
Crescimento da abstenção indica que voto está se tornando facultativo – Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Mais de 30 milhões de eleitores podem deixar de votar no primeiro turno das eleições de 2026 caso a taxa de abstenção se mantenha próxima à registrada em 2022. Em uma disputa marcada pela proximidade entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), o comparecimento às urnas pode se tornar uma variável importante na definição do resultado.
O impacto da abstenção, porém, não é consenso entre especialistas. Enquanto alguns avaliam que a ausência de eleitores pode afetar mais a base de um dos candidatos, outros afirmam que não é possível apontar previamente quem será beneficiado sem conhecer o perfil dos eleitores que deixarão de votar.
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Para o cientista político Murilo Oliveira, existe uma hipótese de que uma abstenção elevada possa prejudicar Lula. A explicação estaria na concentração histórica do eleitorado petista entre grupos que apresentam maiores índices de não comparecimento, como pessoas com menor escolaridade e idosos.
O cientista político Gustavo Alves também destaca a importância da mobilização. Segundo ele, quando cresce a ausência de eleitores menos engajados, uma base eleitoral mais organizada e disposta a comparecer às urnas pode representar uma parcela maior dos votos válidos.
Especialistas divergem sobre impacto da abstenção
A possibilidade de um efeito favorável a Lula também é defendida por alguns analistas. O constitucionalista e comentarista político Alessandro Chiarottino considera que, no cenário atual, uma taxa elevada de abstenção poderia beneficiar o petista.
Na avaliação dele, parte dos eleitores que poderiam deixar de votar estaria concentrada no centro do espectro político, grupo que poderia apresentar maior resistência ou menor mobilização em relação a Flávio Bolsonaro.
Já o cientista político Leandro Gabiati afirma que não é possível estabelecer antecipadamente qual candidato será favorecido. Para ele, mais importante do que o número absoluto de faltosos é identificar quem são esses eleitores e em quais regiões e grupos sociais eles estão concentrados.
O especialista em Direito Eleitoral Alexsander Beilner segue linha semelhante. Segundo ele, a taxa de abstenção, analisada isoladamente, não permite identificar um beneficiário direto. O resultado será determinado pelos eleitores que efetivamente comparecerem às urnas.

Em 2020, Porto Alegre foi a capital brasileira como maior número de pessoas que não compareceram às urnas no primeiro turno das eleições municipais. A abstenção atingiu a marca de 33,08%, o que equivale a 358.217 eleitores – Foto: Luiza Castro/Sul21
Perfil de quem não votar pode fazer diferença
A discussão sobre a abstenção envolve também fatores demográficos e socioeconômicos. Historicamente, determinados grupos apresentam maior propensão a não comparecer às eleições, entre eles eleitores de menor renda e escolaridade e pessoas mais velhas.
Esse comportamento pode produzir efeitos diferentes dependendo de como a ausência se distribuir entre as bases eleitorais.
Uma abstenção nacional de 20%, por exemplo, pode ter consequências distintas caso os eleitores ausentes estejam concentrados em um determinado grupo ou região. Por isso, o número geral de faltosos, sozinho, não permite medir o impacto sobre a disputa.
O analista Rui São Pedro ressalta que esse é um dos desafios enfrentados pelos institutos de pesquisa ao tentar identificar o chamado “eleitor provável”, ou seja, aquele que declara uma intenção de voto e também apresenta maior probabilidade de comparecer às urnas.
Segundo ele, o comportamento dos indecisos e dos eleitores menos mobilizados também pode produzir diferenças entre as pesquisas e o resultado efetivamente registrado no dia da votação.

Mobilização ganha importância na reta final
Em uma eleição competitiva, campanhas não precisam apenas convencer eleitores, mas também garantir que aqueles que já decidiram seu voto compareçam às urnas.
Gabiati destaca que pequenas diferenças nas taxas de comparecimento podem ter impacto sobre a distribuição dos votos válidos quando a disputa é apertada. Um eleitor que declara preferência por determinado candidato, mas não vai votar, não transforma essa intenção em voto efetivo.
Por essa razão, a mobilização das bases eleitorais tende a receber atenção especial nos últimos dias da campanha.
Além disso, será necessário observar como a abstenção se distribuirá territorialmente e entre diferentes faixas etárias e grupos socioeconômicos. Os dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) permitirão, posteriormente, identificar com maior precisão o perfil dos eleitores que não participaram da votação.
Mais de 158 milhões estão aptos a votar
O Brasil tem aproximadamente 158,8 milhões de eleitores aptos a participar das eleições de 2026, segundo dados do TSE. Se a taxa de abstenção repetir o patamar registrado no último pleito presidencial, mais de 30 milhões de pessoas poderão deixar de votar.
No segundo turno de 2022, pouco mais de 156,4 milhões de eleitores estavam aptos a votar. Cerca de 124,2 milhões compareceram às urnas, enquanto aproximadamente 32 milhões não votaram. A taxa de abstenção foi de 20,59%.
No primeiro turno daquele ano, o índice foi ligeiramente maior, chegando a 20,95%.
Entre os eleitores com 70 anos ou mais, faixa em que o voto é facultativo, a ausência às urnas foi ainda mais elevada.
Com uma eventual disputa acirrada entre Lula e Flávio Bolsonaro, os números mostram por que o comparecimento poderá ser acompanhado de perto pelas campanhas. Ainda assim, somente após a votação será possível saber quais grupos efetivamente participaram e de que maneira a abstenção alterou a composição dos votos válidos.
O dado central, portanto, não será apenas quantos eleitores deixarão de votar, mas quem serão os ausentes e como essa ausência estará distribuída entre os diferentes segmentos do eleitorado.
