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Crianças conectadas: o uso precoce de celulares e o espelho do vício dos pais

Especialistas alertam para os riscos do uso excessivo de telas por crianças, enquanto pais também enfrentam dificuldades em desconectar-se do mundo digital para dar atenção a seus filhos.


Em uma praça de um bairro movimentado, crianças brincam, correm, gritam — mas, em um dos bancos, duas delas estão lado a lado, imersas em jogos no celular. A cena é cada vez mais comum e levanta um alerta: o uso precoce e excessivo de smartphones entre crianças.

Foto: Reprodução

Segundo uma pesquisa recente da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), crianças entre 5 e 10 anos passam, em média, mais de 4 horas por dia em frente às telas. O tempo, que deveria ser dedicado a brincadeiras físicas, leitura ou interações sociais presenciais, muitas vezes é consumido por vídeos no YouTube, redes sociais e jogos online.

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A infância em transformação

“A infância está sendo digitalizada”, afirma a psicóloga infantil Renata Alvim. “Isso não significa que a tecnologia é vilã, mas que seu uso descontrolado pode afetar o desenvolvimento emocional, social e até neurológico das crianças”. Segundo ela, problemas como ansiedade, dificuldade de concentração e distúrbios do sono são cada vez mais diagnosticados em crianças que passam tempo excessivo conectadas.

Além dos impactos cognitivos e emocionais, há também questões relacionadas à segurança digital. A exposição precoce a conteúdos impróprios e a dependência de validação por curtidas e comentários também são preocupações crescentes.

Foto: Altemar Alcântara/Semcom

O espelho dos pais

Por trás do comportamento infantil, muitas vezes está o exemplo dos adultos. “A criança imita o que vê. Se os pais passam o tempo todo no celular, em vez de interagir com os filhos, eles entendem que isso é o normal”, explica Renata.

Em um paradoxo cada vez mais evidente, pais que reclamam da dependência digital dos filhos frequentemente são também usuários compulsivos de smartphones. Em casa, à mesa, no parque ou no consultório médico, é comum ver adultos completamente absorvidos por telas — respondendo mensagens, assistindo vídeos, rolando redes sociais — ao invés de aproveitar a presença e o tempo com os filhos.

Tecnologia com equilíbrio

Para especialistas, o caminho não é a proibição total, mas o uso consciente e equilibrado da tecnologia. Estabelecer limites de tempo de tela, escolher conteúdos apropriados e, principalmente, participar ativamente da vida digital dos filhos são atitudes recomendadas.

“A tecnologia deve ser uma ferramenta, não uma babá digital”, afirma o educador Paulo Miranda. Ele sugere que os pais pratiquem também o “desconectar para conectar”, reservando momentos em que os celulares ficam de lado para dar lugar à conversa, à brincadeira e ao vínculo familiar.

O medo dos pais pela falta de segurança pública é real, mas as cidades normalmente já não são pensadas para crianças – Foto: Reprodução

Em um mundo cada vez mais conectado, o desafio não é evitar a tecnologia, mas humanizar seu uso. O olhar atento e o exemplo dos pais são essenciais para ensinar às crianças que, apesar das maravilhas digitais, nada substitui a presença real, o toque, o afeto e o tempo compartilhado longe das telas.