Internacional

África do Sul iniciou nesta segunda-feira (27) uma semana de luto pela morte do arcebispo Desmond Tutu


Grande símbolo da luta contra o apartheid e um carismático comunicador, o arcebispo Desmond Tutu deixa o país órfão.

Vencedor do Nobel da Paz em 1984, Tutu faleceu no domingo (26) aos 90 anos, estava afastado da vida pública. Mas todos lembram de sua figura, sua tenacidade e sinceridade para denunciar as injustiças.

Continua depois da Publicidade

O funeral acontecerá em 1º de janeiro na catedral de São Jorge da Cidade do Cabo, sua antiga paróquia, onde os sul-africanos depositam flores em homenagem a um dos grandes nomes da história do país. “Quando éramos jovens militantes, se o arcebispo Tutu estava presente, a polícia e o exército nunca atiravam. Por quê? Realmente não sabemos. Mas ele servia de escudo”, tuitou Panyaza Lesufi, uma das líderes do Congresso Nacional Africano (ANC), partido que atuou para acabar com o apartheid e governa a África do Sul desde 1994.

O “Arch”, diminutivo de arcebispo em inglês, como ele era chamado de maneira carinhosa no país, “é o último de uma geração extraordinariamente notável de líders africanos”, escreveu nesta segunda-feira a viúva de Nelson Mandela, Graça Machel, ao lamentar “a perda de um irmão”.

“Do alto de seu púlpito, utilizando com habilidade sua autoridade moral, Arch condenou com paixão o apartheid e exigiu com eloquência sanções contra o regime racista”, recordou a militante moçambicana. Com a “coragem indescritível” que tinha para lutar, “permanecia decidido e sem medo, liderando as manifestações, com sua roupa clerical e seu crucifixo como escudo”, descreveu, antes de revelar que Tutu estimulou “Madiba (Mandela) e ela” a oficializar sua união com o casamento. – “Uma vida repleta de sentido” – A igreja anglicana anunciou uma semana de homenagens. De segunda-feira a sexta-feira, os sinos da catedral de São Jorge tocarão por 10 minutos a partir do meio-dia para recordar o símbolo da luta contra o apartheid. O arcebispo da Cidade do Cabo pediu que, aqueles que desejarem, “façam uma pausa em suas tarefas” para pensar em Tutu.

Na quarta-feira, a diocese de Pretória e o Conselho de Igrejas da África do Sul organizarão uma cerimônia na capital. Na quinta-feira à noite está programada uma cerimônia íntima para a viúva de Tutu, Nomalizo Leah Shenxane, conhecida como “Mama Leah”, a família e os amigos. Na sexta-feira, o corpo do falecido será levado para a a capela da catedral, antes do enterro. As homenagens continuam chegando de todo o mundo, de chefes de Estado a líderes religiosos.

O papa Francisco destacou o papel do sul-africano na “promoção da igualdade racial e da reconciliação”. O Dalai Lama, velho amigo de Tutu, elogiou “um grande homem, totalmente dedicado ao serviço de seus irmãos e irmãs”. Desmond Tutu ganhou notoriedade nos momentos mais obscuros do apartheid, quando liderou passeatas pacíficas contra a segregação e para defender sanções contra o regime de supremacia branca de Pretória. Ao contrário de outros ativistas da época, a posição de líder religioso o salvou de ser preso e sua luta pacífica foi reconhecida com o Prêmio Nobel da Paz em 1984.

Após a chegada da democracia em 1994 e da eleição de seu amigo Nelson Mandela como presidente, Desmond Tutu, que criou o termo “Nação Arco-Íris” para a África do Sul, presidiu a Comissão da Verdade e da Reconciliação, criada com a esperança de virar a página do ódio racial.

O arcebispo sul-africano morreu aos 90 anos na manhã deste domingo, 26.  A causa da morte não foi especificada, mas Tutu lutava contra um câncer de próstata durante os anos 1990, que o lavou a ser internado em hospitais diversas vezes. A informação foi confirmada pelo presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa.

“A morte do arcebispo emérito Desmond Tutu é outro capítulo de luto no adeus de nossa nação a uma geração de sul-africanos excepcionais que nos deixou uma África do Sul liberta”, disse Ramaphosa.

Em 1994, com a eleição de seu amigo Nelson Mandela como presidente, Desmond Tutu, que deu à África do Sul o apelido de “Nação Arco-Íris”, presidiu a Comissão de Verdade e Reconciliação (TRC), iniciativa para combater o ódio racial. O religioso já estava com a saúde debilitada e não falava mais em público, mas sempre saudava as câmeras presentes em suas aparições.

A Fundação Mandela chamou sua partida de “perda incomensurável”. “Para tantas pessoas na África do Sul e ao redor do mundo, sua vida foi uma bênção”, pontuou a organização, chamando-o de pensador, líder e pastor.

Tutu deixa a esposa, Normalizo Leah Shenxane, e quatro filhos.