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Conta de luz dispara em Manaus após chegada da Âmbar; MP manda suspender troca de fiação

Consumidores relatam contas que praticamente dobraram, enquanto Amazonas Energia aparece entre as empresas mais reclamadas no Procon-AM; Ministério Público exige pausa de 30 dias na substituição de cabos em Manaus.


A chegada da Âmbar Energia ao comando da distribuição de eletricidade no Amazonas, em abril deste ano, veio acompanhada de uma onda de reclamações de consumidores sobre contas de luz muito acima do habitual, oscilações no fornecimento, interrupções e problemas associados à substituição da rede elétrica em Manaus.

A situação ganhou novo capítulo nesta sexta-feira (11), quando o Ministério Público do Amazonas (MPAM) recomendou que a concessionária suspenda por 30 dias a substituição da fiação pública por cabos de alumínio na capital. A medida foi adotada depois do aumento de reclamações e de notificações envolvendo oscilações severas, curtos-circuitos e outros incidentes em áreas que já receberam os novos cabos.

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A recomendação foi expedida pela 51ª e pela 81ª Promotorias de Justiça Especializadas na Proteção e Defesa dos Direitos do Consumidor (Prodecon). O MPAM instaurou inquérito civil para verificar se o novo sistema de cabeamento é adequado às condições climáticas de Manaus e se atende às normas técnicas e de segurança.

A explicação da Empresa

“A cada 1 megawatt que eu faturou, 1,2 megawatt é desviado”, diz João Pilla, Presidente da Âmbar na área de distribuição. “O roubo de energia chega a mais de 50% do total distribuído, o maior percentual do país”, disse.

 Outro grande problema a ser enfrentado pela Âmbar é o alto número de grandes devedores, especialmente prefeituras e o próprio governo estadual. Em 2024, a Amazonas Energia informou que havia R$ 2,8 bilhões em contas atrasadas  de consumidores somente em Manaus. No interior, chegava a R$ 890 milhões.

João Pilla afirmou que a companhia prevê a revitalização dos canais digitais para facilitar o atendimento e resolução de dívidas com pequenos consumidores. No caso de grandes devedores, o esforço precisará ser ainda mais concentrado.

“Estamos fazendo uma grande avaliação. Eu, pessoalmente, quero falar com todas as prefeituras. Quero me aproximar de todos os prefeitos para a gente resolver o passado e garantir o futuro”, pontuou.

 

João Pilla, Presidente da Âmbar na área de distribuição – Foto: Jeiza Russo

 

Contas que chegam a praticamente dobrar

Enquanto a concessionária promove a modernização da rede, consumidores passaram a relatar aumentos expressivos nas faturas. Há casos registrados publicamente em que valores que antes ficavam na faixa de dezenas ou poucas centenas de reais saltaram para patamares muito superiores.

Um dos relatos disponíveis no Reclame Aqui mostra um consumidor que possuía geração própria de energia solar e afirma que suas contas permaneciam entre R$ 80 e R$ 130, mesmo com consumo mensal entre 500 e 800 kWh. Nas faturas de junho e julho de 2026, porém, os valores teriam subido para R$ 517,10 e R$ 493,44, respectivamente.

Outro consumidor reclamou de uma fatura de agosto considerada incompatível com o histórico de consumo. A Âmbar registrou a contestação e informou que faria análise da variação.

Os relatos alimentaram a percepção entre consumidores de que, para algumas famílias, o custo da energia praticamente dobrou após a mudança de gestão. Entretanto, os dados oficiais da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) mostram que não houve autorização para uma duplicação generalizada da tarifa.

Reajuste oficial foi bem menor

O reajuste tarifário aprovado pela ANEEL em maio de 2026 entrou em vigor no dia 26 daquele mês. Para consumidores residenciais e demais unidades de baixa tensão, o efeito médio foi de 3,79%. Para consumidores de alta tensão, o índice médio chegou a 13,24%, enquanto o efeito médio considerando todas as classes ficou em 6,58%.

Isso significa que uma conta que aumentou 50%, 80% ou 100% não pode ser explicada simplesmente pelo reajuste tarifário anual autorizado pela agência reguladora.

É justamente essa diferença entre o reajuste oficial e os aumentos relatados pelos consumidores que passou a chamar a atenção dos órgãos de defesa do consumidor.

Amazonas Energia está entre as mais reclamadas no Procon-AM

O problema não é apenas pontual. Dados divulgados pelo Procon-AM, referentes aos cinco primeiros meses de 2026, colocaram a Amazonas Energia entre as empresas com maior número de reclamações no estado.

Entre janeiro e maio, foram registrados 261 atendimentos contra a concessionária, número que colocou a empresa na quarta posição no ranking geral de reclamações do órgão. À frente apareceram Águas de Manaus, com 510 registros, Bradesco, com 301, e Vivo, com 272.

As principais queixas registradas no ranking do Procon-AM envolvem cobranças indevidas, falhas na prestação dos serviços, dificuldades de atendimento e problemas relacionados à relação de consumo.

Embora parte dos registros tenha ocorrido antes da consolidação da mudança de marca e gestão pela Âmbar, a concessionária atual passou a responder pela operação do serviço e herdou a estrutura, os contratos e o histórico de atendimento da antiga Amazonas Energia.

Reclamações continuam após a mudança de controle

No Reclame Aqui, os registros relacionados à Âmbar Energia Amazonas também mostram insatisfação dos consumidores. No período de março a agosto de 2026, a empresa aparecia com reputação classificada como “Não recomendada”, nota média de 2,77/10 entre as reclamações avaliadas e apenas 28,9% dos consumidores avaliadores afirmando que voltariam a fazer negócio.

A plataforma também registra reclamações recentes envolvendo contas consideradas incompatíveis com o consumo, cortes de energia, danos em medidores e problemas na rede.

MP quer saber se a nova fiação é segura

Além das contas, a preocupação agora envolve a segurança da população.

O MPAM determinou que a Âmbar apresente, entre outras informações, laudos e certificados de conformidade dos cabos de alumínio, mapeamento das áreas onde a substituição já ocorreu, comparação de ocorrências antes e depois das obras, histórico de reclamações dos moradores e um plano de emergência para possíveis incidentes e incêndios elétricos.

A concessionária também deverá apresentar informações sobre o consumo e o faturamento das unidades afetadas, incluindo histórico de seis meses anteriores e período posterior às alterações na rede.

A promotora Sheyla Andrade dos Santos afirmou que a continuidade das substituições sem uma perícia conclusiva pode representar risco à população e ao patrimônio dos moradores.

Âmbar promete bilhões em investimentos

A Âmbar anunciou um plano de R$ 5,5 bilhões em investimentos no sistema de distribuição do Amazonas até 2031. Desse total, R$ 3,9 bilhões seriam recursos próprios, enquanto o restante viria de repasses públicos vinculados a programas como o Luz para Todos e projetos de interligação.

A empresa afirma ter encontrado uma estrutura marcada por anos de baixo investimento e elevado índice de perdas. Segundo a companhia, cerca de 44% da energia distribuída atualmente não é faturada, principalmente em razão de desvios e ligações clandestinas.

O plano prevê modernização da rede, substituição de cabos, construção de subestações e utilização de tecnologias de monitoramento.

DPE-AM também investiga aumento das contas

A discussão sobre as faturas chegou ainda à Defensoria Pública do Amazonas. Em agosto, a DPE-AM abriu um canal específico para receber relatos de consumidores que identificaram aumento nas contas e passou a solicitar cópias das faturas de junho a agosto de 2025 e do mesmo período de 2026 para análise.

Na Assembleia Legislativa do Amazonas, o deputado Wilker Barreto também apresentou requerimento ao Procon-AM solicitando providências para apurar relatos de aumentos expressivos nas contas, inclusive possíveis elevações abruptas do consumo atribuído às unidades consumidoras.

A pressão sobre a concessionária ocorre, portanto, em várias frentes: Ministério Público, Procon-AM, Defensoria Pública, Assembleia Legislativa e órgãos reguladores.

Âmbar terá de explicar as mudanças

Pela recomendação do MPAM, a Âmbar tem três dias para informar se aceitará a suspensão das obras. Caso não cumpra a determinação ou apresente justificativa considerada insuficiente, o Ministério Público poderá recorrer à Justiça, inclusive com uma Ação Civil Pública e pedido de tutela de urgência.

O episódio coloca a nova concessionária diante de uma cobrança dupla: melhorar uma rede historicamente problemática sem transferir ao consumidor, de forma indevida, os custos ou efeitos de uma transformação que ainda está sob questionamento.

Para os consumidores, a principal dúvida permanece: por que algumas contas aumentaram muito acima do reajuste tarifário oficial justamente no período de transição para a nova gestão?

A resposta deverá sair das investigações dos órgãos de defesa do consumidor, da análise das faturas e dos esclarecimentos que a Âmbar terá de prestar às autoridades.