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Golpe dos “remédios milagrosos”: produtos vendidos na internet podem não fazer o que prometem — e ainda colocar sua vida em risco

Anvisa alerta para medicamentos falsificados, produtos sem registro, suplementos anunciados como tratamentos e substâncias vendidas nas redes sociais sem garantia de composição, dose ou eficácia.


Imagem gerada por Inteligência Artificial

 

Uma oferta tentadora nas redes sociais pode esconder um risco muito maior do que a perda de dinheiro. Medicamentos, suplementos, produtos “naturais” e substâncias injetáveis estão sendo anunciados na internet com promessas de emagrecimento, cura de doenças, ganho de massa muscular, melhora estética e outros efeitos que podem não ter qualquer respaldo sanitário.

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O problema é que o consumidor muitas vezes acredita estar comprando um medicamento ou tratamento legítimo, quando, na realidade, pode estar adquirindo um produto falsificado, clandestino, sem registro, importado irregularmente ou simplesmente sem comprovação de eficácia para a finalidade anunciada.

A situação levou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a publicar uma série de alertas ao longo de 2026. Em julho, a agência chamou a atenção para produtos divulgados nas redes sociais por influenciadores, celebridades e até supostos médicos. Segundo a Anvisa, criminosos passaram a utilizar inteligência artificial para criar vídeos e áudios falsos, fazendo parecer que pessoas conhecidas recomendam determinados medicamentos ou suplementos.

O anúncio promete uma coisa. O produto pode ser outra

Um dos maiores perigos está justamente na distância entre o que é prometido na propaganda e aquilo que foi efetivamente autorizado pelas autoridades sanitárias.

Um produto pode até conter determinado princípio ativo, mas isso não significa que ele esteja autorizado para tratar qualquer doença ou produzir qualquer efeito anunciado pelo vendedor.

A Anvisa explica que a regularização de um medicamento estabelece as condições nas quais ele pode ser fabricado, vendido e utilizado. Já a bula apresenta as informações necessárias para o uso seguro e para o tratamento eficaz.

Por isso, uma propaganda que atribui ao produto uma finalidade diferente daquela aprovada pela autoridade sanitária deve acender um sinal de alerta.

Em outras palavras: se o vendedor promete que uma substância serve para tratar determinada doença, emagrecer rapidamente, substituir outro tratamento ou produzir uma “cura milagrosa”, não basta acreditar no anúncio. É preciso verificar se essa indicação existe oficialmente.

“Natural”, “sem química” e “sem riscos” também podem ser armadilhas

Outro argumento utilizado para conquistar compradores é apresentar o produto como “100% natural”, “sem efeitos colaterais” ou “alternativa segura”.

A Anvisa alerta que ser natural não significa ser inofensivo.

Produtos naturais vendidos em cápsulas, por exemplo, precisam estar enquadrados nas categorias reguladas pela legislação sanitária. Quando são apresentados como capazes de curar ou tratar diversas doenças simultaneamente, o consumidor deve desconfiar.

A agência já alertou que produtos irregulares podem conter substâncias sintéticas não declaradas no rótulo, inclusive medicamentos ou outros compostos potencialmente perigosos.

Suplementos alimentares também não podem ser apresentados livremente como medicamentos. Segundo a Anvisa, suplementos são destinados à suplementação de nutrientes, substâncias bioativas, probióticos ou enzimas e não podem fazer alegações de cura, tratamento ou prevenção de doenças.

“Canetas emagrecedoras” viraram um dos principais alvos

A explosão das vendas de medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1 criou um novo mercado para vendedores clandestinos.

A Anvisa alerta que produtos como tirzepatida e outras substâncias passaram a ser oferecidos pela internet, inclusive em versões em pó para que o próprio consumidor faça a diluição e aplicação em casa.

A agência considera essa prática perigosa. Sem fabricação em ambiente adequado e sem avaliação sanitária, não há garantia de que o produto contenha realmente o princípio ativo anunciado, muito menos da concentração, pureza ou ausência de contaminantes.

Em maio, Anvisa e Polícia Federal informaram que estavam analisando em laboratório canetas de GLP-1 irregulares apreendidas no país justamente para verificar quais substâncias estavam efetivamente presentes nos produtos.

Entre janeiro e abril de 2026, inspeções da Anvisa em farmácias de manipulação e empresas importadoras resultaram em oito interdições entre 26 estabelecimentos avaliados, além da apreensão de mais de 1,3 milhão de unidades de medicamentos injetáveis irregulares.

Em uma operação conjunta realizada em abril, foram identificadas transações irregulares de aproximadamente R$ 4,8 milhões envolvendo tirzepatida, em quantidade suficiente, segundo a Anvisa, para produzir mais de 1 milhão de dispositivos injetáveis. Mais de 17 mil frascos de tirzepatida manipulados irregularmente foram apreendidos.

Também foi identificada a presença de retatrutida, substância que, segundo a Anvisa, ainda não havia sido lançada oficialmente nem registrada por nenhuma agência reguladora no mundo naquele momento.

Polícia Federal encontrou venda por redes sociais e aplicativos

O problema não está restrito a pequenos anúncios isolados.

Em setembro, a Polícia Federal deflagrou a Operação Dose Oculta, no Distrito Federal, para investigar importação clandestina, armazenamento e comercialização irregular de medicamentos e peptídeos.

Segundo a PF, os produtos eram anunciados e vendidos por redes sociais e aplicativos de mensagens. Entre as substâncias investigadas estavam tirzepatida, retatrutida e outros peptídeos sem registro ou autorização da Anvisa para comercialização no Brasil.

A investigação apura, entre outros pontos, a entrada clandestina de produtos no país sem o devido desembaraço aduaneiro e sem autorização das autoridades sanitárias.

Até medicamento verdadeiro pode estar sendo usado em propaganda irregular

Outro detalhe importante: o problema não está apenas em produtos falsificados.

Em 25 de setembro, a Anvisa proibiu a propaganda do Semavy (semaglutida) depois de identificar divulgação do medicamento em painéis eletrônicos no Aeroporto de Congonhas, no site do produto e em redes sociais.

O medicamento possui indicação aprovada para tratamento de diabetes mellitus tipo 2 insuficientemente controlado. Por ser um medicamento de tarja vermelha, sua propaganda para o público em geral é proibida.

A Anvisa reforçou que medicamentos sujeitos a prescrição não podem ser anunciados livremente ao consumidor.

Isso demonstra uma diferença fundamental: um medicamento pode ser verdadeiro e ainda assim estar sendo comercializado ou anunciado de maneira irregular, inclusive para uma finalidade diferente da aprovada.

Até “Ozempic Natural” já foi proibido

Em agosto, a Anvisa determinou a apreensão de um produto comercializado como “Ozempic Natural”.

Segundo a agência, o produto não possuía registro sanitário e estava proibido de ser fabricado, comercializado, distribuído, importado, divulgado e utilizado.

Na mesma decisão, a Anvisa também determinou medidas contra produtos chamados Slim Turbo Premium e Slim CPS Dourado Gold, que não tinham registro e eram fabricados por empresa sem autorização de funcionamento.

O caso é um exemplo do risco de uma estratégia bastante utilizada na internet: associar o nome de um produto conhecido a palavras como “natural”, “alternativo”, “potente” ou “equivalente” para induzir o consumidor a acreditar que está adquirindo algo semelhante ao medicamento original.

Falsificações também estão chegando ao mercado

Em setembro, a Anvisa determinou a apreensão de unidades falsificadas do Phesgo, medicamento utilizado no tratamento do câncer de mama.

A medida atingiu unidades de fabricação 06/2025 do lote B5011B05, identificado pela empresa detentora do registro como divergente do medicamento original.

A agência também determinou a apreensão e proibição de venda e uso de lotes falsificados do Dysport, medicamento à base de toxina botulínica tipo A.

No mesmo conjunto de medidas, a Anvisa suspendeu propagandas na internet de diversos produtos manipulados e proibiu a divulgação de produtos de cannabis fabricados por empresa desconhecida e anunciados por site e redes sociais sem registro ou autorização sanitária.

Como o consumidor pode descobrir se está sendo enganado?

Antes de comprar qualquer medicamento pela internet, o consumidor deve parar e fazer algumas verificações.

A própria Anvisa disponibiliza uma ferramenta para consultar a situação dos produtos. É possível pesquisar pelo nome ou marca, CNPJ da empresa, número de registro ou número do processo.

Se o resultado aparecer como “ativo” ou “válido”, o produto está regularizado. Se estiver como “inativo” ou “inválido”, não está regularizado.

Também é importante verificar:

  • se o vendedor é uma farmácia regularizada;
  • se o site apresenta identificação clara da empresa;
  • se o produto possui fabricante e informações de registro;
  • se a embalagem está íntegra;
  • se lote e validade estão corretos;
  • se a bula corresponde ao medicamento;
  • se o preço é absurdamente inferior ao praticado normalmente;
  • se o anúncio promete cura rápida ou resultados extraordinários;
  • se o produto está sendo oferecido sem receita quando a legislação exige prescrição;
  • se a indicação anunciada corresponde à indicação aprovada.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) também alerta que comprar medicamentos de estabelecimentos on-line não autorizados aumenta significativamente o risco de receber produtos ilegais, falsificados ou de qualidade inferior. Entre os problemas estão a impossibilidade de garantir a origem, armazenamento, composição e adequação do medicamento ao paciente.

“Químico experimental” não é autorização para vender

Outro termo que aparece com frequência em anúncios é “produto experimental” ou “químico para pesquisa”.

A Anvisa alerta que medicamentos experimentais são aqueles utilizados dentro de pesquisas clínicas autorizadas. Isso não significa que possam ser vendidos livremente para consumidores utilizarem por conta própria.

A agência afirma que produtos comercializados como “químicos experimentais” ou destinados a “fins de pesquisa” não podem ser vendidos e que essas expressões podem ser utilizadas como tentativa de enganar o consumidor.

O perigo pode estar dentro da embalagem

O consumidor que compra um produto irregular não tem como saber, apenas olhando para a caixa, se recebeu exatamente aquilo que foi anunciado.

Um medicamento falsificado pode apresentar princípio ativo diferente, concentração incorreta ou ausência do princípio ativo esperado. Também pode haver problemas de armazenamento, contaminação ou alteração da composição.

No caso de produtos injetáveis, o risco pode ser ainda maior porque qualquer contaminação pode ser diretamente introduzida no organismo.

A OMS destaca que, em compras realizadas em estabelecimentos on-line não autorizados, não há garantia de que o consumidor receberá exatamente o produto comprado, nem de que ele tenha sido fabricado ou armazenado de maneira adequada.

E se eu já comprei?

A recomendação é não utilizar o produto simplesmente porque ele chegou em casa.

Se houver dúvida sobre a procedência, o consumidor deve procurar orientação de um profissional de saúde habilitado e verificar a situação do produto nos canais oficiais da Anvisa.

Caso tenha ocorrido reação adversa, é importante buscar atendimento médico e comunicar o problema às autoridades sanitárias.

A Anvisa também orienta que denúncias de produtos irregulares ou falsificados sejam encaminhadas aos canais oficiais, com o máximo possível de informações sobre produto, fabricante, vendedor e local de aquisição.

O alerta que vale para qualquer compra

Não é porque um produto aparece no Instagram, TikTok, Facebook, WhatsApp, Telegram ou em um marketplace que ele é seguro.

Também não é porque alguém aparece em um vídeo dizendo que emagreceu, curou uma doença ou “mudou de vida” depois de usar determinado produto que aquilo representa evidência científica.

E nem mesmo a imagem de uma celebridade ou de um suposto médico garante autenticidade: a Anvisa já alertou para o uso de deepfakes produzidos com inteligência artificial para promover medicamentos e suplementos.

O consumidor precisa desconfiar principalmente quando a propaganda oferece resultado rápido, cura milagrosa, preço muito abaixo do mercado, produto “secreto”, fórmula “proibida”, substância “experimental” ou tratamento que supostamente funciona para dezenas de problemas diferentes.

Na dúvida, a regra é simples: antes de colocar o produto no corpo, confira se ele existe oficialmente, quem o fabrica, se está autorizado pela Anvisa e se a finalidade anunciada é realmente aquela para a qual ele foi aprovado.

Porque, quando se trata de medicamentos, o barato pode sair muito mais caro — e uma promessa feita na tela do celular pode esconder um produto que nunca deveria ter chegado às mãos do consumidor.