Manaus permanece nesta segunda-feira (20), sob um dos maiores colapsos recentes da mobilidade urbana. O Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários de Manaus (STTRM) paralisou 100% da frota de ônibus do transporte coletivo da capital, interrompendo a circulação dos veículos e ainda a tarde, os veículos foram levados as garagens, esvaziando terminais e corredores viários estratégicos.
A decisão foi anunciada pelo presidente da entidade, Givancir Oliveira, após o sindicato afirmar que todas as tentativas de negociação com as empresas do sistema foram esgotadas. Segundo os rodoviários, o principal motivo da greve é o atraso no pagamento de salários e o descumprimento de decisões judiciais que determinavam a regularização dos vencimentos da categoria. Ao longo do dia, entretanto, o movimento passou a incorporar outras reivindicações, incluindo melhorias nas condições de trabalho e mudanças estruturais no sistema de transporte coletivo.
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Em pronunciamento divulgado nas redes sociais, o dirigente sindical declarou o encerramento das negociações e convocou os trabalhadores a interromperem integralmente as atividades, orientando que ônibus fossem parados nas garagens, terminais e principais vias da cidade.
“Nem que caia o pagamento a grave vai ser suspensa. Isso é toda quinzena essa pouca vergonha, essa sacanagem com o trabalhador e isso tem que acabar. O rodoviário merece respeito, ninguém é palhaço não. O rodoviário exige respeito. Enquanto não houver uma negociação, um acordo assinado entre as empresas, prefeitura e sindicato, os ônibus não voltam a rodar”. Afirmou o presidente do STTRM, Givancir Oliveira.

“Sou amigo do prefeito, mas não sou capacho. Não confundam amizade com liberdade” – Givancir Oliveira (Centro) – Foto: Reprodução
Sistema entra em colapso
A paralisação atingiu milhares de usuários que dependem diariamente do transporte coletivo para deslocamentos ao trabalho, escolas, hospitais e demais serviços essenciais.
Com a interrupção total da operação, pontos de ônibus ficaram lotados, motoristas por aplicativos registraram aumento significativo na demanda e o trânsito sofreu alterações em diversas regiões da cidade.
A greve ocorre em um dos sistemas de transporte mais sensíveis do país, historicamente marcado por debates sobre qualidade do serviço, reajustes tarifários, subsídios públicos e renovação da frota.
Empresas afirmam surpresa
O Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Amazonas (Sinetram) informou que foi surpreendido pela paralisação e afirmou que não houve comunicação prévia por parte do sindicato dos trabalhadores.
Em nota, a entidade declarou que pretende adotar medidas judiciais para restabelecer a operação do transporte coletivo, classificando a interrupção como uma grave ameaça à prestação de um serviço essencial.
Prefeitura nega débitos
A Prefeitura de Manaus também divulgou posicionamento oficial afirmando que não possui débitos pendentes referentes aos repasses de 2026 ao sistema de transporte e sustentou que todas as obrigações financeiras do município vêm sendo cumpridas regularmente.
A administração municipal declarou ainda que acompanha as negociações e mantém diálogo com os envolvidos para tentar restabelecer a normalidade do serviço.
População paga a conta
Enquanto trabalhadores e empresas travam mais um capítulo do impasse, quem sofre os maiores impactos é a população.
Milhares de pessoas ficaram sem alternativa de deslocamento, especialmente moradores das zonas Norte e Leste, onde o transporte coletivo representa praticamente a única opção de mobilidade.
Além dos prejuízos econômicos, especialistas apontam que paralisações integrais comprometem o funcionamento de hospitais, comércio, indústria, escolas e órgãos públicos.
Análise política
A paralisação amplia significativamente a pressão sobre a Prefeitura de Manaus.
Embora o Executivo sustente que está em dia com seus compromissos financeiros junto ao sistema, o episódio reacende o debate sobre o modelo de gestão do transporte coletivo e o elevado volume de recursos públicos destinados ao setor.
Politicamente, o desgaste tende a atingir diversos atores.
O sindicato busca fortalecer sua posição diante da categoria ao demonstrar capacidade de mobilização.
As empresas enfrentam críticas relacionadas às condições de trabalho e ao pagamento dos funcionários.
Já a Prefeitura passa a ser cobrada por uma solução rápida, uma vez que o transporte coletivo é um serviço público essencial cuja continuidade interessa diretamente à administração municipal.
Caso o impasse se prolongue, cresce a possibilidade de o tema ocupar o centro do debate político na Câmara Municipal, envolvendo pedidos de explicações, convocações de representantes do sistema e novas discussões sobre fiscalização dos contratos de concessão e da política de subsídios ao transporte.
Análise jurídica
Sob o aspecto jurídico, o caso pode produzir diversos desdobramentos.
Embora o direito de greve seja assegurado pela Constituição Federal, o transporte coletivo urbano é considerado serviço essencial. Nesses casos, a legislação exige a manutenção mínima das atividades para evitar prejuízos irreparáveis à população, além de comunicação prévia em determinadas circunstâncias. O descumprimento desses requisitos pode levar a decisões judiciais determinando a retomada parcial ou total da operação, sob pena de aplicação de multas ao sindicato.
Por outro lado, se ficar comprovado que houve atraso salarial reiterado ou descumprimento de decisões judiciais por parte das empresas, estas também poderão responder judicialmente, inclusive por eventuais indenizações trabalhistas e sanções decorrentes da violação de obrigações legais.
É provável que o Tribunal Regional do Trabalho seja novamente acionado para promover audiência de conciliação entre trabalhadores e empresas, buscando restabelecer o serviço e construir um acordo que contemple o pagamento das verbas reivindicadas.
Caso o conflito permaneça sem solução, não está descartada a possibilidade de intervenção judicial para garantir a continuidade mínima do transporte coletivo, preservando tanto o direito constitucional de greve quanto o direito da população à prestação de um serviço público essencial.
Possíveis desdobramentos
Os próximos dias serão decisivos para o futuro da crise. Entre os cenários mais prováveis estão:
- realização de audiência de conciliação mediada pela Justiça do Trabalho;
- determinação judicial para circulação de parte da frota;
- aplicação de multas caso a greve seja considerada abusiva;
- acordo para pagamento de salários e retomada imediata da operação;
- intensificação da pressão política sobre Prefeitura, empresas e órgãos responsáveis pela fiscalização do sistema;
- reabertura do debate sobre o atual modelo de concessão do transporte coletivo em Manaus e sua sustentabilidade financeira.
Independentemente do desfecho, a paralisação evidencia que o transporte coletivo permanece como um dos principais desafios da gestão pública da capital amazonense, envolvendo interesses trabalhistas, econômicos, políticos e jurídicos que ultrapassam o episódio desta segunda-feira.
