Economia

Mercado Financeiro

Bancos miram crianças e adolescentes para conquistar os investidores do futuro

Com contas digitais e acesso antecipado a aplicações financeiras, instituições disputam um público cada vez mais jovem. Dados da B3 mostram que menores de 18 anos já acumulam cerca de R$ 3,5 bilhões em investimentos de renda variável.


No Pisa 2022, divulgado pela OCDE em 2024, 45% dos estudantes brasileiros de 15 anos não atingiram o nível básico de educação financeira
– Foto: Reprodução/Getty Images

 

A disputa entre bancos e plataformas financeiras no Brasil está avançando para uma nova fronteira: a infância. Instituições como XP, Banco do Brasil e Bradesco ampliam suas soluções para crianças e adolescentes, oferecendo contas digitais, pagamentos, ferramentas de poupança e acesso a investimentos. O objetivo é aproximar as novas gerações do sistema financeiro desde cedo, em um mercado no qual o relacionamento com o cliente pode começar muito antes do primeiro salário.

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A movimentação ganhou destaque com o lançamento da Conta Menor, da XP, anunciado em 8 de outubro. A solução reúne serviços bancários e investimentos em um aplicativo destinado a menores de 18 anos, com abertura realizada pelo responsável legal. Entre os recursos divulgados estão Pix, pagamentos, cartão de débito digital e aplicações financeiras, incluindo negociação de ações na Bolsa brasileira.

A iniciativa não é isolada. O Banco do Brasil oferece a BB Cash, conta digital para clientes de zero a 17 anos, com funcionalidades de movimentação financeira e acesso a investimentos. O Bradesco, por meio do banco digital next, também mantém a nextJoy, voltada ao público infantojuvenil.

Mais do que ampliar a oferta de serviços, a estratégia permite que as instituições estabeleçam vínculos com potenciais clientes em uma fase de formação de hábitos financeiros. A familiaridade com aplicativos, produtos e ferramentas de investimento pode contribuir para a continuidade desse relacionamento na vida adulta.

Menores de idade já movimentam bilhões na Bolsa

R$ 3,5 bilhões

Patrimônio de menores de 18 anos em ativos de renda variável

60,8 mil

Investidores com até 17 anos na Bolsa

+58%

Crescimento do número de investidores menores desde dezembro de 2022

40%

Participação aproximada das meninas entre os investidores dessa faixa etária

Os números da B3 ajudam a dimensionar o potencial desse mercado. Segundo dados divulgados pela bolsa brasileira em 9 de outubro, 60,8 mil crianças e adolescentes de até 17 anos mantinham posições em ações, fundos imobiliários, ETFs, BDRs e outros ativos de renda variável. O patrimônio conjunto chegava a aproximadamente R$ 3,5 bilhões.

A base de investidores menores cresceu 58% em quatro anos. A participação feminina também avançou: o número de meninas investidoras aumentou 72% no período, alcançando 24,5 mil, diante de 36,3 mil meninos.

O levantamento demonstra que a presença de menores no mercado de capitais já é uma realidade, embora ainda represente uma parcela pequena do universo total de investidores. Para as instituições financeiras, esse público abre espaço para produtos voltados à formação de patrimônio no longo prazo.

Educação financeira ainda é um desafio

A expansão das contas digitais e dos investimentos para menores ocorre em meio a dificuldades na formação financeira dos brasileiros. Na avaliação do Pisa 2022, divulgada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em 2024, 45% dos estudantes brasileiros de 15 anos não atingiram o nível básico de conhecimento financeiro, ante 18% na média dos países e economias participantes.

Somente 2% dos estudantes brasileiros alcançaram o nível mais elevado, contra 11% na média internacional. Os resultados reforçam a importância de ensinar conceitos como orçamento, poupança, juros, consumo consciente e avaliação de riscos desde a idade escolar.

O Banco Central mantém iniciativas de educação financeira, incluindo o programa Aprender Valor, que busca desenvolver competências relacionadas ao uso consciente do dinheiro nas escolas. A instituição também anunciou a ampliação do programa para estudantes do ensino médio a partir de 2026, em parceria com outras organizações.

Acesso antecipado exige atenção aos riscos

A possibilidade de investir antes dos 18 anos não elimina a necessidade de supervisão dos responsáveis. A abertura de contas e a realização de aplicações em nome de menores devem observar os procedimentos das instituições financeiras e as regras aplicáveis a cada produto.

Também é importante distinguir educação financeira de incentivo ao consumo. Uma conta digital pode ajudar a criança a compreender como administrar a mesada, estabelecer metas e acompanhar despesas. Já os investimentos exigem explicações sobre oscilações de preços, possibilidade de perdas, liquidez e prazo para resgate.

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) disponibiliza materiais educacionais direcionados a adolescentes, com conteúdos sobre dinheiro, consumo, poupança e planejamento financeiro.

Para as famílias, o desafio é garantir que a tecnologia seja acompanhada de orientação. Para os bancos, a expansão desse segmento combina a oferta de serviços financeiros com a oportunidade comercial de construir relacionamentos duradouros.

Uma disputa que começa antes do primeiro salário

A entrada de crianças e adolescentes no universo financeiro revela uma mudança na forma como o mercado busca conquistar clientes. A concorrência não se limita mais à conta corrente aberta no início da vida profissional: começa cada vez mais cedo, com ferramentas digitais, pagamentos e investimentos acessíveis sob a supervisão dos responsáveis.

A expansão desse mercado poderá aproximar novas gerações do planejamento financeiro e da formação de patrimônio. O resultado, porém, dependerá não apenas da facilidade de acesso aos produtos, mas também da qualidade da educação financeira oferecida às famílias e aos jovens.

Para o setor bancário, conquistar o investidor do futuro significa disputar sua atenção desde a infância. Para a sociedade, o desafio é fazer com que essa aproximação produza conhecimento e decisões financeiras mais conscientes, e não apenas novos consumidores de serviços.

Fontes consultadas

Redação Portal CINCO. Os dados de mercado foram atribuídos às instituições responsáveis pelos levantamentos. Os números da B3 refletem a divulgação de 9 de outubro de 2026.