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Após demora na resposta e divergências entre governos, União mobiliza 11 aeronaves para combater queimadas no Amazonas

Sobrevoo identifica focos de fogo em áreas de floresta preservada; fumaça coloca Manaus e municípios da Região Metropolitana em alerta, enquanto forças estaduais e federais ampliam operações de combate e assistência à população.


Foto: Reprodução/William Duarte/Rede Amazônica

 

O avanço dos incêndios florestais no Amazonas levou o Governo Federal a ampliar a mobilização de recursos para combater as chamas, reforçar o atendimento à população e intensificar a articulação com o governo estadual e as prefeituras. Após sobrevoar áreas atingidas neste domingo (11), o ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, afirmou que a situação encontrada é mais grave do que imaginava, especialmente pela presença de focos de incêndio em trechos de floresta preservada.

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Durante entrevista coletiva na Base Aérea de Manaus, o ministro destacou que o cenário observado não se limita ao avanço de queimadas originadas em pastagens. Segundo ele, foram identificados diversos pontos de fogo no interior da floresta, inclusive em áreas de difícil acesso.

A constatação elevou a preocupação das autoridades quanto à possibilidade de uso intencional do fogo para degradar a vegetação e preparar terrenos para futuras ocupações ou desmatamentos. A eventual responsabilização criminal, entretanto, depende da apuração dos fatos e da identificação dos responsáveis pelos órgãos competentes.

Capobianco também cobrou maior participação das forças estaduais de segurança nas operações, defendendo a atuação conjunta da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros para combater os incêndios e identificar os autores de possíveis crimes ambientais.

Governo federal anuncia reforço aéreo

Uma das principais medidas anunciadas é a mobilização de 11 aeronaves para apoiar o combate às queimadas no estado. Entre os equipamentos estão aviões Air Tractor, utilizados no lançamento de água sobre as áreas afetadas, e duas aeronaves C-390, com previsão de início das operações na segunda-feira (12).

O ministro afirmou que as equipes e os equipamentos permanecerão no Amazonas até que sejam controlados os focos de incêndio que provocam danos à população de Manaus.

 

Comitiva sobrevoa áreas afetadas por incêndios em Manaus — Foto: Reprodução/Paulo Roberto/Rede Amazônica

 

A programação da comitiva federal incluiu um sobrevoo de monitoramento na região de Autazes. A decolagem, inicialmente prevista para o começo da manhã, foi temporariamente adiada devido à densa fumaça sobre a capital, que prejudicou a visibilidade e as condições operacionais de voo.

Antes da atividade aérea, representantes dos governos federal e estadual participaram de reuniões no Centro Integrado de Comando e Controle (CICC) e na sede da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), com o objetivo de alinhar as medidas emergenciais.

A comitiva reúne representantes do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, do Ibama e da Defesa Civil, além do governador do Amazonas, Roberto Cidade, conforme informado na reportagem original.

São Paulo envia força-tarefa para apoiar operações

O esforço de combate também recebeu reforço de São Paulo. Uma equipe estadual embarcou neste domingo para atuar no Amazonas, formada por 30 profissionais: 25 bombeiros militares e cinco integrantes da Defesa Civil.

O grupo leva drones, equipamentos especializados e 11 mil litros de retardante de chamas. A atuação será integrada às equipes locais, com prioridade para o combate direto ao fogo, a contenção da propagação dos incêndios e a proteção de áreas ameaçadas.

A chegada dos profissionais amplia a capacidade operacional disponível, mas os resultados dependerão das condições meteorológicas, do acesso às regiões atingidas e da evolução dos focos de incêndio.

 

Foto: Reprodução

 

Fumaça deixa qualidade do ar em nível péssimo

Manaus amanheceu pelo quarto dia consecutivo encoberta por fumaça. O problema compromete a visibilidade, afeta a rotina da população e aumenta os riscos à saúde, principalmente para crianças, idosos, pessoas com doenças respiratórias e outros grupos vulneráveis.

Dados do Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva), da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), apontaram qualidade do ar classificada como “péssima” na capital e em outros cinco municípios da Região Metropolitana. Em Careiro, a concentração de partículas chegou a 301,2 microgramas por metro cúbico (µg/m³), segundo os dados citados na reportagem.

Diante da situação, a Defesa Civil emitiu alerta severo com recomendações para reduzir a exposição à fumaça e utilizar máscaras adequadas. A Prefeitura de Manaus suspendeu atividades e eventos públicos ao ar livre programados para domingo (11) e segunda-feira (12).

A Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM) informou que foram registrados 82 atendimentos de urgência relacionados a problemas respiratórios decorrentes da fumaça entre os dias 1º e 8 de outubro.

O número corresponde ao período informado pela secretaria e não representa, necessariamente, o total de pessoas afetadas desde o início da crise.

Emergência reconhecida em 36 municípios

A resposta institucional foi ampliada após o reconhecimento federal da situação de emergência em 36 municípios amazonenses, anunciado no sábado (10) pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR). Na mesma data, o governo estadual decretou situação de emergência relacionada aos incêndios florestais.

Manaus, por sua vez, permanece sob estado de atenção municipal, classificação adotada desde 24 de setembro diante do risco de ocorrências com potencial de provocar impactos significativos na cidade.

O ministro Waldez Góes afirmou que o reconhecimento federal permite organizar a atuação integrada das autoridades e viabilizar o acesso a recursos destinados às ações de resposta, conforme os procedimentos aplicáveis.

Além de combater as chamas, o poder público precisa atender pessoas que já enfrentam consequências dos incêndios, incluindo problemas respiratórios e necessidades de assistência humanitária. Segundo o ministro, equipes da Força Nacional do Sistema Único de Saúde (SUS) já atuam no estado.

Os municípios abrangidos pelo decreto estadual são: Autazes, Careiro, Careiro da Várzea, Iranduba, Itacoatiara, Itapiranga, Manacapuru, Manaquiri, Manaus, Novo Airão, Presidente Figueiredo, Rio Preto da Eva, Silves, Apuí, Boca do Acre, Borba, Canutama, Humaitá, Lábrea, Manicoré, Novo Aripuanã, Pauini, Tapauá, Barreirinha, Boa Vista do Ramos, Caapiranga, Coari, Eirunepé, Envira, Guajará, Ipixuna, Maués, Nova Olinda do Norte, Parintins, Tefé e Urucurituba.

Investigação e punição de responsáveis estão entre as prioridades

A presença de focos em áreas de floresta preservada levantou suspeitas de ação humana deliberada, mas a confirmação de crimes e a atribuição de responsabilidades exigem investigação.

A identificação dos autores, a apuração das circunstâncias dos incêndios e a eventual aplicação de sanções dependem da atuação dos órgãos ambientais, das forças policiais e das autoridades responsáveis pela persecução penal.

A legislação brasileira prevê sanções administrativas, civis e criminais para condutas que provoquem incêndios ilegais ou causem danos à vegetação nativa. A responsabilização deverá considerar as provas reunidas em cada ocorrência e o enquadramento jurídico aplicável.

O pedido de reforço policial feito pelo ministro busca ampliar a capacidade de fiscalização e repressão a possíveis práticas criminosas. Até o momento, as informações reproduzidas nesta reportagem não identificam suspeitos formalmente responsabilizados nem detalham operações policiais específicas relacionadas aos focos observados durante o sobrevoo.

Quais são os próximos passos?

As medidas anunciadas e as providências esperadas a partir do cenário apresentado se concentram em cinco frentes:

  • Combate aéreo e terrestre: ampliar o emprego das aeronaves, dos bombeiros e das equipes especializadas para controlar os focos ativos.
  • Monitoramento das áreas atingidas: acompanhar a evolução dos incêndios, identificar novas ocorrências e direcionar recursos para regiões prioritárias, incluindo a área de Autazes.
  • Investigação ambiental e policial: apurar a origem dos focos, reunir provas e identificar eventuais responsáveis por incêndios criminosos.
  • Assistência à população: manter o atendimento de saúde e a resposta humanitária, especialmente para pessoas expostas à fumaça e comunidades atingidas.
  • Proteção da saúde pública: acompanhar a qualidade do ar e avaliar a necessidade de manter ou ampliar medidas preventivas, como restrições a atividades ao ar livre.

O início das operações das duas aeronaves C-390 está previsto para segunda-feira (12). Já a duração das ações, a evolução dos incêndios, eventuais novas restrições e os resultados das investigações dependerão das avaliações técnicas e das decisões das autoridades competentes.

Crise exige coordenação entre governos

O cenário observado no Amazonas evidencia a necessidade de atuação simultânea no combate às chamas, na proteção da floresta, na fiscalização ambiental e no atendimento à população.

Com o reforço de aeronaves e profissionais, o reconhecimento da emergência em dezenas de municípios e a mobilização de equipes de saúde e Defesa Civil, os governos ampliam a resposta a uma crise que já afeta a qualidade do ar e a rotina de Manaus.

A efetividade das medidas será avaliada pela redução dos focos ativos, pela contenção dos danos ambientais, pela proteção das comunidades e pela capacidade de identificar e responsabilizar eventuais autores de infrações.

Resposta tardia e divergências entre governos levantam questionamentos

A intensificação das queimadas no Amazonas também expõe questionamentos sobre a velocidade da resposta do poder público e a efetividade das medidas preventivas adotadas antes de a fumaça atingir níveis críticos em Manaus.

Um dos pontos mais controversos envolve a articulação entre os governos estadual e federal. Segundo nota divulgada pelo Ministério do Meio Ambiente em 9 de outubro, o Amazonas solicitou apoio federal em 23 de setembro, mas comunicou, em 30 de setembro, que a mobilização de uma equipe especializada já não seria necessária, após chuvas contribuírem para reduzir os focos de incêndio. O ministério também informou que orientou o estado a formalizar um pedido de recursos pelo Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil, mas que a solicitação ainda não havia sido apresentada naquele momento.

A versão federal, porém, diverge da declaração do comandante do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas, que afirmou que a União havia negado o envio de quatro aeronaves solicitadas pelo estado. A divergência precisa ser esclarecida pelas duas administrações, sobretudo diante da necessidade de estabelecer quando os recursos foram pedidos, quais meios foram efetivamente disponibilizados e se eventuais atrasos comprometeram a capacidade de resposta.

Outro ponto de preocupação é que a situação de emergência estadual em 36 municípios só foi decretada em 10 de outubro, embora os órgãos envolvidos já acompanhassem o agravamento do cenário nas semanas anteriores. O Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional afirmou que vinha tratando do assunto com o governo amazonense havia semanas e que precisou insistir na rapidez da decretação e do pedido de reconhecimento federal. A formalização da emergência era necessária para viabilizar o acesso aos recursos federais destinados à resposta à crise.

A atuação preventiva também entrou na mira dos órgãos de controle. Em 7 de outubro, o Ministério Público de Contas do Amazonas encaminhou ao Tribunal de Contas do Estado uma representação para apurar a suficiência, a eficiência e a efetividade das ações estaduais de prevenção, fiscalização, combate às queimadas e proteção da saúde pública. A iniciativa questiona se as medidas adotadas foram proporcionais à dimensão do problema e pede providências urgentes. Não se trata, contudo, de uma condenação ou de uma conclusão definitiva sobre eventual omissão administrativa.

Os números reforçam a necessidade de esclarecimentos. De acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) citados em reportagem publicada em 11 de outubro, o Amazonas registrou 3.726 focos de calor em setembro de 2026, contra 942 no mesmo mês de 2025 — aumento de aproximadamente 296%. Em outubro, até a data do levantamento, já haviam sido contabilizados 1.326 focos, ante 874 no mesmo período do ano anterior.

Diante desse cenário, a chegada de aeronaves, brigadistas e equipes de outros estados representa um reforço necessário, mas também evidencia a urgência de avaliar por que a estrutura de resposta precisou ser ampliada em meio a uma crise já instalada.

A questão central, portanto, não é apenas quantos recursos serão mobilizados a partir de agora, mas se as ações de prevenção, planejamento, fiscalização e articulação institucional foram executadas com a antecedência necessária para reduzir os danos ambientais e evitar que a população fosse exposta a níveis tão elevados de poluição.

A apuração deverá esclarecer as responsabilidades de cada esfera de governo, os motivos das divergências sobre a ajuda aérea, a cronologia das decisões e a eventual existência de falhas administrativas. Até que esses pontos sejam esclarecidos por documentos e investigações, o atraso deve ser tratado como uma questão a ser apurada, e não como uma responsabilidade já comprovada.

O que merece ser cobrado das autoridades

Para dar continuidade à reportagem com rigor jornalístico, vale solicitar respostas formais sobre cinco questões:

  • Governo do Amazonas: por que a situação de emergência só foi decretada em 10 de outubro e quais medidas preventivas já estavam em andamento desde os primeiros alertas?

  • Governo Federal: quais aeronaves foram solicitadas em setembro, quais foram autorizadas ou negadas e por que a mobilização inicial foi cancelada?

  • Corpo de Bombeiros: qual era o efetivo disponível antes do agravamento da crise e quais limitações operacionais dificultaram o combate?

  • Órgãos ambientais: quantas fiscalizações foram realizadas, quantas infrações foram identificadas e quais investigações estão em andamento?

  • Tribunal de Contas do Estado: qual é o andamento da representação apresentada pelo Ministério Público de Contas e quais providências poderão ser determinadas?

Fontes oficiais para consulta e atualização