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Justiça transforma 13 investigados em réus por esquema de garimpo ilegal que movimentou mais de R$ 258 milhões no Amazonas

Operação da Polícia Federal revelou exploração clandestina de ouro dentro de unidade de conservação, uso de trabalho análogo à escravidão, contaminação ambiental por mercúrio e atuação de segurança armada em área de floresta protegida.


Foto: Arquivo PF

A Justiça Federal aceitou denúncia do Ministério Público Federal (MPF) e tornou réus 13 investigados apontados como integrantes de uma organização criminosa responsável por um esquema milionário de garimpo ilegal no Amazonas. Segundo as investigações, o grupo operava entre abril de 2023 e agosto de 2025 na região conhecida como Filão dos Abacaxis, localizada dentro da Floresta Nacional de Urupadi, no município de Maués, a cerca de 270 quilômetros de Manaus.

De acordo com o MPF, a atividade clandestina movimentou aproximadamente R$ 258,6 milhões em transações financeiras suspeitas, identificadas por meio de Relatórios de Inteligência Financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Os prejuízos socioambientais provocados pelo esquema são estimados em R$ 267 milhões.

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A denúncia é resultado das investigações conduzidas na Operação Mineração Obscura, deflagrada pela Polícia Federal com o objetivo de desarticular uma das maiores estruturas de extração ilegal de ouro já identificadas na região amazônica nos últimos anos.

Trabalhadores resgatados em condições degradantes

Um dos pontos mais graves revelados pela investigação foi o resgate de mais de 50 trabalhadores encontrados em condições análogas à escravidão. Equipes de fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego identificaram que os garimpeiros viviam isolados em meio à floresta, alojados em barracos improvisados de lona, sem acesso adequado a água potável, saneamento básico ou assistência médica.

Segundo os relatórios oficiais, os trabalhadores eram submetidos a jornadas exaustivas, em regime de 24 horas de trabalho por 24 horas de descanso, além de manipularem substâncias altamente tóxicas, como mercúrio e cianeto, sem equipamentos de proteção individual.

As autoridades também apontaram que a área de exploração mantinha uma estrutura permanente de vigilância armada para controlar o acesso ao garimpo e garantir a continuidade das atividades ilegais.

 

Fotos: Arquivo (PF)

 

Contaminação ambiental e risco à população

As investigações revelaram ainda um cenário de forte impacto ambiental na bacia do Rio Abacaxis. Conforme o MPF, cerca de 8,5 quilos de mercúrio teriam sido despejados na região durante as atividades de extração mineral.

O metal pesado é amplamente utilizado em garimpos ilegais para separar o ouro de outros materiais, mas representa um sério risco à saúde humana e aos ecossistemas aquáticos. As autoridades estimam que aproximadamente 67 mil pessoas possam estar expostas aos efeitos da contaminação crônica causada pela substância.

Durante as fiscalizações, os agentes também encontraram estruturas preparadas para utilização de cianeto, outro produto químico altamente tóxico empregado na extração de ouro e capaz de causar danos severos ao meio ambiente.

Prisões, apreensões e bloqueio de bens

A Operação Mineração Obscura cumpriu mandados de busca e apreensão nos estados do Amazonas, Pará, Mato Grosso, Rondônia e Piauí. Três investigados foram presos durante a ação, sendo um deles autuado em flagrante por posse ilegal de fuzil.

As equipes apreenderam veículos de luxo, joias, dinheiro em espécie, barras de ouro, armas de fogo de uso restrito, incluindo fuzis e submetralhadoras, além de centenas de munições.

Por determinação da Justiça Federal, mais de R$ 74 milhões em bens e ativos financeiros dos investigados foram bloqueados. A medida busca garantir recursos para eventual reparação dos danos ambientais e sociais causados pela atividade criminosa.

Garimpo de poço

Segundo a Polícia Federal, a exploração ocorria por meio do chamado “garimpo de poço”, modalidade caracterizada pela abertura de escavações profundas e minas subterrâneas para alcançar veios de minério. Esse método apresenta elevado risco de desabamentos, acidentes de trabalho e contaminação ambiental, além de exigir estruturas complexas para ventilação e drenagem.

Investigação envolveu cooperação interestadual e internacional

As apurações contaram com apoio do Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia (CCPI-Amazônia), que reúne órgãos de segurança brasileiros e parceiros internacionais para combater crimes ambientais e organizações criminosas que atuam na região amazônica.

Com o recebimento da denúncia pela Justiça Federal, os 13 acusados passam oficialmente à condição de réus e responderão ao processo criminal. Caso sejam condenados, poderão responder por crimes relacionados à organização criminosa, usurpação de bens da União, extração ilegal de recursos minerais, crimes ambientais, redução de trabalhadores à condição análoga à escravidão e lavagem de dinheiro.