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El Niño intenso pode pressionar produção agrícola, elevar custos e aumentar volatilidade no mercado global

Fenômeno climático previsto para os próximos meses preocupa produtores de soja, milho, café e pecuária, com impactos diferentes entre as regiões brasileiras e possíveis reflexos nos preços internacionais das commodities.


A possibilidade de um dos episódios mais intensos de El Niño das últimas décadas coloca o agronegócio brasileiro em estado de atenção. As projeções climáticas indicam que o fenômeno poderá modificar significativamente o regime de chuvas em diversas regiões do país, influenciando o desenvolvimento de culturas estratégicas, como soja, milho e café, além de afetar a pecuária, a produção de leite e o mercado internacional de commodities.

De acordo com previsões climáticas divulgadas por organismos internacionais, o atual episódio de El Niño poderá figurar entre os mais fortes desde o início do monitoramento moderno, intensificando os desafios para o planejamento da safra 2026/27.

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No Brasil, os efeitos costumam variar conforme a região. Enquanto os estados do Centro-Sul tendem a registrar chuvas acima da média, áreas do Norte e Nordeste normalmente enfrentam redução das precipitações, temperaturas mais elevadas e maior risco de estiagens prolongadas.

 

Imagem produzida por IA

 

Soja, milho e algodão estão entre as culturas mais sensíveis

O período entre julho e setembro é considerado estratégico para o início do calendário agrícola brasileiro. Caso as chuvas ocorram de forma irregular ou sofram atrasos, produtores podem enfrentar dificuldades no plantio da soja, incluindo a necessidade de replantio em algumas áreas.

O atraso da semeadura também compromete a janela ideal do milho de segunda safra, aumentando a exposição da cultura ao déficit hídrico durante o desenvolvimento das plantas. Situação semelhante pode ocorrer com o algodão, cuja produtividade depende do sincronismo entre o calendário agrícola e as condições climáticas.

Especialistas destacam, entretanto, que um evento climático intenso não significa necessariamente perdas generalizadas. Os impactos tendem a ocorrer de forma desigual, dependendo das características climáticas e produtivas de cada região.

Segundo análises do mercado, áreas do Cerrado apresentam maior vulnerabilidade para a soja e o milho safrinha, enquanto estados do Sul, além de países vizinhos como Argentina e Paraguai, podem enfrentar excesso de chuvas, favorecendo alagamentos e dificultando o manejo das lavouras.

No cenário internacional, a preocupação também aumenta porque os estoques globais de soja permanecem mais ajustados após o equilíbrio entre produção e consumo registrado na última safra mundial.

Café depende do comportamento das floradas

A cafeicultura também acompanha atentamente a evolução das condições climáticas. Chuvas fora de época já interferem na colheita em algumas regiões produtoras e o setor agora concentra atenção na próxima florada, fase considerada decisiva para a formação da safra seguinte.

Embora o mercado ainda projete uma recuperação da produção brasileira de café, especialmente da variedade arábica, especialistas alertam que alterações no regime de chuvas durante esse período poderão comprometer parte do potencial produtivo da safra 2027/28.

Pecuária também pode sentir os efeitos

As consequências do El Niño não se restringem às lavouras. Ondas de calor previstas para importantes estados produtores podem reduzir o desempenho dos animais e afetar índices de produtividade na pecuária.

Outro fator de preocupação envolve a alimentação animal. Caso haja redução na oferta de milho e soja, os custos da ração tendem a subir, pressionando segmentos como avicultura, suinocultura e bovinocultura de corte e leite.

No setor leiteiro, o excesso de chuvas na Região Sul pode dificultar a produção em importantes bacias leiteiras, enquanto a escassez de precipitações em parte do Sudeste e Nordeste também pode limitar a disponibilidade de pastagens.

Efeitos variam conforme a região

Os impactos climáticos deverão ocorrer de forma bastante heterogênea em todo o território nacional.

No Norte, a previsão de chuvas abaixo da média aumenta os riscos de seca, queimadas, redução do nível dos rios e dificuldades logísticas para o transporte de grãos pelos corredores do Arco Norte.

Na região do Matopiba — formada por áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — o cenário combina temperaturas elevadas e menor volume de chuvas, elevando o risco de perdas agrícolas.

Em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás, a principal preocupação está relacionada ao calor excessivo e à irregularidade das precipitações durante o plantio das principais culturas.

Já no Sudeste, café, cana-de-açúcar, citros, soja e milho poderão enfrentar alternância entre calor intenso e distribuição irregular das chuvas.

Na Região Sul, por outro lado, o excesso de precipitações poderá favorecer enchentes e ampliar a incidência de doenças fúngicas em culturas como trigo, arroz, milho, soja e tabaco.

Mercado internacional acompanha evolução do fenômeno

Além dos efeitos sobre a agricultura brasileira, especialistas observam possíveis impactos em importantes regiões produtoras do mundo.

Na Ásia, alterações climáticas podem afetar a produção de açúcar, influenciando a oferta global da commodity.

Na África Ocidental, onde está concentrada a maior parte da produção mundial de cacau, temperaturas mais elevadas e redução das chuvas podem intensificar o estresse hídrico das plantações, cenário que pode manter o mercado internacional sob pressão nos próximos meses.

O que dizem os especialistas

Pesquisadores da Organização Meteorológica Mundial (OMM), da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) explicam que o El Niño altera a circulação atmosférica global, modificando a distribuição das chuvas e das temperaturas em diferentes continentes.

No Brasil, estudos dessas instituições mostram que episódios fortes do fenômeno costumam provocar aumento das chuvas na Região Sul e redução das precipitações em parte do Norte e Nordeste, embora os impactos variem conforme a intensidade do evento e outros fatores climáticos. Pesquisas também indicam que temperaturas elevadas, déficit hídrico e excesso de chuva durante fases críticas do desenvolvimento das culturas podem reduzir a produtividade de soja, milho, café e outras lavouras.

Especialistas destacam ainda que o monitoramento climático contínuo permite aos produtores ajustar o calendário de plantio, selecionar cultivares mais adaptadas e adotar estratégias de manejo capazes de reduzir parte dos riscos provocados por eventos climáticos extremos. Embora o El Niño aumente a probabilidade de impactos sobre a produção agrícola, seus efeitos não ocorrem de maneira uniforme e dependem das condições locais, do manejo adotado e da evolução das condições meteorológicas ao longo da safra.