
Foto: Jehad Alshrafi/AP
Uma proposta obtida pela Reuters com exclusividade descreve um ambicioso plano para a criação de grandes campos temporários destinados a abrigar a população palestina da Faixa de Gaza. O projeto, denominado “Áreas de Trânsito Humanitário” (HTAs, na sigla em inglês), está associado à Fundação Humanitária de Gaza (GHF), uma entidade apoiada pelos Estados Unidos, embora a organização negue formalmente sua autoria.
O documento — que circula desde fevereiro e inclui o nome da GHF e da empresa de logística SRS — detalha um orçamento de US$ 2 bilhões para construir acampamentos em larga escala tanto dentro quanto possivelmente fora de Gaza, como parte de um esforço para “substituir o controle do Hamas sobre a população”.
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Apesar da proposta mencionar que a realocação seria voluntária, especialistas humanitários ouvidos pela Reuters expressaram preocupação, destacando que, em contextos de conflito intenso e privação extrema, não há como considerar esse deslocamento verdadeiramente opcional.

Fotos: Reprodução
Desradicalização e reconstrução
Segundo o material analisado, os campos serviriam para “desradicalizar, reintegrar e preparar” os palestinos para uma eventual realocação. Um slide menciona que cada acampamento poderia abrigar centenas de milhares de pessoas e incluir infraestrutura básica como banheiros, lavanderias e escolas.
A iniciativa seria uma nova fase das operações da GHF, que desde maio distribui alimentos em Gaza com apoio logístico do exército israelense e empresas de segurança privadas. A fundação é vista como alternativa ao sistema humanitário coordenado pela ONU, acusado por Israel de permitir desvio de recursos por militantes. O Hamas nega tais alegações e acusa Tel Aviv de usar a fome como arma de guerra.
Negativas oficiais e impasses
Apesar de os slides conterem logotipos da GHF e da SRS, as organizações negam ter apresentado formalmente o plano. A GHF afirmou que estuda “opções teóricas” para a entrega de ajuda, mas que não está envolvida com a construção de campos. Já a SRS declarou nunca ter discutido a ideia.
Um alto funcionário do governo dos EUA também negou qualquer envolvimento atual com a proposta: “Nada parecido está sendo considerado. Nenhum recurso foi alocado para esse fim”.
Mesmo assim, o documento foi, segundo fontes, apresentado à Embaixada dos EUA em Jerusalém e discutido na Casa Branca. A proposta incluiria, inclusive, possíveis locais para os campos fora de Gaza, como Egito e Chipre, mas não especifica como seria feito o deslocamento da população.
Críticas internacionais
Organizações internacionais e especialistas criticam duramente o plano. “Não existe deslocamento voluntário sob bombardeio constante e fome”, afirmou Jeremy Konyndyk, presidente da Refugees International e ex-funcionário da USAID.
A ONU já classificou as operações da GHF como “inerentemente inseguras”, apontando violações de princípios humanitários e registrando centenas de mortes em torno de seus pontos de distribuição de ajuda.
Contexto do conflito
A crise atual remonta ao ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, que matou cerca de 1.200 israelenses e levou ao sequestro de 251 pessoas. Desde então, a ofensiva militar israelense deixou mais de 57 mil palestinos mortos, segundo o Ministério da Saúde de Gaza, além de ter provocado uma crise de fome e o deslocamento interno de praticamente toda a população do enclave.
Enquanto isso, propostas como esta aumentam os receios de uma tentativa sistemática de esvaziar Gaza sob o pretexto de assistência humanitária.
