
As fumaças de queimadas na Amazônia – Foto: Reprodução/NASA/Divulgação
Imagens captadas por satélites da Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço dos Estados Unidos (Nasa) revelaram uma extensa concentração de fumaça sobre áreas da Amazônia brasileira, com incêndios próximos a Manaus e ao município de Iranduba. O registro, feito em 8 de outubro pelo satélite Terra, foi divulgado pela agência espacial norte-americana no dia seguinte e expõe a dimensão dos focos de fogo que atingem a região.
Continua depois da Publicidade
A crise ambiental já afeta diretamente a rotina da população amazonense. Manaus amanheceu neste domingo com a qualidade do ar classificada como péssima pelo quarto dia consecutivo, segundo dados do Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva), da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Diante da persistência da fumaça, a prefeitura suspendeu eventos ao ar livre e manteve a interrupção das aulas da rede municipal e de atividades presenciais em órgãos administrativos, pelo menos até segunda-feira (12).
A situação levou o governo federal a reconhecer estado de emergência em 36 municípios do Amazonas, medida que permite acelerar a liberação de recursos para enfrentar os incêndios. Uma força-tarefa também foi mobilizada para reforçar o combate às chamas, com aeronaves, helicópteros e brigadistas.
Satélite da Nasa revela concentração de incêndios perto de Manaus
A imagem divulgada pela Nasa mostra dezenas de incêndios ativos e extensas plumas de fumaça sobre a floresta amazônica. De acordo com a agência, os focos estavam concentrados principalmente em áreas florestais ao longo do rio Amazonas, com agrupamentos próximos à capital amazonense e em áreas de Iranduba, município da Região Metropolitana de Manaus.
O registro foi produzido pelo instrumento MODIS, instalado no satélite Terra, e integra o acompanhamento internacional das mudanças ambientais no planeta.
Segundo a Nasa, incêndios são recorrentes durante a estação seca brasileira, normalmente entre julho e outubro, mas raramente têm origem exclusivamente natural. Entre as causas mais comuns estão o uso do fogo para limpeza de áreas agrícolas e pastagens, o desmatamento e queimadas realizadas sem os devidos cuidados.
A fumaça observada do espaço não se limita ao entorno imediato dos incêndios. Dependendo da direção e da intensidade dos ventos, as partículas podem percorrer longas distâncias e atingir áreas urbanas afastadas dos focos originais. Por isso, a imagem de satélite ajuda a identificar a distribuição regional dos incêndios, mas não determina, isoladamente, a concentração de poluentes respirados em cada bairro.
Poluição atinge níveis perigosos em Manaus
Os indicadores registrados ao longo da semana mostram a gravidade da situação. Na sexta-feira (9), a plataforma internacional IQAir apontou índice de qualidade do ar AQI+ de 366 por volta das 5h, classificação considerada perigosa. Naquele momento, a concentração de partículas finas PM2.5 chegou a 258,2 microgramas por metro cúbico.
Sensores do sistema Selva, da UEA, também identificaram concentrações extremamente elevadas em bairros da capital. Por volta das 6h de sexta-feira, áreas como Morro da Liberdade e Educandos registraram até 320,2 microgramas por metro cúbico de partículas poluentes.
Esses números são medições pontuais, feitas em horários e locais específicos, e podem variar ao longo do dia. Ainda assim, indicam uma exposição preocupante à poluição atmosférica.
Em reportagem publicada em 9 de outubro, a agência internacional Associated Press (AP) também destacou o agravamento da qualidade do ar em Manaus. A agência informou que a concentração de poluentes chegou a uma média de 196 microgramas por metro cúbico em uma medição divulgada pelas autoridades municipais, muito acima dos níveis habituais mencionados na reportagem.
A combinação de fumaça, partículas finas e condições meteorológicas desfavoráveis amplia o risco de irritação nos olhos e na garganta, tosse, falta de ar e agravamento de doenças respiratórias e cardiovasculares.
Fumaça provoca suspensão de aulas e eventos
A emergência ambiental levou autoridades municipais e instituições de ensino a adotar medidas preventivas. Na sexta-feira, foram suspensas as aulas da rede municipal de Manaus, além de atividades presenciais na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), na Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e no Instituto Federal do Amazonas (Ifam).
A prefeitura também interrompeu atividades em centros municipais de arte e educação e determinou a suspensão temporária de eventos ao ar livre. A medida atingiu programações especiais previstas para o Dia das Crianças em parques da cidade.
O atendimento em serviços essenciais, incluindo unidades de saúde, foi mantido.
A Defesa Civil emitiu um alerta severo para celulares, orientando a população a evitar sair de casa sem proteção respiratória em razão da fumaça.
A recomendação é especialmente importante para crianças, idosos, gestantes e pessoas com asma, doença pulmonar obstrutiva crônica ou problemas cardiovasculares. Especialistas também recomendam evitar exercícios físicos ao ar livre durante períodos de poluição elevada, manter a hidratação e reduzir a entrada de fumaça nos ambientes fechados sempre que possível.
Quando houver necessidade de sair, máscaras do tipo PFF2 ou N95 oferecem proteção superior contra partículas finas em comparação com máscaras de tecido ou cirúrgicas, desde que estejam bem ajustadas ao rosto.
Itacoatiara também enfrenta incêndios de grandes proporções
A crise não se restringe à capital. Em Itacoatiara, município da Região Metropolitana de Manaus, a fumaça voltou a encobrir a cidade no sábado (10).
Um dos focos mais preocupantes estava na região do Lago do Canaçari, onde o incêndio já durava 21 dias e havia atingido aproximadamente 1,3 mil hectares, segundo informações divulgadas pelo portal Em Tempo. As equipes trabalhavam na abertura de aceiros para impedir o avanço das chamas, com apoio de aeronave nas operações.
Outra ocorrência, nas proximidades do bairro Jacarezinho, havia alcançado o terceiro dia, com área atingida estimada em 256,71 hectares.
Levantamento do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam) também identificou 46 novos eventos de fogo na região entre 4 e 7 de outubro.
Os incêndios em diferentes pontos do estado contribuem para a dispersão da fumaça e dificultam o trabalho das equipes de combate, principalmente quando a vegetação está ressecada e as condições meteorológicas favorecem a propagação do fogo.
Focos de calor quase quadruplicaram em setembro
Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram o avanço dos focos de calor no Amazonas. Em setembro de 2026, o estado registrou 3.726 focos, contra 942 no mesmo mês de 2025 — aumento de aproximadamente 296%.
Os números indicam uma piora expressiva em relação ao ano anterior, embora focos de calor detectados por satélite não correspondam necessariamente a incêndios de grandes proporções: um mesmo incêndio pode produzir diferentes detecções, e nem todo foco representa uma área florestal queimada.
A estiagem, a escassez de chuvas e o uso irregular do fogo para manejo de pastagens e limpeza de terrenos estão entre os fatores apontados para a expansão das queimadas.
A Nasa destaca que a estação seca favorece a ocorrência de incêndios, enquanto a agência AP alerta para a possibilidade de condições climáticas associadas ao fenômeno El Niño agravarem os riscos na região. Os efeitos dependem da evolução do fenômeno e das condições meteorológicas efetivamente registradas.
Governo federal reconhece emergência em 36 municípios
O reconhecimento federal da situação de emergência foi divulgado em 10 de outubro, após decreto estadual, segundo informações publicadas pelo UOL neste domingo (11). A medida permite acelerar o acesso a recursos federais para ações de resposta à crise.
A lista abrange municípios da Região Metropolitana, do sul do estado e de outras áreas do Amazonas, incluindo Manaus, Autazes, Careiro, Iranduba, Itacoatiara, Manacapuru, Apuí, Lábrea, Humaitá, Manicoré, Parintins e Tefé.
A força-tarefa anunciada prevê oito aeronaves: dois aviões KC-390 da Força Aérea Brasileira (FAB), quatro aviões Air Tractor e dois helicópteros. Os KC-390 devem reforçar o combate aos incêndios, enquanto 290 brigadistas federais já atuam no estado, conforme as informações divulgadas.
O governo federal também informou a existência de recursos destinados ao fortalecimento do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas por meio do projeto ProAmazon.
A resposta à crise, porém, foi acompanhada por divergências entre autoridades estaduais e federais. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, o Amazonas solicitou reforço federal em setembro, mas cancelou o pedido em 30 de setembro, após a redução dos focos com a chegada das chuvas. O comandante do Corpo de Bombeiros do estado, por sua vez, afirmou que a negativa de quatro aeronaves solicitadas prejudicou as operações.
O episódio evidencia a necessidade de coordenação entre os governos para garantir que recursos, equipamentos e equipes cheguem às áreas mais críticas no momento adequado.
Amazônia tem importância para o clima global
A dimensão dos incêndios também despertou atenção internacional. A Associated Press ressaltou que a Amazônia desempenha papel fundamental no armazenamento de carbono e na circulação de umidade na atmosfera, contribuindo para a regulação do clima em diferentes regiões da América do Sul e além do continente.
A destruição da vegetação libera gases de efeito estufa, compromete habitats e pode reduzir a capacidade da floresta de armazenar carbono. A fumaça, por sua vez, afeta diretamente a saúde de comunidades urbanas e rurais.
A crise em Manaus mostra que os efeitos das queimadas vão muito além da perda de vegetação: atingem a mobilidade, a educação, o funcionamento de serviços públicos e a qualidade de vida da população.
Enquanto os incêndios permanecerem ativos e as condições atmosféricas dificultarem a dispersão dos poluentes, a redução dos riscos dependerá tanto do combate imediato às chamas quanto da prevenção de novas queimadas e da fiscalização do uso irregular do fogo.
