
Um pescador carrega um pirarucu na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Mamirauá, em Fonte Boa, estado do Amazonas – Foto: AFP / via Getty Images
O couro exótico e resistente do pirarucu, um dos maiores peixes de água doce do mundo, virou matéria-prima para bolsas e acessórios vendidos por milhares de reais no Brasil e no exterior. Mas os lucros da moda de luxo ainda não chegam às mãos dos pescadores amazônidas, que garantem a preservação da espécie.
Considerado um exemplo de manejo sustentável, o modelo atual de pesca do pirarucu — controlado e autorizado pelo Ibama — ajudou a recuperar a população do peixe na Amazônia. Comunidades ribeirinhas e indígenas são responsáveis pela vigilância dos lagos e participam do processo de captura, que ocorre em épocas e quantidades específicas.
Continua depois da Publicidade

Acessórios com couro de pirarucu que custam milhares de reais são anunciados no site da marca Osklen – Foto: Osklen/Reprodução
A iniciativa é elogiada por ambientalistas e abraçada por marcas nacionais como Osklen, e internacionais como Giorgio Armani e Piper & Skye, que destacam a combinação de luxo e sustentabilidade.
No entanto, especialistas e representantes dessas comunidades afirmam que a maior parte dos lucros com a venda do couro de pirarucu não chega a quem está na base da cadeia produtiva. O pescador Pedro Canízio, vice-presidente da Federação dos Manejadores de Pirarucu de Mamirauá, afirma que os manejadores sequer conseguem comprar os produtos feitos com o couro que ajudaram a preservar. “O quilo do peixe é vendido a R$ 11, mas uma bolsa com o couro dele custa milhares”, diz.

Couro de pirarucu é usado por marcas de luxo, no Brasil e no exterior, para fazer acessórios como bolsas e botas – Foto: Bernardo Oliveira/Asproc/Divulgação
Segundo um estudo da ONG Operação Amazônia Nativa, 95% das peles de pirarucu são comercializadas por sete frigoríficos, e apenas 5% passam pelas associações comunitárias. A empresa Nova Kaeru, principal exportadora, domina cerca de 70% do mercado internacional, abastecendo marcas de luxo como Dolce & Gabbana, Givenchy e Rick Owens.
Apesar de afirmar que paga mais pela pele do que se paga pela carne do peixe, a Nova Kaeru é criticada por lideranças amazônicas por sua posição dominante. “É um mercado pouco aquecido e sem concorrência. E a demora no pagamento também é um problema”, diz Adevaldo Dias, do Memorial Chico Mendes.
Já a empresa argumenta que investe na região, capacita comunidades e arca com altos custos logísticos e de produção. “Nosso papel vai além de comprar. Queremos qualificar a mão de obra e garantir o futuro dessa cadeia”, diz José Leal Marques, diretor da Nova Kaeru na Amazônia.

Peixe pode pesar mais de 200 quilos – Foto: Bernardo Oliveira/Asproc/Divulgação
Enquanto isso, iniciativas como o Coletivo do Pirarucu e a marca Gosto da Amazônia tentam aumentar a participação dos pescadores na cadeia de valor. Mas faltam recursos para processar o couro nas próprias comunidades. “Se não houver retorno justo, esse trabalho de preservação pode deixar de ser atrativo”, alerta Ana Alice Oliveira, da Asproc.
Além da desigualdade econômica, há falhas graves na fiscalização. O Ibama reconhece que o controle sobre a origem do couro é limitado. “Quando o peixe vira carne ou couro, perdemos o rastreamento”, admite Igor de Brito, chefe de fiscalização do órgão.
A fiscalização é prejudicada pela falta de estrutura e pessoal. Mais de mil infrações envolvendo o pirarucu foram registradas desde os anos 2000, a maioria por pesca e transporte ilegal no Amazonas.

Operação no Amazonas apreende toneladas de pescado ilegal na região do Médio Solimões, a 360km da capital. Dentre eles estava o pirarucu – Foto: Reprodução
Estudos apontam que, com tanto peixe ilegal circulando, parte da cadeia pode estar sendo abastecida por fora do manejo sustentável — sem que o consumidor final tenha ciência.
“O couro do pirarucu virou símbolo de conservação. Mas, para isso ser real, as comunidades que protegem o peixe precisam estar no centro da economia, não nas margens”, conclui a consultora Fernanda Alvarenga.
Com informações da BBC
