
Flávio Bolsonaro na Marcha para Jesus, em São Paulo – Foto: Miguel Schincariol/AFP
A disputa presidencial de 2026 tem sido marcada por mudanças no comportamento de eleitores que, em eleições anteriores, apoiaram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas agora declaram voto no senador Flávio Bolsonaro (PL). Relatos de moradores do Maranhão e do Paraná mostram como fatores econômicos, insatisfação com o governo federal e a influência do agronegócio ajudam a explicar parte dessa mudança.
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O movimento ocorre em um cenário de disputa acirrada. Segundo os dados apresentados na reportagem original da BBC News Brasil, Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente de Lula, ampliando a pressão sobre o atual presidente na corrida pela reeleição.
Uma pesquisa Genial/Quaest divulgada em 14 de outubro também indicou uma disputa apertada entre os dois candidatos. O levantamento apontou 46% das intenções de voto para Flávio Bolsonaro e 44% para Lula, com margem de erro de dois pontos percentuais, configurando empate técnico.
Mudança de voto passa por economia e visão sobre programas sociais
No Maranhão, a social media Sara Duarte, de 30 anos, conta que decidiu votar em Flávio Bolsonaro após anos de identificação familiar com o Partido dos Trabalhadores (PT). Filha de trabalhadores que, segundo seu relato, foram beneficiados por oportunidades e políticas sociais, ela afirma reconhecer a importância dessas iniciativas, mas diz que passou a enxergar de outra forma o papel do Estado na vida da população.
A mudança de perspectiva ocorreu, segundo Sara, depois que ela se mudou com o marido de São Luís para Balsas, município conhecido pela produção de soja e pela presença de empresas ligadas ao agronegócio.
A convivência com empresários e profissionais do setor rural teria influenciado sua visão sobre empreendedorismo, mérito individual e assistência social. Para ela, programas como o Bolsa Família são importantes para famílias em situação de vulnerabilidade, mas não deveriam, em sua avaliação, substituir oportunidades de crescimento econômico e profissional.
Sara afirma que chegou a considerar uma alternativa fora da polarização entre PT e PL, mas optou por Flávio Bolsonaro por acreditar que ele teria condições de derrotar o atual presidente.
A escolha, segundo ela, provocou divergências com familiares que continuam apoiando Lula.
Insatisfação com impostos e denúncias também pesa no eleitorado
Outro exemplo é o do artista plástico Felipe Crispim, de 30 anos, que mora em Balsas há uma década. Depois de votar em Jair Bolsonaro em 2018 e em Lula em 2022, ele decidiu apoiar Flávio Bolsonaro nesta eleição.
Felipe aponta preocupações com a economia, a carga tributária, as investigações envolvendo descontos indevidos em benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e sua percepção sobre a relação entre o governo federal e o Supremo Tribunal Federal (STF).
O artista também relata frustração com a tributação de compras internacionais, conhecida popularmente como “taxa das blusinhas”, e afirma que as políticas públicas de incentivo à cultura não têm alcançado profissionais independentes de sua região.
Na avaliação de Felipe, a alternância de poder é importante para evitar que um mesmo grupo permaneça por muito tempo no comando do país. Ele afirma, porém, que não sabe se um eventual governo de Flávio Bolsonaro atenderia às expectativas que tem para o Brasil.
O caso dos descontos indevidos no INSS ganhou repercussão nacional após investigações da Controladoria-Geral da União (CGU) e da Polícia Federal. As irregularidades envolveram cobranças associativas realizadas sem autorização de beneficiários, provocando questionamentos sobre os mecanismos de fiscalização e controle.
A dimensão do caso e a divulgação das investigações durante o governo Lula ampliaram a pressão política sobre a administração federal. Entretanto, a responsabilidade por eventuais irregularidades deve ser estabelecida com base nas investigações e nas decisões das autoridades competentes.
Agronegócio influencia o cenário eleitoral
A força econômica do agronegócio aparece como um dos elementos que ajudam a compreender a mudança de comportamento eleitoral em municípios produtores. Em Balsas, a cadeia da soja movimenta empresas, transportadoras, oficinas, estabelecimentos comerciais e prestadores de serviços, ampliando a influência do setor para além dos proprietários rurais.
A cidade é considerada um dos principais polos econômicos do sul do Maranhão. O desenvolvimento da produção de soja começou a ganhar força a partir do final da década de 1970, com a chegada de produtores de outras regiões do país e o desenvolvimento de variedades agrícolas adaptadas às condições locais.
A expansão do setor transformou a economia municipal e fortaleceu a ligação de Balsas com cadeias produtivas que envolvem diferentes estados brasileiros.
O economista Fernando Rugitsky, pesquisador da Universidade de Londres, utiliza o conceito de “agrobolsonarismo” para descrever uma aproximação política que, segundo sua análise, envolve não apenas grandes empresários rurais, mas também produtores de médio porte e outros segmentos econômicos ligados à expansão agrícola.
Uma análise atribuída ao instituto Quaest também identificou uma relação entre a participação do agronegócio na economia municipal e o crescimento da votação de Flávio Bolsonaro em comparação com o desempenho de seu pai, Jair Bolsonaro, em 2022.
Segundo a interpretação apresentada pelo cientista político Felipe Nunes, da Quaest, os efeitos econômicos do agronegócio alcançam trabalhadores e empreendedores de diferentes atividades, mesmo aqueles que não trabalham diretamente nas propriedades rurais.
Em Balsas, o presidente do sindicato patronal do setor, Daniel Marcos Lech, afirma que a atividade agrícola contribui para fortalecer a identificação de parte dos moradores com ideias de liberdade econômica, menor intervenção estatal e redução de impostos.
Essa interpretação, entretanto, não significa que todos os trabalhadores ou moradores de cidades agrícolas compartilhem a mesma orientação política. As condições de trabalho, a renda, a estrutura produtiva e as prioridades individuais podem produzir comportamentos eleitorais diferentes dentro de uma mesma região.
Maranhão registra redução da votação de Lula
Os dados apresentados na reportagem original indicam que Lula perdeu participação nos votos válidos em todos os estados do Nordeste em comparação com 2022. No Maranhão, o percentual caiu de 68,84% para 63,91%, uma redução de 4,94 pontos percentuais.
Entre os municípios com quedas expressivas estão Baixa Grande do Ribeiro, no Piauí, e Tasso Fragoso e Balsas, no Maranhão, localidades situadas no Matopiba, região de expansão agrícola que abrange partes do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.
Em Balsas, Lula havia conquistado 51,65% dos votos no primeiro turno de 2022. Em 2026, segundo os números apresentados na reportagem original, Flávio Bolsonaro obteve 55,46% dos votos válidos no município.
Os números indicam uma alteração no equilíbrio eleitoral local, mas não permitem atribuir a mudança a um único motivo. A avaliação dos eleitores envolve uma combinação de fatores econômicos, sociais, culturais e políticos.
Cidade paranaense com histórico petista também muda de direção
A mudança também aparece em São João do Triunfo, município do Paraná com aproximadamente 14 mil habitantes e histórico de administrações ligadas ao PT.
A cidade elegeu seu primeiro prefeito petista em 1988 e, desde então, manteve uma relação política com o partido. Em 2022, Lula recebeu 58,57% dos votos válidos no município, contra 33,76% de Jair Bolsonaro.
Em 2026, o resultado foi diferente: Flávio Bolsonaro alcançou 51,60%, enquanto Lula ficou com 37,81%, conforme os dados apresentados na reportagem original.
A redução da votação petista ocorreu em uma cidade cuja economia tem forte presença da agricultura familiar e da produção de tabaco. De acordo com os números citados no material, cerca de 82,5% das propriedades rurais eram classificadas como familiares nos dados do IBGE de 2017.
A aproximação histórica de São João do Triunfo com a esquerda teve influência de movimentos comunitários e religiosos ligados à Teologia da Libertação, além da organização de trabalhadores e moradores em iniciativas coletivas.
O historiador Jeferson do Nascimento Machado relaciona a mudança eleitoral a uma combinação de fatores, incluindo a aproximação de parte da população com pautas defendidas pelo agronegócio, o distanciamento entre o PT local e setores de sua antiga base de apoio e a influência das redes sociais.
O prefeito Mário Cezar Silva (PT), por sua vez, reconhece a identificação de parte dos moradores com temas como propriedade rural, produção, liberdade econômica, segurança e redução de impostos. Ele também afirma que investimentos públicos em obras e serviços não se converteram automaticamente em apoio eleitoral.
O cenário demonstra que a história política de um município não determina, por si só, o comportamento de seus eleitores. Mesmo localidades com décadas de proximidade com um partido podem registrar mudanças significativas diante de novas prioridades e disputas de narrativa.
Redes sociais ampliam a disputa por eleitores
Além da economia, o ambiente digital aparece nos relatos como um espaço importante para a formação de opiniões políticas. A circulação de vídeos, comentários de influenciadores e conteúdos de campanha pode aproximar candidatos de públicos que não acompanham diretamente as atividades partidárias tradicionais.
O pesquisador Jeferson do Nascimento Machado avalia que perfis ligados à direita têm conseguido alcançar parcelas do eleitorado por meio de conteúdos nas redes sociais, enquanto o PT enfrenta o desafio de comunicar suas ações a públicos mais jovens.
Esse fenômeno ocorre em uma campanha marcada também por disputas sobre a circulação de informações políticas nas plataformas digitais. Por isso, verificar a origem das informações, consultar documentos e distinguir opiniões de fatos comprovados é importante para compreender os argumentos apresentados durante a eleição.
As redes sociais também permitem que eleitores compartilhem experiências pessoais, críticas e expectativas em relação aos candidatos. Ao mesmo tempo, a circulação de conteúdos sem verificação pode dificultar a identificação de informações incorretas ou fora de contexto.
Eleitores buscam alternativas e cobram resultados
Os depoimentos de Sara Duarte e Felipe Crispim mostram que a mudança de voto não está necessariamente ligada à adesão integral a um partido ou candidato. Em seus relatos, pesam a insatisfação com a administração federal, a expectativa de mudanças econômicas e a avaliação sobre os rumos do país.
Sara afirma que sua decisão foi motivada principalmente pela rejeição a Lula e pela expectativa de mudança. Felipe, por sua vez, destaca a importância da alternância de poder e diz que ainda não tem certeza sobre os resultados que um eventual governo de Flávio Bolsonaro poderia produzir.
As experiências individuais ajudam a ilustrar a complexidade do comportamento eleitoral, mas não representam, isoladamente, o conjunto dos brasileiros. Para compreender tendências nacionais, é necessário considerar pesquisas com metodologia conhecida, resultados oficiais e diferenças regionais.
Disputa presidencial segue no centro do debate nacional
A eleição de 2026 coloca em evidência temas como economia, programas sociais, impostos, segurança pública, corrupção, valores culturais e comunicação política. O peso de cada questão varia conforme a experiência dos eleitores e as condições econômicas e sociais de cada região.
A influência do agronegócio em municípios produtores, como Balsas e São João do Triunfo, é um dos elementos que ajudam a explicar mudanças locais, mas não deve ser considerada a única causa da alteração no comportamento eleitoral.
Os próximos movimentos da campanha dependem das propostas apresentadas pelos candidatos, da avaliação dos eleitores sobre o governo e da capacidade de cada candidatura de responder às preocupações da população.
Fontes para consulta e checagem editorial:
- Tribunal Superior Eleitoral (TSE): https://www.tse.jus.br/
- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE): https://www.ibge.gov.br/
- Quaest: https://quaest.com.br/
- Agência Brasil: https://agenciabrasil.ebc.com.br/
- MapBiomas: https://brasil.mapbiomas.org/
