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Fim da escala 6×1 pode acelerar troca de trabalhadores por máquinas e aumentar risco de desemprego em 2027

Com a redução da jornada semanal para 40 horas e a manutenção dos salários, empresas podem buscar automação para conter custos, enquanto negócios endividados enfrentam o risco de demissões, perda de competitividade e até falência.


Foto: Reprodução

 

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O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), disse que vai promulgar nesta sexta (16) a Proposta de Emenda à Constituição (PEC 221), que acaba com a escala um dia de descanso a cada seis de trabalho no país, a escala 6×1.

O fim da escala 6×1 no Brasil abre uma nova frente de preocupação para o setor produtivo: além do possível aumento das despesas trabalhistas, a mudança poderá incentivar empresas a investir em máquinas, robôs e inteligência artificial para manter a produtividade com menos horas de trabalho disponíveis.

A proposta de emenda à Constituição (PEC 221/2019), aprovada pelo Senado Federal em dois turnos no dia 14 de outubro de 2026, prevê dois dias de descanso remunerado por semana e a redução da jornada máxima das atuais 44 para 40 horas, sem diminuição salarial. O texto estabelece uma transição de 14 meses e deverá ser promulgado pelo Congresso Nacional.

O debate econômico agora envolve uma questão central: diante da necessidade de reorganizar as equipes e controlar despesas, parte das empresas poderá optar por automatizar atividades que hoje dependem de trabalhadores. Esse movimento pode reduzir a abertura de vagas em determinadas funções e aumentar a pressão sobre profissionais que exercem tarefas repetitivas.

Não há, porém, evidências suficientes para afirmar que a mudança provocará, necessariamente, uma onda generalizada de desemprego. O impacto dependerá da resposta das empresas, da evolução da produtividade, da demanda por produtos e serviços e das condições econômicas do país.

 

Presidente do Senado Federal, senador Davi Alcolumbre (União-AP) –  Foto: Reprodução/Agência Senado

 

Aumento dos custos pode acelerar a automação

O fim da escala 6×1 exige que empresas que dependem de funcionamento contínuo reorganizem seus turnos para garantir dois dias de descanso remunerado aos funcionários.

Em atividades como supermercados, restaurantes, indústrias, transportes e serviços de segurança, a redução das horas disponíveis por trabalhador pode exigir contratações adicionais, redistribuição de equipes ou investimentos em tecnologia.

Segundo estimativas citadas pela Gazeta do Povo, a elevação dos custos trabalhistas pode chegar a 20% em empresas que atualmente operam com jornadas de 44 horas semanais. A Confederação Nacional da Indústria (CNI), por sua vez, calcula que a redução da jornada para 40 horas, sem corte salarial, poderá elevar os custos da economia em até R$ 267,2 bilhões.

Diante desse cenário, a automação pode ganhar espaço como alternativa para reduzir despesas no longo prazo. Em vez de contratar novos funcionários para cobrir os períodos de folga, algumas empresas poderão avaliar a viabilidade de instalar equipamentos capazes de executar determinadas tarefas com menor intervenção humana.

Supermercados, restaurantes e indústrias estão entre os setores expostos

A substituição de mão de obra por tecnologia não é um fenômeno novo, mas o aumento dos custos pode tornar determinados investimentos mais atraentes para as empresas.

No comércio, supermercados podem ampliar a instalação de caixas de autoatendimento, sistemas de pagamento automático e ferramentas digitais de controle de estoque. Essas tecnologias podem reduzir a necessidade de trabalhadores em algumas funções, embora também exijam profissionais para suporte, manutenção e atendimento aos clientes.

No setor de alimentação, redes de fast-food podem investir em quiosques de pedidos, equipamentos automatizados de preparo e sistemas digitais para organizar a produção. Nas indústrias, robôs e linhas automatizadas podem assumir tarefas repetitivas, principalmente em operações padronizadas.

Já na logística, sistemas robotizados de armazenagem e separação de mercadorias podem diminuir a dependência de determinadas atividades operacionais.

A adoção dessas tecnologias, entretanto, exige capital, infraestrutura e planejamento. Por isso, grandes empresas tendem a ter mais condições de realizar investimentos desse tipo, enquanto pequenos negócios podem enfrentar dificuldades para financiar a modernização.

Pequenas empresas podem enfrentar uma escolha difícil

Para empresas com margens reduzidas, a combinação de despesas trabalhistas maiores, juros elevados e dificuldade de acesso ao crédito pode tornar a adaptação mais complexa.

Um pequeno restaurante, por exemplo, poderá precisar contratar funcionários adicionais para cobrir os turnos ou reorganizar o funcionamento do estabelecimento. Dependendo dos custos e da demanda, também poderá avaliar equipamentos que automatizem parte do atendimento ou da preparação dos alimentos.

Se nenhuma alternativa for financeiramente viável, o negócio poderá reduzir horários de funcionamento, adiar investimentos, diminuir contratações ou, em situações extremas, encerrar as atividades.

O problema é que a automação não está ao alcance de todas as empresas. Enquanto grandes redes conseguem diluir os custos de tecnologia em centenas de unidades, estabelecimentos menores podem ter dificuldade para recuperar o investimento.

Esse cenário aumenta a preocupação com a competitividade e com a sobrevivência de negócios que já enfrentam dificuldades financeiras.

Risco de desemprego envolve também a redução de novas vagas

Os efeitos da automação sobre o mercado de trabalho podem ocorrer de diferentes maneiras. O primeiro é a substituição direta de funcionários por máquinas. O segundo, menos visível, é a redução das contratações que seriam necessárias para expandir uma operação.

Uma empresa que automatiza o atendimento, por exemplo, pode manter seu quadro atual, mas deixar de contratar novos trabalhadores à medida que o negócio cresce. Em outros casos, a tecnologia pode eliminar determinadas funções ou reduzir a quantidade de profissionais necessária para executar uma tarefa.

Os trabalhadores que exercem atividades repetitivas ou facilmente padronizadas podem ficar mais expostos a esse processo. Ao mesmo tempo, pode aumentar a demanda por técnicos de manutenção, profissionais de tecnologia, operadores de equipamentos e especialistas em sistemas automatizados.

O risco social aparece quando os postos eliminados desaparecem mais rapidamente do que as novas oportunidades são criadas, especialmente para trabalhadores sem acesso à qualificação profissional.

Endividamento e falências podem agravar o cenário

A discussão sobre automação ocorre em um ambiente de preocupação com a saúde financeira das empresas brasileiras.

Dados da Serasa Experian citados pela Gazeta do Povo indicavam que 9,2 milhões de empresas estavam inadimplentes em julho, acumulando R$ 238,6 bilhões em dívidas.

Nesse contexto, um aumento das despesas operacionais pode pressionar ainda mais os negócios que já enfrentam dificuldades de caixa. Caso não consigam elevar a produtividade, repassar custos aos preços ou financiar mudanças na operação, algumas empresas poderão recorrer à recuperação judicial ou encerrar suas atividades.

O fechamento de estabelecimentos também pode provocar desemprego, independentemente de haver substituição direta de trabalhadores por máquinas.

Ainda assim, os números de inadimplência e as projeções de custos não comprovam que o fim da escala 6×1 causará uma nova onda de falências. Eles indicam vulnerabilidades existentes e possíveis pressões adicionais que precisam ser consideradas durante a implementação da mudança.

Trabalhadores também podem se beneficiar da mudança

A discussão não se resume aos riscos para as empresas. Defensores da redução da jornada argumentam que mais tempo de descanso pode melhorar a qualidade de vida, reduzir o desgaste físico e mental e contribuir para a produtividade.

Além disso, empresas que conseguirem organizar melhor suas operações poderão compensar parte dos custos com redução da rotatividade, menos faltas e melhor aproveitamento das equipes.

Uma reportagem publicada pelo UOL em 15 de outubro de 2026 destacou justamente a possibilidade de que a adoção de jornadas diferentes reduza os custos associados à substituição frequente de funcionários.

Isso significa que o efeito final da mudança não depende apenas do número de horas trabalhadas, mas também de como as empresas reorganizam seus processos e de quanto conseguem produzir durante o tempo disponível.

O desafio será equilibrar produtividade, emprego e custos

O fim da escala 6×1 coloca empresas e trabalhadores diante de uma transição que exigirá planejamento. Para os negócios, o desafio será adaptar turnos, avaliar investimentos em tecnologia e preservar a sustentabilidade financeira. Para os trabalhadores, a preocupação será garantir que os ganhos de qualidade de vida não sejam acompanhados pela redução de oportunidades profissionais.

O governo e o Congresso também terão papel importante na definição de medidas de transição, qualificação profissional e apoio aos pequenos negócios, respeitando as regras que vierem a ser implementadas.

A automação pode ajudar a compensar parte do aumento dos custos, mas também pode ampliar desigualdades entre empresas e trabalhadores com diferentes níveis de acesso à tecnologia.

O principal risco para 2027, portanto, não está apenas na possibilidade de máquinas substituírem funcionários, mas na combinação de custos maiores, dificuldades financeiras e falta de preparação para uma economia cada vez mais automatizada. O tamanho desse impacto ainda é incerto e dependerá de como o país conduzirá a transição para a nova jornada de trabalho.

Fontes: