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O Amazonas enfrenta uma escalada de incêndios florestais que já se reflete diretamente na saúde da população, na qualidade do ar e na rotina de milhares de moradores. Neste domingo (11), Manaus e outros cinco municípios da Região Metropolitana amanheceram com níveis de poluição classificados como “péssimos”, enquanto o estado acumulava 1.380 focos de incêndio nos dez primeiros dias de outubro — um aumento de 271% em relação ao mesmo período de 2025.
A fumaça encobre a capital pelo quarto dia consecutivo, reduz a qualidade do ar a níveis alarmantes e amplia a preocupação com os efeitos da crise ambiental sobre a população. Os números revelam a dimensão do problema: não se trata apenas de queimadas distantes das áreas urbanas, mas de uma emergência que já invade casas, compromete o descanso dos moradores e provoca sintomas respiratórios.
Dados do Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva), da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), mostram que 13 dos 15 sensores instalados em Manaus registravam concentrações de partículas suspensas superiores a 140 microgramas por metro cúbico (µg/m³) na manhã deste domingo.
No bairro Coroado, na Zona Leste, o índice chegou a 227,8 µg/m³ às 8h. Em Petrópolis, na Zona Sul, foram registrados 211,7 µg/m³. O cenário também é preocupante no interior: em Careiro, a concentração atingiu 301,2 µg/m³ às 8h20, enquanto Borba registrou 220 µg/m³ e Autazes, 184,3 µg/m³.
Os dados evidenciam a dimensão regional da crise, que ultrapassa os limites da capital e atinge diferentes municípios do Amazonas.
Incêndios aumentam 271% em um ano
Entre 1º e 10 de outubro, o estado registrou 1.380 focos de incêndio, contra 372 no mesmo intervalo de 2025. Os dados são do Painel do Fogo, do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam).
A distribuição dos registros também chama a atenção. Do total, 1.186 focos foram identificados em áreas públicas, 93 em propriedades privadas e 101 em locais cuja situação fundiária não foi definida. No período, 246 focos ocorreram em áreas de assentamentos federais, 116 atingiram terras indígenas e 97 foram registrados em unidades de conservação.
Outros 174 focos foram classificados como relacionados ao desmatamento. Para os demais registros, o painel não apresenta uma causa identificada.
Em Itacoatiara, um incêndio na região do Lago do Canaçari é investigado como criminoso. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente informou que oito suspeitos de provocar queimadas em diferentes localidades da zona rural haviam sido identificados até a publicação da reportagem. Os casos devem ser encaminhados à Polícia Civil e ao Ministério Público do Amazonas.
Na região do Jacarezinho, também em Itacoatiara, a área queimada soma 256,71 hectares, equivalente a aproximadamente 360 campos de futebol. Em Careiro da Várzea, incêndios persistem há mais de dez dias, atingindo comunidades e áreas de vegetação.
Em Parintins, as queimadas já provocam prejuízos às plantações e afetam os preços dos alimentos comercializados no município. Em Boa Vista do Ramos, moradores enfrentam dificuldades para conter as chamas e demonstram preocupação com os danos à fauna silvestre.
População sente os efeitos da crise na própria saúde
A dimensão dos incêndios também aparece nos atendimentos médicos. Segundo a Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM), foram registrados 82 atendimentos de urgência relacionados a problemas respiratórios provocados pela inalação de fumaça entre 1º e 8 de outubro.
Desde 1º de julho, o total chegou a 375 atendimentos.
Entre os sintomas relatados estão falta de ar, tosse, irritação ou dor de garganta, dor de cabeça, dor no peito, náuseas, vômitos, tontura e fadiga. Pessoas com asma, rinite, sinusite e outras doenças respiratórias estão entre as mais vulneráveis aos efeitos da poluição.
Os relatos de moradores ajudam a dimensionar o impacto que os números não conseguem traduzir completamente.
A autônoma Márcia Mendes, que sofre de rinite e sinusite, contou que a fumaça intensificou os sintomas e prejudicou suas noites de sono.
“Manaus, no Amazonas, é conhecida como o pulmão do mundo, mas a gente está sufocando com toda essa fumaça. Está prejudicando todo mundo”, afirmou.
O autônomo Valdeci Moraes de Castro também relatou que a fumaça invade as residências e dificulta o descanso, além de demonstrar preocupação com os efeitos sobre idosos e pessoas com problemas respiratórios.
“Nem em casa pode dormir. A fumaça entra toda para dentro do quarto. O ar está horrível”, disse.
Os relatos expõem uma realidade em que nem mesmo o ambiente doméstico representa proteção suficiente contra a poluição que atinge a capital.
Governo federal envia aeronaves e brigadistas
Diante do agravamento dos incêndios, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima anunciou o envio de seis aeronaves e 290 brigadistas para reforçar as operações no Amazonas.
As primeiras aeronaves chegaram a Manaus no sábado (10). Dois helicópteros do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) pousaram no Aeroporto Internacional Eduardo Gomes por volta das 13h. Outros quatro aviões aterrissaram na Base Aérea de Manaus por volta das 16h.
Segundo o Ibama, os helicópteros seriam utilizados inicialmente no transporte de equipes. A chegada de um equipamento conhecido como bambi bucket, utilizado por helicópteros para transportar e despejar água sobre incêndios, estava prevista para domingo. Os aviões Air Tractor serão empregados no lançamento de água sobre as áreas atingidas.
A previsão informada pelo órgão era de que as últimas três aeronaves chegassem à capital no domingo.
O Corpo de Bombeiros informou que atuava em 33 municípios no combate imediato aos focos de incêndio, mas não detalhou quais localidades recebiam atendimento.
O reforço federal ocorre em um momento de pressão sobre as autoridades responsáveis pelo enfrentamento das queimadas e pela proteção das comunidades atingidas.
Governo estadual nega ter recusado ajuda federal
Em meio à mobilização para conter os incêndios, o governo estadual afirmou, por meio de nota, que nunca recusou ajuda do governo federal.
A manifestação busca esclarecer a posição do Executivo amazonense diante das divergências relacionadas à cooperação entre os governos no combate às queimadas. A chegada das aeronaves e a mobilização de brigadistas colocam em evidência a importância da atuação coordenada entre as diferentes esferas do poder público.
O reconhecimento da situação de emergência pelo governo estadual e pelo governo federal também integra o contexto da resposta à crise. No sábado (10), o estado decretou emergência, enquanto o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional reconheceu a situação de emergência em 36 municípios amazonenses, incluindo Manaus.
A declaração do governo estadual, entretanto, não altera a dimensão dos desafios impostos pelo avanço das chamas: a população continua exposta à fumaça, os indicadores de qualidade do ar permanecem preocupantes e o número de focos de incêndio cresceu expressivamente em relação ao ano anterior.
Emergência exige resposta efetiva
A Prefeitura de Manaus mantém, desde 24 de setembro, o estado de atenção em razão das ocorrências que afetam a cidade e da possibilidade de eventos de alto impacto. A Defesa Civil também emitiu alertas em municípios atingidos pela fumaça, com orientações para reduzir a exposição à poluição.
As autoridades de saúde recomendam que a população evite atividades físicas ao ar livre durante os períodos de maior concentração de fumaça, reduza a exposição ao ar poluído e procure atendimento médico diante de sintomas intensos ou persistentes. Crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias exigem atenção especial.
O avanço das queimadas, a deterioração da qualidade do ar e os impactos sobre a saúde e a economia tornam urgente a adoção de medidas efetivas de prevenção, fiscalização e combate aos incêndios, além da assistência às comunidades afetadas.
Com 1.380 focos registrados em dez dias e concentrações de partículas que ultrapassam 300 µg/m³ em municípios do estado, o Amazonas enfrenta uma crise que não pode ser dimensionada apenas pelo número de chamas visíveis. A fumaça já chegou às casas, aos locais de trabalho e aos serviços de saúde.
Enquanto governos discutem a cooperação e ampliam o envio de recursos, a população precisa de ações capazes de reduzir a poluição, conter os incêndios e impedir que a emergência continue avançando sobre a vida cotidiana dos amazonenses.
