Brasil

Amazônia

Abelhas da Amazônia: Guardiãs invisíveis da floresta e da vida no planeta

Polinizadoras vitais para a biodiversidade e a segurança alimentar global, as abelhas enfrentam ameaças crescentes. Proteger esses insetos é essencial para o equilíbrio climático, a cultura tradicional e a produção de alimentos.


Abelha mamangava polinizando a castanheira-do-brasil – Foto: Ronaldo Rosa

As abelhas têm um papel essencial na manutenção dos ecossistemas em todo o mundo — mas na Amazônia, sua importância é ainda mais profunda. Maior bioma tropical do planeta, a floresta abriga centenas de espécies de abelhas, muitas delas únicas e nativas, como as sem ferrão (meliponíneos). Além de garantir a polinização de uma vasta diversidade de plantas, essas abelhas são fundamentais para a regeneração natural da floresta e para a estabilidade dos ciclos de carbono e da água — elementos-chave no combate às mudanças climáticas.

Mais do que ecossistemas, as abelhas amazônicas sustentam modos de vida. A meliponicultura — criação de abelhas sem ferrão — é uma prática tradicional entre povos indígenas e ribeirinhos. O mel produzido, raro e aromático, é usado na alimentação, medicina natural e possui crescente valor econômico por seu modo sustentável de produção.

Continua depois da Publicidade

Porém, até mesmo a exuberante Amazônia não está imune às ameaças. Desmatamento, garimpo ilegal, queimadas e espécies invasoras colocam em risco a sobrevivência desses polinizadores. A abelha africanizada, por exemplo, pode competir com espécies nativas e propagar doenças. A perda desses insetos compromete não só a biodiversidade, mas também a segurança alimentar e cultural de populações locais.

Globalmente, o cenário é alarmante. Estima-se que 75% das culturas agrícolas do mundo dependem da polinização por insetos — e as abelhas são as mais eficientes. Sua extinção significaria uma queda drástica na produção de frutas, vegetais e nozes, afetando diretamente a economia e a alimentação mundial.

Diante dessa crise, organizações internacionais como a FAO têm alertado sobre a urgência de proteger os polinizadores. Entre as soluções, estão a apicultura sustentável, corredores ecológicos, controle do uso de pesticidas e práticas agrícolas mais equilibradas.

Proteger as abelhas é fundamental para a vida humana – Foto: Reprodução

Depoimentos de especialistas reforçam o alerta

Gislene Zilse, coordenadora do Grupo de Pesquisas em Abelhas do INPA, afirma que:

“A abelha está no início da cadeia fazendo todo o serviço de polinização que permite a reprodução das plantas das quais dependemos para a nossa alimentação”.
Ela ainda ressalta que cerca de 87 das principais plantações globais dependem diretamente das abelhas para produzir alimentos.

O biólogo Rodrigo Barbosa Gonçalves (UFPR), autor do livro Desvendando as abelhas, enfatiza que:

“São milhares de espécies que não podem ser criadas para mel, mas mantêm um papel silencioso na polinização das plantas”.
Ele alerta que as abelhas nativas sofrem impactos severos por fragmentação, pesticidas e mudanças climáticas.

Segundo Márcio de Freitas, do IHU, os neonicotinoides têm causado efeitos crônicos nas abelhas, desorientando-as e levando ao chamado “colapso da colmeia”. Ele destaca especial preocupação com as espécies nativas, mais vulneráveis aos modelos agrícolas intensivos.

Márcia Maués, da Embrapa Amazônia Oriental, realça que certas culturas típicas da região, como a castanha-do-Brasil, dependem inteiramente das abelhas para reprodução. Por isso, políticas públicas que valorizem e protejam esses polinizadores são decisivas para a segurança alimentar e a renda dos produtores no Brasil.

O mel combina com os mais diferentes tipos de alimentos. Apesar de ser muito saudável, o produto possui glicose e frutose (dois tipos de açúcar), e por isso deve ser evitado por quem tem diabetes – Foto: Reprodução

A urgência da conservação

Dados recentes indicam que mais de 500 milhões de abelhas morreram no Brasil na última década, sobretudo por causa do uso de agrotóxicos como neonicotinóides e fipronil.
Conforme declara a porta-voz do Greenpeace Brasil, Marina Lacorte, “esses insetos oferecem um serviço de valor inestimável para o planeta: a polinização”.

André Sezerino, engenheiro agrônomo da Epagri, reforça que “mais de 70% de todos os alimentos que consumimos dependem da polinização das abelhas”.
Ele também observa que, embora muitos associem as abelhas ao mel, o serviço mais relevante delas é a polinização das plantas.

Stefânia Hofmann, meliponicultora, lembra um grande desastre ambiental ocorrido em 2019: um uso intenso de agrotóxicos matou meio bilhão de abelhas no Brasil. “As abelhas estão morrendo e sem elas não tem alimento” — alerta ela, defendendo a reconexão entre as pessoas e a biodiversidade silvestre Notíci.

Impactos e soluções urgentes

A extinção desses polinizadores comprometeria não apenas a biodiversidade, mas também a segurança alimentar global: estimativas globais apontam que até 75% das culturas dependem da polinização por insetos, sendo as abelhas as mais eficientes.

Organizações como a FAO e a IPBES da ONU têm reforçado a urgência em proteger os polinizadores. Entre as sugestões estão a apicultura sustentável (inclusive a meliponicultura), corredores ecológicos, controle rigoroso de pesticidas, formação de profissionais especializados e políticas públicas inclusivas.

Conservar abelhas é preservar a vida. Desde garantir alimentos nutritivos até manter culturas tradicionais e salvar florestas, esses pequenos insetos carregam um legado gigante. E sem eles, o futuro do planeta fica comprometido.