Documentário revela a relação entre fé e política no Brasil e investiga a relação entre religião evangélica e política no Brasil.
O novo documentário Apocalipse nos Trópicos, da cineasta Petra Costa, estreou no dia 3 de julho, nos cinemas de São Paulo e do Rio de Janeiro. Em 14 de julho, o filme foi disponibilizado na Netflix. A obra dá continuidade ao trabalho iniciado em Democracia em Vertigem, abordando a influência da religião evangélica na política brasileira.
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Com 26,9% da população brasileira se identificando como evangélica, o documentário investiga como a fé tem sido utilizada por lideranças políticas. Petra Costa e a produtora Alessandra Orofino entrevistaram figuras como Silas Malafaia e Jair Bolsonaro, revelando a instrumentalização da religião no cenário político. Um registro inédito de Cabo Daciolo, pregando no Congresso, abre o filme, destacando a presença evangélica na vida pública.
Mais recentemente, vemos o presidente Lula entrando em cena com a instrumentalização da fé na política, que tem sido uma estratégia recorrente em diversos governos, e no caso do presidente Lula, observa-se uma tentativa de absorver esse elemento como forma de ampliar sua base de apoio. Em um cenário político marcado pela forte presença do discurso religioso — especialmente após os anos de protagonismo da pauta evangélica no governo anterior — Lula tem buscado se aproximar de setores religiosos, participando de eventos, dialogando com lideranças e utilizando uma retórica que valoriza valores cristãos como solidariedade, justiça e cuidado com os mais pobres.
Essa movimentação não representa necessariamente uma mudança de convicções pessoais, mas sim uma leitura pragmática do cenário político nacional, onde a religião exerce influência significativa sobre o comportamento do eleitorado. Assim, ao se apropriar de símbolos e discursos de fé, Lula tenta reconstruir pontes com grupos que, em grande parte, foram cooptados por adversários políticos, ao mesmo tempo em que reforça uma imagem de presidente que respeita e acolhe a diversidade religiosa do país. No entanto, essa estratégia também levanta questionamentos sobre os limites entre Estado laico e uso político da religiosidade.

Lula e Janja rezam em igreja de Belém – Foto: Reprodução/Redes sociais
Instrumentalização da Fé
Petra Costa observa que a atuação das igrejas durante a pandemia de Covid-19 foi significativa, oferecendo apoio espiritual e psicológico. O título Apocalipse nos Trópicos remete ao discurso religioso de fim dos tempos, que ganhou força entre líderes e fiéis. A diretora também notou a disseminação de ideias negacionistas, com pastores afirmando que Jesus curava a Covid.
O pastor Silas Malafaia, com mais de 4 milhões de seguidores nas redes sociais, é uma das figuras centrais do documentário. A produção buscou ouvir diferentes vozes dentro do universo evangélico, revelando uma revolta em relação à manipulação da fé para fins políticos. O objetivo é provocar uma reflexão, especialmente entre o público evangélico.
A Open Society Foundations, entidade global criada pelo bilionário George Soros, investiu cerca de R$ 800 mil na finalização e distribuição do documentário Apocalipse nos Trópicos, lançado mundialmente pela Netflix em julho de 2025. A obra, dirigida pela cineasta Petra Costa, trata da ascensão do movimento evangélico no cenário político brasileiro e sua relação com a eleição de Jair Bolsonaro e os atos de 8 de janeiro de 2023.

George Soros, investiu cerca de R$ 800 mil na finalização e distribuição do documentário – Foto: Reprodução
Com forte presença em festivais internacionais, o documentário vem gerando controvérsia entre setores da sociedade e lideranças religiosas. Parte da crítica aponta que a produção apresenta uma visão estereotipada dos evangélicos e os retrata como uma base política radicalizada. A obra utiliza imagens de cultos religiosos, discursos de pastores e manifestações de cunho político-religioso para sugerir que a fé teria sido instrumentalizada com fins eleitorais, especialmente durante a pandemia e nas eleições de 2022.
Entre as figuras centrais do documentário está o pastor Silas Malafaia, citado como articulador de apoio ao ex-presidente. A narrativa sugere uma ligação entre o crescimento evangélico e a mobilização popular que culminou nos protestos e atos de vandalismo registrados em janeiro de 2023.
A produção foi viabilizada com apoio de diversas entidades culturais e, em particular, do Instituto Peri, braço da produtora Peri Productions. Fundado em 2024, o instituto recebeu os recursos da Open Society para atuar na etapa final do projeto. A organização tem como missão promover obras que provoquem reflexões sobre valores culturais e crenças sociais.
Alessandra Orofino, fundadora do Instituto Peri, está à frente do projeto. Com trajetória ligada a movimentos progressistas e conhecida por sua atuação no coletivo NOSSAS e como colaboradora do programa Greg News, Orofino também participou do grupo de transição do governo Lula na área de comunicação.
A Open Society, por sua vez, é uma das maiores fundações filantrópicas do mundo, com atuação em mais de 120 países e histórico de financiamento a projetos voltados à democracia, direitos humanos e minorias. No entanto, seus investimentos frequentemente geram críticas por suposta interferência política, sendo alvo de restrições em países como Hungria, Rússia e Turquia.
A controvérsia sobre Apocalipse nos Trópicos reacende o debate sobre os limites da liberdade de expressão, intolerância religiosa e o papel da fé na esfera pública.

Foto: Reprodução
O que diz a lei sobre intolerância religiosa e democracia no Brasil
A Constituição Federal de 1988 assegura em seu Art. 5º, inciso VI, a liberdade de consciência e de crença, garantindo o livre exercício dos cultos religiosos e a proteção aos locais de culto e suas liturgias. Também proíbe qualquer forma de discriminação motivada por religião.
Além disso, a Lei nº 7.716/1989, conhecida como Lei Caó, define como crime a prática, indução ou incitação à discriminação ou preconceito por motivo de religião, punível com pena de reclusão.
A intolerância religiosa ocorre quando há ataque, ofensa ou marginalização de um grupo por sua crença. Representações que generalizam negativamente um grupo religioso, associando-o sistematicamente à violência ou extremismo, podem ser interpretadas como práticas que ferem o princípio da convivência democrática e do pluralismo religioso, pilares de uma sociedade livre.
A democracia exige o respeito às diferenças e o reconhecimento da diversidade de pensamentos, culturas e fés. Produções culturais e audiovisuais têm liberdade de expressão, mas devem zelar para não promover discursos de ódio ou estigmatização. O equilíbrio entre crítica social e respeito à fé é essencial para um debate democrático saudável.

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