidos como candidato natural a ocupar posição central numa eventual política externa do novo governo.
Isso não significa, por si só, que Flávio Bolsonaro abandonaria ou bloquearia o acordo com a União Europeia. Não há, até agora, elementos suficientes para fazer essa afirmação. Mas uma mudança nas prioridades diplomáticas brasileiras poderia reduzir o peso político dado às negociações com Bruxelas justamente quando europeus e sul-americanos tentam transformar décadas de negociação em resultados concretos.
Há outro elemento nessa equação. A União Europeia é o segundo maior parceiro comercial do Mercosul em bens, atrás apenas da China. E o Brasil responde pela maior parcela das relações comerciais do bloco sul-americano com os europeus.
Portugal acompanha esse movimento de uma posição particular. Além dos laços históricos e econômicos com o Brasil, o país tem hoje o Chega como uma das principais forças de sua direita. André Ventura e integrantes do bolsonarismo mantêm afinidades políticas públicas. Uma eventual aproximação entre essas forças criaria um novo componente na relação entre Lisboa e Brasília, embora seja prematuro afirmar que o Chega substituiria os canais diplomáticos tradicionais.
O que está em jogo, portanto, não é apenas saber se Lula ou Flávio Bolsonaro ocupará o Planalto.
Uma vitória de Lula representaria maior previsibilidade na relação construída nos últimos anos com Bruxelas e na defesa do multilateralismo. Flávio Bolsonaro ainda é uma incógnita maior para os europeus. Suas declarações sobre Macron e a proximidade com Trump fornecem algumas pistas, mas ainda não constituem um programa de política externa.
Para uma relação comercial que movimenta dezenas de bilhões de euros todos os anos, essa incerteza já é, por si só, uma questão econômica.
Fontes: Gazeta do Povo, CNN Brasil, Tribunal Superior Eleitoral (TSE), RTP, CNN Portugal, The Guardian e El País
