
Somado ao tarifaço de 50%, Trump determinou a abertura imediata de uma “investigação da Seção 301 sobre o Brasil” – Foto: Al Drago/EFE/EPA/POOL
Desde a campanha presidencial norte-americana, quando o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva se posicionou abertamente contra Donald Trump e chegou a manifestar apoio a Kamala Harris, o governo brasileiro tem acumulado uma sequência de erros estratégicos na relação com os Estados Unidos. Esse histórico, que começou com interferências indevidas em assuntos eleitorais de outra nação, evoluiu para tensões comerciais e agora culmina em uma investigação formal conduzida pela Casa Branca, com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA.
No documento enviado recentemente a Lula, Trump não apenas anunciou um tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros, mas também determinou a abertura imediata da investigação da Seção 301 — um instrumento legal que permite aos EUA apurarem práticas comerciais que considerem desleais ou prejudiciais ao seu mercado. O gesto marca uma escalada nas represálias e reflete o acúmulo de desgastes na relação bilateral.
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A deterioração do diálogo teve raízes claras. Durante a campanha americana, Lula não apenas fez críticas contundentes a Trump, como também se envolveu ativamente na tentativa de influenciar o eleitorado americano, algo inédito para um presidente brasileiro. A postura foi recebida como ofensiva e teve consequências: até hoje, o governo Trump não designou um embaixador para o Brasil, demonstrando desprezo institucional pela atual gestão brasileira.

“Trump seria o nazismo com outra cara”, disse Lula durante campanha americana – Foto: Reprodução
Com a volta de Trump à Casa Branca, esse histórico de desavenças virou munição política. A carta enviada à presidência brasileira foi direta ao acusar o STF de impor “ordens de censura secretas e ilegais” contra empresas americanas de tecnologia, alegando violações à liberdade de expressão e ameaças econômicas. Essa crítica explícita ao Judiciário brasileiro, somada às decisões recentes do governo Lula no âmbito do BRICS — como o apoio à desdolarização do comércio —, são vistas por Washington como posicionamentos hostis.
Segundo o economista e PhD em Relações Internacionais Igor Lucena, o uso da Seção 301 pode ir além da imposição de tarifas: “É um instrumento de pressão política e econômica. Pode incluir sanções a setores inteiros, e em casos extremos, até a exclusão de produtos brasileiros do mercado americano”, explica. Ele ainda aponta que, embora a Seção 301 atinja nações, outras legislações como a Lei Magnitsky podem ser combinadas para aplicar sanções a indivíduos — o que ele não descarta, dada a crescente animosidade entre os países.
O resultado dessa sucessão de desacertos é o atual isolamento diplomático e comercial do Brasil diante de seu maior parceiro econômico do hemisfério. Sem um embaixador dos EUA em Brasília e com tarifas punitivas em vigor, o Brasil enfrenta agora uma retaliação de impacto imprevisível — plantada, em grande parte, pela condução ideológica e confrontacional da política externa brasileira desde o início do atual mandato.
Lula interferiu abertamente na campanha americana

Foto: Reprodução (Folha de S. Paulo)
“Acho que Kamala ganhando as eleições, é muito mais seguro para a gente fortalecer a democracia dos Estados Unidos. Muito mais seguro. Nós vimos o que foi o presidente Trump no final do mandato, fazendo aquele ataque contra o Capitólio, uma coisa impensável de acontecer nos EUA, que se apresentava ao mundo como modelo de democracia. E esse modelo ruiu”, disse, em entrevista à TV francesa, TF1.
“Agora temos o ódio destilado todo santo dia, as mentiras, não apenas nos EUA, na Europa, na América Latina, vários países do mundo. É o fascismo e o nazismo voltando a funcionar com outra cara. Como sou amante da democracia, acho coisa mais sagrada que nós humanos conseguimos construir para bem governar o nosso país, obviamente estou torcendo para Kamala ganhar as eleições”, completou Lula à época.

Kamala Harris e Luiz Inácio Lula da Silva em montagem feita pelo g1 — Foto: Hannah McKay/Reuters e TON MOLINA/FOTOARENA/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO
