Amazonas

Crise climática

Botos ameaçados pela seca histórica no Amazonas

Seca severa agrava risco de extinção e expõe animais a maior vulnerabilidade e conflitos humanos.


A seca histórica nos rios amazônicos em 2024 intensificou os desafios para a fauna aquática, incluindo o boto-cor-de-rosa e o tucuxi, espécies ameaçadas de extinção. Apesar dos esforços de monitoramento e prevenção, carcaças de mamíferos aquáticos continuam sendo encontradas, muitas vezes com sinais de interação humana, como pesca e caça.

No Lago Tefé, epicentro da crise, o nível das águas caiu drasticamente, atingindo apenas 4,54 metros, 13,5 metros abaixo do início da estiagem. Em 2023, o superaquecimento da água a 40 ºC causou a morte de 209 golfinhos de rio, mas, neste ano, a maior ameaça veio do aumento das interações negativas com humanos, que resultaram em 14 mortes documentadas de botos e peixes-boi.

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Pesquisadores atribuem a redução de mortes por superaquecimento à menor incidência de radiação solar e maior nebulosidade em 2024. Contudo, a vulnerabilidade dos animais cresceu, já que o baixo volume de água os expõe a pescadores e caçadores. Em Coari, por exemplo, 37 carcaças de animais foram registradas pela organização Sea Shepherd, a maioria com marcas de redes de pesca e golpes de faca.

A intensificação dos conflitos entre botos e pescadores tem agravado a situação. Os pescadores relatam prejuízos causados pelos botos que rompem redes para comer os peixes capturados. “Se pudesse, matávamos todos eles”, disse um pescador, ilustrando a tensão. Apesar disso, iniciativas como dispositivos sonoros para afastar os botos das redes têm mostrado resultados promissores, embora ainda enfrentem resistência e custos elevados.

A seca afeta não apenas a fauna, mas também comunidades ribeirinhas. Carlos Magno, morador de um flutuante no Lago Tefé, diz que nunca viu o nível da água tão baixo. Sem condições de navegação, ele está há dois meses sem trabalho como mecânico de barcos, o que o faz considerar mudar-se para terra firme.

Especialistas alertam para a intensificação dos eventos climáticos extremos na Amazônia, com secas e cheias cada vez mais severas. Miriam Marmontel, do Instituto Mamirauá, afirma que a estiagem de 2024 começou com déficit hídrico devido à baixa recuperação dos níveis dos rios no último ano. O impacto para as populações de botos, com taxas de reposição anuais de apenas 5%, é alarmante.

Iniciativas como a Emergência Fauna Aquática 2024, liderada pelo ICMBio, buscam mitigar as consequências da crise hídrica, monitorando os animais e as condições dos lagos. No entanto, a recuperação dos ecossistemas e a convivência harmoniosa entre humanos e a fauna dependem de esforços integrados e de longo prazo.

Além dos conflitos, mitos culturais sobre os botos ainda alimentam preconceitos e práticas hostis. Apesar de avanços no combate à caça ilegal, a necessidade de promover educação ambiental e desenvolver tecnologias acessíveis continua sendo crucial para a conservação das espécies.

Com a previsão de estiagem prolongada até dezembro, o cenário exige atenção redobrada. “Se os eventos extremos não forem mitigados, a extinção dessas espécies se tornará uma realidade iminente”, alerta o pesquisador Ayan Fleischmann. A seca histórica de 2024, mais severa que a de 2023, deixa um alerta urgente sobre o impacto das mudanças climáticas na Amazônia.

Com informações do site mongabay