
Concurso idealizado por Jean-Luc Brunel foi realizado em 2004 e 2006 no Equador, e teve presença de Jeffrey Epstein na cidade no mesmo dia – Foto: Arquivo pessoal/Glaucia Fekete
A gaúcha de 38 anos, Gláucia Fekete, revela em entrevista exclusiva à BBC News Brasil como escapou por um triz de se envolver na rede de exploração sexual do financista americano Jeffrey Epstein. Em 2004, aos 16 anos, ela foi selecionada para o concurso Models New Generation, no Equador, idealizado pelo agente francês Jean-Luc Brunel — parceiro próximo de Epstein e acusado de aliciar menores para o bilionário.
O evento, realizado em Guayaquil, prometia US$ 300 mil em prêmios e contratos internacionais em Nova York. Gláucia viajou com a equipe de Brunel, mas sua mãe, Bárbara Fekete, recusou autorização para que a filha seguisse para os Estados Unidos com o agente. “Se eu tivesse desobedecido minha mãe, o que teria acontecido comigo?”, reflete Gláucia hoje. “Realmente foi um livramento. Eu estava no meio desse furacão todo, né?”
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Recorte de jornal mantido por Gláucia, da época em que trabalhava como modelo; ‘descoberta de Dilson Stein’
Foto: Arquivo pessoal/Glaucia Fekete
Brunel, que morreu em 2022 na prisão francesa enquanto aguardava julgamento por estupro e tráfico de menores, visitou pessoalmente a casa da família em Santa Rosa (RS) para convencer Bárbara. Ele prometeu vitória garantida no concurso e carreira promissora. A mãe, apesar de inicialmente achar o francês “simpático”, manteve a desconfiança baseada em experiências anteriores da filha em São Paulo.
No Equador, cerca de 50 jovens de vários países participaram. A vencedora foi a brasileira Aline Weber (então com 15 anos), que construiu carreira internacional. Gláucia relata que Brunel exaltava “as brasileiras, meu Deus, as brasileiras” e saía frequentemente com garotas jovens, incluindo uma brasileira apresentada como sua “namorada”. Uma ex-modelo europeia (chamada Laura na reportagem) confirmou o comportamento estranho: “Ele parecia controlar as finanças delas. As meninas do Brasil e do Leste Europeu pareciam ser o alvo principal.”

Emails mostram viagem de Epstein a Guaiaquil, Equador, na mesma data do concurso de Brunel que deu vitória à brasileira de 15 anos – Foto: Departamento de Justiça dos EUA
Documentos do Departamento de Justiça dos EUA, divulgados recentemente, confirmam que Epstein esteve em Guayaquil em 24 de agosto de 2004 — um dia antes da final do concurso. E-mails de Ghislaine Maxwell (cúmplice de Epstein, presa nos EUA) e do piloto Larry Visoski mencionam abastecimento de aeronave, hotel e van na cidade. Uma ex-funcionária da agência MC2 (fundada por Brunel com investimento de Epstein) depôs em 2010 que Brunel “levou garotas” ao bilionário durante a viagem.
A rede usava agências de modelos como fachada: Karin Models (de Brunel) e depois MC2 (financiada por Epstein com até US$ 1 milhão). Vistos de trabalho eram emitidos para atrair jovens, inclusive menores, aos EUA. A BBC identificou ao menos uma brasileira que obteve visto via agência de Brunel para estar com Epstein, sem trabalhar como modelo.
Epstein e Brunel viajaram juntos ao Brasil nos anos 2000, segundo depoimentos. Uma ex-contadora da MC2 afirmou que quatro garotas brasileiras (duas menores, de 13 a 15 anos) foram levadas à casa de Epstein para uma festa. Arquivos mostram que Epstein planejou concursos de moda no Brasil para atrair “garotas caipiras” e cogitou comprar agências locais. O Ministério Público Federal (MPF) abriu investigação após reportagens da BBC sobre aliciamento no país, incluindo contatos financeiros com modelos brasileiras desde 2006 e menções a Natal (RN).

Gláucia e a mãe Bárbara Fekete – Foto: Arquivo pessoal/Glaucia Fekete
Gláucia, descoberta pelo olheiro Dilson Stein (que revelou Gisele Bündchen), começou na moda aos 13 anos. Após o episódio, sua mãe proibiu a continuidade na carreira. “Minha mãe me salvou”, diz ela, que hoje atua em mentoria e estratégia digital. Bárbara só soube das acusações contra Brunel e Epstein recentemente: “Procuravam só crianças, menores. Infelizmente acharam a minha filha.”
Rede internacional sob investigação
A jornalista Conchita Sarnoff, autora do livro TrafficKing, descreve a amizade entre Epstein e Brunel desde os anos 1980. Testemunhos judiciais indicam que ambos viajaram juntos a países da América Latina, incluindo o Brasil.
Apesar de sempre negar as acusações, Brunel manteve contato próximo com Epstein até anos antes da prisão do bilionário. Em e-mails tornados públicos, o agente francês chegou a afirmar que ainda o considerava “um dos amigos mais próximos”.
O caso segue repercutindo internacionalmente, especialmente após novas divulgações de documentos judiciais nos EUA, que ampliaram o escrutínio sobre a rede de contatos e financiamentos de Epstein.
Para Gláucia, a reflexão permanece: “Se eu tivesse ido para Nova York, o que teria acontecido comigo?”. Hoje, ela afirma que a decisão da mãe foi determinante para que sua história tivesse um desfecho diferente.
O caso Epstein ganhou nova atenção com a liberação de milhões de documentos em 2025-2026, revelando cerca de 4 mil menções ao Brasil. Brunel, preso em 2020 na França ao tentar fugir, negava as acusações até sua morte. Epstein morreu em 2019 na prisão americana, em circunstâncias controversas.
A história reforça como a indústria da moda foi explorada para aliciamento global, com vulnerabilidades de jovens de países emergentes.
