
A ativista Greta Thunberg em Estocolmo, em 2024 – Foto: Kushal Das/Wikimedia Commons
Greta Thunberg já foi símbolo de esperança para uma geração. Reconhecida globalmente como um dos principais nomes da luta contra as mudanças climáticas, a jovem sueca de fala firme e olhar determinado encantou líderes, inspirou milhões de jovens e foi homenageada pela mídia global. Mas esse status mudou radicalmente.
Hoje, aos 22 anos, Thunberg se tornou uma figura incômoda para a elite política e para a imprensa tradicional. O que causou essa reviravolta? Segundo especialistas e dados analisados pelo portal MintPress News, o motivo está em sua guinada de ativismo: do foco ambiental para um enfrentamento mais amplo do sistema político e econômico global, incluindo críticas diretas ao capitalismo, ao imperialismo e à política israelense na Palestina.
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O silêncio da mídia: de protagonista a ignorada
De acordo com o levantamento, entre 2019 e 2025, a cobertura sobre Thunberg em jornais como The New York Times e The Washington Post caiu de centenas de reportagens anuais para apenas três ou quatro menções por ano — muitas vezes, apenas de forma secundária.
Essa queda não se explica por perda de relevância. Pelo contrário: Greta segue atuante, agora engajada em causas humanitárias, sindicais e na denúncia da violência contra o povo palestino. Mas ao cruzar fronteiras temáticas e adotar uma postura antissistêmica, deixou de ser conveniente aos interesses do mainstream.
De menina prodígio à dissidente global
Greta Thunberg ganhou notoriedade em 2018, quando, aos 15 anos, começou a protestar sozinha em frente ao Parlamento da Suécia com um cartaz: Skolstrejk för klimatet (“Greve escolar pelo clima”). O gesto solitário deu origem ao movimento global Fridays For Future, que mobilizou milhões de jovens em centenas de países.
O ápice da fama veio em 2019, quando discursou na ONU com a icônica frase: “How dare you?” (“Como vocês ousam?”). Recebeu prêmios, foi capa da Time, e até políticos conservadores tentaram associar sua imagem à de um futuro mais verde. Era considerada uma voz pura da juventude.
Mas Greta recusou-se a ser mascote. Em vez de recuar, endureceu suas posições e ampliou suas bandeiras.
A jornada de Greta Thunberg

Greta Thunberg, aos 15 anos, protestando em frente ao Parlamento da Suécia com o cartaz: ‘Greve das escolas pelo clima’ — Foto: TT News Agency/Hanna Franzen via Reuters/Arquivo
2018 – O início da greve escolar
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Aos 15 anos, começa a protestar sozinha por ações contra a mudança climática. Rapidamente inspira movimentos globais e passa a ser ouvida por chefes de Estado.
2019 – Consagração internacional
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Discursa na ONU e no Parlamento Europeu; recebe prêmios e homenagens, é nomeada “Pessoa do Ano” pela Time. É celebrada como a jovem que mudou a pauta ambiental global.
2021 – Primeiras críticas políticas
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Usa suas redes sociais para denunciar crimes de guerra cometidos por Israel em Gaza e expressa solidariedade ao povo palestino. Começa a perder apoio midiático.
2022 – Crítica direta ao sistema
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Afirma que o capitalismo global é a raiz do colapso ambiental e que o sistema atual é construído sobre exploração e colonialismo. Chama as conferências climáticas da ONU de “teatro inútil”.
2023 – Apoio a greves de trabalhadores
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Visita fábricas ocupadas por grevistas na Itália. Defende que “a luta contra o fim do mundo é a mesma dos que lutam para chegar ao fim do mês”.
2024 – Prisão por protesto contra Israel
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É detida ao protestar contra a participação de Israel no Festival Eurovision. Intensifica denúncias sobre Gaza, chamando a ofensiva israelense de “genocídio”.
2025 – Missão humanitária a Gaza
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Embarca no navio Madleen rumo a Gaza com suprimentos. A missão é interceptada por Israel. A mídia internacional ignora o feito; a crítica conservadora a ridiculariza.

A ativista sueca Greta Thunberg bloqueia partes de um terminal de petróleo no sul da Noruega em 24.ago.2024 – Foto: Jan Kare Ness – /NTB via Reuters
Uma ativista que se recusa a se calar
Greta não suavizou o tom. Em 2022, durante um discurso na Alemanha, afirmou:
“O que chamamos de normal é um sistema extremo baseado na exploração. Justiça climática sem justiça social é impossível. A luta ambiental é uma luta de classes, de povos e de territórios.”
Suas declarações passaram a incomodar não apenas setores conservadores — que sempre a criticaram — mas também liberais que antes a reverenciavam. Revistas como Forbes e Der Spiegel, que já a premiaram, agora a acusam de “divisiva” ou até “antissemita”.

Israel expulsa Greta Thunberg depois de interceptar barco que seguia para Gaza – Foto: Reprodução
A lógica da deslegitimação
A estratégia de marginalizar figuras que saem do roteiro esperado não é nova. Jill Stein, ex-candidata à presidência dos EUA pelo Partido Verde, comenta:
“Isso acontece com qualquer um que desafia o sistema de dentro. Quando Greta começou a denunciar a hipocrisia das elites, virou um alvo. Ser ignorado pela mídia é, muitas vezes, sinal de integridade.”
O advogado canadense Dimitri Lascaris vai além:
“Muitos ambientalistas que idolatravam Greta agora estão em silêncio. Mas justiça ambiental e direitos humanos são inseparáveis. Quem abandona Greta agora nunca foi verdadeiramente ambientalista.”
Uma missão bloqueada — e esquecida
Em junho deste ano, Greta foi uma das figuras públicas a bordo do navio Madleen, que partiu da Sicília com destino a Gaza. A embarcação carregava suprimentos básicos e tinha valor simbólico: romper o bloqueio de Israel à Faixa de Gaza.
Apesar da importância do gesto, a viagem foi ignorada por veículos como o New York Times e criticada por colunistas de direita. O senador norte-americano Lindsey Graham chegou a sugerir que os tripulantes deveriam “saber nadar”.
Greta respondeu em tom direto:
“Nossos governos e nossa mídia participam desse massacre. É com o dinheiro dos nossos impostos e com a desumanização promovida diariamente que esse genocídio se sustenta.”
Entre a integridade e o ostracismo
Greta Thunberg poderia ter seguido uma trajetória confortável, limitada à pauta ambiental, com apoio institucional e fama. Escolheu o caminho oposto: o de questionar o sistema, denunciar injustiças, arriscar sua liberdade — e, por isso, foi silenciosamente “apagada” do noticiário.
Mas ela continua. Em suas palavras:
“Estamos lutando por justiça, sustentabilidade e libertação para todos. Não há planeta viável sem dignidade humana.”
