Justiça

Brasília

Mensagens de Vorcaro colocam Moraes no centro de nova crise entre STF, PF e PGR

Relatório da Polícia Federal revela diálogos envolvendo o ex-banqueiro do Banco Master e o ministro do STF; decisão de André Mendonça para aprofundar análise das conversas provocou reação da PGR e desconforto dentro da corporação.


O caso envolvendo o Banco Master ganhou um novo e delicado capítulo após a divulgação de um relatório da Polícia Federal com mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador da instituição financeira. O documento reúne conversas e outros registros que ampliaram os questionamentos sobre a relação do empresário com autoridades dos principais órgãos da República.

Entre os nomes citados no material estão o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.

Continua depois da Publicidade

O relatório foi produzido após determinação do ministro André Mendonça, relator das investigações relacionadas ao Banco Master. O magistrado retirou o sigilo do documento e defendeu que os novos elementos sejam analisados publicamente pelo plenário do STF.

A iniciativa, porém, provocou uma reação imediata da Procuradoria-Geral da República. Gonet pediu a anulação do relatório e afirmou que Mendonça teria ultrapassado os limites de sua atuação ao determinar o aprofundamento de uma investigação envolvendo outro integrante do Supremo.

Encontros citados no relatório da PF

De acordo com o documento, as conversas indicam compromissos pessoais, reuniões em residências privadas e eventos no Brasil e no exterior:

  • 13 de março de 2024: Fábio Faria e Vorcaro tratam do agendamento de uma conversa para “tomar um whisky” com Moraes (citado como “Alex”) no início da noite. O encontro acabou remarcado diante de um choque com a agenda de Vorcaro.
  • 17 de abril de 2024: Faria pede o endereço da residência de Vorcaro em Brasília (no Lago Sul) para repassar a “Alex”, afirmando que apagaria as mensagens em seguida.
  • 17 de julho de 2024: Mensagens de Fábio Faria confirmam um encontro com “Alexandre” (também chamado de “Careca”) por volta das 19h30.
  • 5 de novembro de 2024: Em diálogo com a filha, Vorcaro relata: “To com alexandre moraes”.
  • 26 de fevereiro de 2025: Um motorista de Vorcaro em Brasília envia mensagem avisando o empresário que o “Min Alexandre chegou” à residência.
  • 19 e 20 de março de 2025: Vorcaro informa à namorada e a um diretor do Banco Central que estava reunido com o ministro. O encontro, segundo a PF, avançou pela madrugada do dia 20 com a chegada de outros parlamentares e lideranças políticas à residência.
  • 19 de abril de 2025: Vorcaro avisa que está saindo para encontrar Alexandre de Moraes durante o feriado, em local próximo à sua casa. O relatório indica que o encontro ocorreu na região de Campos do Jordão (SP).
  • 29 de abril de 2025: O banqueiro volta a relatar à namorada que está reunido com “alexandre”.
  • 21 de maio de 2025: Vorcaro diz estar em casa com “Ciro e alexandre”.
  • 8 de agosto de 2025: Em mensagens, o empresário afirma que deixaria de viajar naquela data porque estava “c alexandre” antes de uma reunião com Ciro.

O que há nas mensagens

De acordo com o relatório da PF, as mensagens foram recuperadas a partir do celular de Daniel Vorcaro, que é um dos principais alvos das investigações da Operação Compliance Zero.

O material registra uma série de contatos entre Vorcaro e Alexandre de Moraes. Segundo as informações divulgadas, os dois teriam se encontrado pelo menos seis vezes.

Um dos diálogos que mais chamou a atenção dos investigadores ocorreu pouco antes da prisão do empresário. Nas mensagens, Vorcaro teria questionado Moraes sobre a possibilidade de deixar o Brasil.

O episódio ganhou relevância porque Vorcaro acabou preso quando tentava deixar o país em um avião particular.

As mensagens, segundo a PF, também indicam que o empresário buscava apoio de diferentes autoridades para lidar com problemas enfrentados pelo Banco Master e com o avanço das investigações.

É importante destacar que a existência dos diálogos não significa, por si só, que Moraes ou qualquer outra autoridade tenha cometido crime. O significado das conversas e eventual existência de irregularidades dependem da análise jurídica e das conclusões das investigações.

 

Supostas mensagens entre Vorcaro e Moraes eram de visualização única; as do banqueiro ficaram salvas no celular – Imagem: Reprodução/Redes Sociais

 

Relação com eventos e contratos

O relatório também trouxe informações sobre a participação de Moraes em eventos jurídicos relacionados ao grupo de Vorcaro.

Segundo a documentação divulgada, o ministro teria feito sugestões relacionadas à organização de um fórum jurídico realizado em Londres, incluindo mudanças em convidados e na programação.

O material também registra relações comerciais entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro.

Um dos contratos mencionados nas investigações é estimado em aproximadamente R$ 131 milhões.

Também foram divulgadas informações sobre uma segunda negociação envolvendo aeronaves, avaliada em cerca de R$ 50 milhões.

A existência de contratos entre uma instituição financeira e um escritório de advocacia não representa, isoladamente, prova de irregularidade. O ponto de discussão é se houve eventual conflito de interesses ou alguma relação entre os contratos e a atuação de autoridades públicas.

Gonet também aparece no relatório

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, é outro nome mencionado no material produzido pela Polícia Federal.

Segundo o relatório, mensagens tratam de contatos envolvendo pessoas próximas ao procurador-geral. Entre os episódios citados está a tentativa de participação de Pedro Gonet, filho de Paulo Gonet, em um evento em Londres com despesas custeadas por Vorcaro.

O advogado Ciro Soares aparece como intermediário nas conversas.

Segundo informações divulgadas sobre o documento, Vorcaro teria concordado com o pagamento das despesas. O advogado afirmou que não havia irregularidade no custeio de participação de convidados e palestrantes em um evento aberto ao público.

Paulo Gonet também foi citado em mensagens relacionadas às dificuldades enfrentadas pelo Banco Master.

O procurador-geral, entretanto, passou a ocupar uma posição incomum no caso: além de ser mencionado no relatório, é justamente o responsável pela manifestação da PGR que questiona a validade da investigação.

PGR pede anulação

Na noite de terça-feira (1º), Gonet pediu ao STF que o relatório da Polícia Federal fosse considerado nulo.

Para o procurador-geral, André Mendonça teria determinado diretamente à PF que investigasse pessoas específicas, incluindo um ministro do Supremo, sem que houvesse pedido do Ministério Público ou iniciativa da autoridade policial.

A PGR sustenta que uma investigação dessa natureza deveria observar as regras de competência do STF e passar pelo plenário da Corte.

Gonet também questionou a atuação de Mendonça na fase pré-processual e afirmou que o magistrado não poderia assumir funções próprias de investigação ou acusação.

Mendonça reage

André Mendonça, por sua vez, decidiu retirar o sigilo do relatório e indicou que pretende levar a discussão ao plenário do STF.

O ministro pediu ao presidente da Corte, Edson Fachin, que seja realizada uma sessão presencial para analisar os novos elementos apresentados pela Polícia Federal.

Mendonça considera que o plenário é a instância adequada para discutir as informações e definir quais medidas poderão ser tomadas a partir delas.

Agora, a decisão sobre o encaminhamento do caso está nas mãos de Fachin.

Por que o caso é tão sensível?

A situação ganhou dimensão institucional porque as informações envolvem simultaneamente integrantes do STF, da PGR e da Polícia Federal.

A PF é responsável pela investigação de diversos aspectos relacionados ao Banco Master. O STF, por sua vez, concentra processos que envolvem autoridades com foro especial. Já a PGR exerce papel central na análise de eventual responsabilização criminal de integrantes da Corte.

O cenário cria uma disputa sobre os limites de atuação de cada instituição.

Especialistas ouvidos pela imprensa apontam que o caso apresenta uma situação incomum, porque o material envolve tanto um ministro do STF quanto o próprio procurador-geral da República.

O Banco Master no centro das investigações

Daniel Vorcaro está no centro da Operação Compliance Zero, que investiga suspeitas relacionadas às atividades do Banco Master.

A partir da apreensão e análise de aparelhos eletrônicos, a Polícia Federal encontrou mensagens, documentos e registros que ampliaram o alcance das investigações.

O conteúdo passou a revelar contatos do empresário com autoridades, empresários, advogados e outras pessoas ligadas ao setor financeiro e político.

As novas descobertas fizeram com que uma investigação originalmente concentrada nas operações do banco passasse também a envolver discussões sobre possíveis conflitos de interesse e relações entre Vorcaro e integrantes de instituições públicas.

O que acontece agora

O próximo passo será a definição de Edson Fachin sobre o pedido de André Mendonça para levar o caso ao plenário.

Os ministros poderão discutir a validade do relatório da PF, os limites da atuação de Mendonça, o tratamento jurídico das mensagens e a possibilidade de aprofundamento das apurações.

Também deverá ser analisado o pedido de nulidade apresentado por Paulo Gonet.

Até que essas questões sejam decididas, as mensagens e demais documentos divulgados devem ser tratados como elementos de investigação, e não como comprovação definitiva de crimes ou irregularidades por parte das autoridades citadas.

A crise, contudo, já ultrapassou os limites da investigação criminal e abriu uma das mais delicadas disputas recentes entre STF, Polícia Federal e Procuradoria-Geral da República.