Política

Eleições 2026

Lealdade ao bolsonarismo ganha peso nas urnas e deixa nomes tradicionais da direita sem mandato

Mesmo com o crescimento do PL no Congresso, candidatos conhecidos do eleitorado conservador enfrentaram derrotas. Análise aponta que a fidelidade ao grupo político e a concentração de votos influenciaram o resultado eleitoral.


 Janaína Paschoal, Eder Mauro e Silvia Waiãpi – Foto: Reprodução

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O avanço do Partido Liberal (PL) nas eleições contrastou com a derrota de nomes tradicionais da direita brasileira. Apesar do crescimento da legenda na Câmara dos Deputados e no Senado, figuras conhecidas do eleitorado conservador ficaram sem mandato, evidenciando que a identificação ideológica, por si só, não garantiu espaço no novo cenário político.

Entre os nomes que não conseguiram se eleger estão Janaína Paschoal, coautora do pedido de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, e o delegado Éder Mauro, um dos primeiros aliados de Jair Bolsonaro na Câmara dos Deputados.

O resultado levantou uma questão central: em um ambiente político cada vez mais polarizado, a lealdade ao bolsonarismo passou a ter um peso importante na relação entre candidatos e eleitores?

Fidelidade política como fator eleitoral

Para o cientista político Leandro Consentino, professor do Insper, parte do eleitorado conservador valorizou candidatos que demonstraram maior alinhamento com o grupo político liderado por Bolsonaro.

“Parte dos parlamentares que a gente considerava centrão dentro do PL se tornou mais leal ao bolsonarismo nos últimos tempos”, avaliou. Segundo ele, esses candidatos foram reconhecidos e recompensados nas urnas, enquanto outros, considerados menos alinhados, perderam espaço.

A análise sugere que a lealdade política se tornou um elemento relevante na disputa eleitoral. Mais do que compartilhar pautas conservadoras, os candidatos precisaram demonstrar proximidade e compromisso com o movimento e suas principais lideranças.

O fenômeno também indica que o bolsonarismo ampliou sua influência para além da figura do ex-presidente, incorporando outros nomes que conquistaram projeção entre os eleitores de direita.

Janaína Paschoal e os efeitos de uma posição independente

Janaína Paschoal, que disputou uma vaga na Câmara dos Deputados pelo PP, recebeu 46.773 votos e ficou na suplência. O resultado contrasta com o desempenho de 2018, quando obteve mais de 2 milhões de votos na eleição para a Assembleia Legislativa de São Paulo.

Nos meses anteriores ao pleito, a candidata questionou publicamente a possibilidade de Flávio Bolsonaro disputar a Presidência da República. Em suas manifestações, argumentou que a direita precisava avaliar suas opções políticas e não deveria tratar a escolha de uma candidatura como uma decisão incontestável.

A postura evidenciou uma diferença entre defender pautas conservadoras e manter alinhamento com as principais lideranças do movimento. Embora não seja possível atribuir sua derrota a um único fator, o episódio ilustra os desafios enfrentados por políticos que adotam posições independentes dentro de um campo eleitoral cada vez mais concentrado.

A própria Janaína observou que muitos eleitores demonstraram preferência pelo PL e que a busca por renovação também influenciou os resultados, reduzindo, em sua avaliação, o peso da trajetória e das propostas individuais.

Silvia Waiãpi: alinhamento não impediu veto do próprio PL

O episódio também evidencia que a identificação com o bolsonarismo não garante, por si só, espaço dentro das estruturas partidárias. Silvia Waiãpi construiu sua trajetória política como representante indígena de direita e aliada de Jair Bolsonaro, mas acabou excluída da disputa eleitoral pela legenda à qual era filiada.

A decisão ocorreu durante a organização das candidaturas do PL no Amapá, em meio à articulação de uma aliança com outras siglas. Segundo o partido, o veto foi motivado por questões jurídicas: a condenação de Silvia pela Justiça Eleitoral, relacionada ao uso de aproximadamente R$ 9 mil do fundo eleitoral para custear um procedimento de harmonização facial, poderia torná-la inelegível por oito anos, conforme a Lei da Ficha Limpa. Em abril de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral manteve a cassação de seu mandato.

Silvia contestou a decisão e afirmou que havia apresentado a documentação exigida para concorrer. Também acusou dirigentes partidários de racismo e discriminação por ser uma mulher indígena e conservadora. Essas acusações foram feitas pela ex-deputada e não devem ser confundidas com a justificativa jurídica apresentada pelo partido.

O caso acrescenta uma dimensão importante ao debate sobre lealdade política. Enquanto a análise eleitoral aponta que o alinhamento com o bolsonarismo pode ter favorecido determinados candidatos, a situação de Silvia demonstra que a afinidade ideológica não elimina obstáculos jurídicos nem garante a aprovação de uma candidatura pela própria legenda.

A trajetória da ex-deputada evidencia, portanto, a diferença entre lealdade a um projeto político e permanência em uma estrutura partidária. Em um cenário no qual alianças, estratégias eleitorais e exigências legais interferem diretamente na composição das chapas, a identificação com uma liderança pode ser relevante, mas não é suficiente para assegurar espaço na disputa.

Éder Mauro: lealdade ao bolsonarismo não garantiu vaga no Senado

O delegado Éder Mauro, um dos primeiros aliados de Jair Bolsonaro na Câmara dos Deputados, também ficou sem mandato eletivo após as eleições de 2026. Diferentemente de Silvia Waiãpi, cuja candidatura foi barrada pelo próprio PL, ele disputou normalmente o pleito, desta vez na corrida por uma vaga no Senado pelo Pará.

Éder Mauro recebeu 1.997.768 votos, o equivalente a 22,26% dos votos válidos, mas terminou em terceiro lugar. As duas vagas do estado foram conquistadas por Helder Barbalho (MDB) e Chicão (União Brasil). Com isso, após três mandatos consecutivos como deputado federal, o parlamentar deixará a Câmara em janeiro de 2027, sem assumir uma nova função eletiva.

O resultado acrescenta uma nuance à discussão sobre lealdade política. Embora Éder Mauro tenha uma trajetória de proximidade com Bolsonaro e tenha concorrido pelo PL, essa identificação não foi suficiente para assegurar sua eleição ao Senado. O caso mostra que a fidelidade a um grupo político pode ter relevância eleitoral, mas não elimina a concorrência entre candidatos, as particularidades da disputa estadual e a necessidade de conquistar votos suficientes para ocupar uma das vagas disponíveis.

Crescimento do PL e concentração de votos

O desempenho da legenda foi um dos principais elementos do resultado eleitoral. O PL elegeu 121 deputados federais, 22 a mais do que em 2022, e conquistou 19 das 54 cadeiras em disputa no Senado.

Esse avanço, porém, não beneficiou igualmente todos os candidatos de direita. A concentração de votos em uma mesma legenda e em nomes de grande popularidade dificultou a eleição de concorrentes de outros partidos e até de políticos que compartilhavam pautas semelhantes.

Nesse contexto, a lealdade ao grupo político, a identificação partidária, a popularidade nas redes sociais e a capacidade de mobilizar eleitores atuaram em conjunto. A afinidade ideológica continuou relevante, mas não foi suficiente para assegurar a vitória.

Lealdade, identidade e renovação política

A eleição também mostrou que o eleitorado conservador não constitui um bloco inteiramente homogêneo. Há diferenças entre candidatos que priorizam a fidelidade às lideranças, aqueles que defendem maior autonomia e os que buscam construir uma identidade política própria.

Para alguns eleitores, a lealdade pode representar coerência e compromisso com um projeto coletivo. Para outros, a independência pode ser interpretada como sinal de autonomia e capacidade de questionamento. O peso de cada percepção depende das circunstâncias políticas e da relação estabelecida entre candidatos, partidos e eleitores.

O resultado, portanto, revela uma disputa que vai além das propostas e das posições ideológicas. A confiança construída ao longo do tempo, a proximidade com lideranças e a percepção de fidelidade também podem influenciar a decisão do eleitor.

Em um cenário de reorganização das forças políticas, a experiência dos candidatos derrotados demonstra que ter uma trajetória conhecida ou defender pautas populares não garante a permanência na vida pública. A lealdade tornou-se um dos elementos em evidência nessa disputa, ao lado da renovação, da estratégia partidária e da concentração de votos.