
MPF processou Renan Santos por discurso de ódio contra indígenas – Foto: Vinícius Schmidt/Metrópoles
Renan Santos construiu sua candidatura à Presidência da República em 2026 sobre uma fórmula conhecida: discurso duro, ataques aos adversários e a promessa de enfrentar aquilo que chama de privilégios e ineficiências do Estado. Entre os alvos está a Zona Franca de Manaus (ZFM), modelo que o candidato e seu grupo político classificam como um dos principais exemplos de gasto tributário que deveria ser revisto.
A crítica não é nova. Em entrevista à Folha, Kim Kataguiri, coordenador econômico da campanha de Renan, afirmou que a Zona Franca estaria “longe do insumo, longe do mercado consumidor” e teria infraestrutura precária. A proposta apresentada é acabar com o modelo de incentivos, embora com uma transição para evitar um choque imediato sobre os empregos existentes.
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Renan também defende que Manaus deveria abandonar parte do perfil industrial atual e apostar em atividades como biotecnologia e biomedicina. A crítica central do candidato é que o país estaria concedendo benefícios fiscais para produzir, em Manaus, bens que poderiam ser fabricados em regiões mais próximas dos fornecedores e consumidores.
O problema é que, quando a discussão deixa o palanque e entra nos números, a realidade se torna bem menos simples.
Afinal, o que é a Zona Franca de Manaus?
A Zona Franca de Manaus não é simplesmente uma “isenção de impostos para empresas”.
Criada originalmente pelo Decreto-Lei nº 288, de 1967, a ZFM é um modelo de desenvolvimento regional que utiliza incentivos fiscais para estimular a instalação de atividades econômicas na Amazônia. A administração do modelo cabe à Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), autarquia federal vinculada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
O próprio governo federal define a ZFM como uma área de livre comércio com incentivos fiscais especiais, criada com objetivos de desenvolvimento econômico e social, integração regional e ocupação produtiva da Amazônia.
Ao longo das décadas, o modelo deixou de ser apenas uma área de comércio e passou a abrigar um complexo industrial diversificado. O Polo Industrial de Manaus reúne cerca de 600 indústrias em segmentos como eletroeletrônicos, bens de informática, duas rodas, mecânico, metalúrgico, termoplásticos e outros.
Em 2025, segundo dados divulgados pela Suframa, o parque industrial incentivado registrou faturamento de R$ 227,67 bilhões e gerou mais de meio milhão de empregos diretos e indiretos.
Isso não significa que a ZFM seja imune a críticas.
O argumento de Renan tem um ponto — mas não conta toda a história
Existe, de fato, uma discussão econômica legítima sobre o custo dos incentivos fiscais e sobre a eficiência do modelo.
Um estudo publicado pelo Ipea, analisando dados de 2002 a 2014, encontrou efeitos positivos principalmente sobre população e emprego, mas não identificou impacto positivo equivalente sobre PIB, renda, valor agregado bruto e arrecadação tributária do Amazonas.
Esse tipo de evidência alimenta o argumento de quem defende uma revisão do modelo.
Mas transformar essa conclusão em “a Zona Franca não funciona” é outra coisa.
A própria avaliação oficial do governo descreve a ZFM como uma política de desenvolvimento regional voltada à atração de indústrias e à integração da Amazônia ao restante do país.
Além disso, o modelo possui contrapartidas e não funciona simplesmente como um cheque em branco para empresas. Projetos industriais precisam ser aprovados dentro das regras da Suframa e estão sujeitos a diferentes exigências para usufruir dos benefícios. Entre os mecanismos existentes estão incentivos relacionados ao Imposto de Importação, IPI, PIS/Cofins e outros tributos, conforme o tipo de operação e o projeto aprovado.
A discussão, portanto, é sobre quanto o país concede, quanto recebe de volta e quais alternativas seriam capazes de produzir os mesmos efeitos econômicos e ambientais — e não simplesmente sobre a existência ou não de incentivos.
O discurso de ruptura
É justamente nesse ponto que o discurso de Renan Santos encontra sua maior fragilidade.
O candidato se apresenta como alguém disposto a cortar privilégios sem olhar para grupos de interesse. No caso da Zona Franca, promete acabar com o modelo, embora reconheça que uma mudança abrupta provocaria consequências sobre os empregos e defenda uma transição.
A própria campanha admite, portanto, que existe uma estrutura econômica concreta que não pode ser simplesmente desligada de um dia para o outro.
Em agosto de 2026, por exemplo, o Conselho de Administração da Suframa aprovou 25 projetos industriais e de serviços que estimavam R$ 335,3 milhões em investimentos e a criação de 859 empregos em até três anos.
O debate pode — e deve — incluir produtividade, logística, dependência de incentivos, inovação, diversificação econômica e retorno dos benefícios fiscais. O que não cabe é tratar uma economia industrial desse tamanho como se fosse apenas uma linha de despesa no orçamento federal.
Quem aponta o dedo também precisa olhar para trás
A retórica de Renan Santos é construída em torno da cobrança de coerência dos outros. O candidato critica Lula, Flávio Bolsonaro, o sistema político e aquilo que considera privilégios. Mas sua própria trajetória também possui episódios que precisam ser lembrados quando ele se apresenta como uma espécie de outsider sem passado político relevante.
Renan foi um dos fundadores e principais dirigentes do Movimento Brasil Livre (MBL), ganhou projeção nacional nas manifestações de 2013 e na campanha pelo impeachment de Dilma Rousseff e participou das campanhas que elegeram Kim Kataguiri e Arthur do Val em 2018.
O MBL, portanto, não é uma experiência distante da política institucional. Ao contrário: Renan participou diretamente da construção de uma geração de políticos e da estratégia eleitoral que colocou aliados no Congresso e na Assembleia Legislativa de São Paulo.
Também existem registros judiciais e investigações que fazem parte da trajetória pública do candidato e que não podem ser simplesmente apagados quando ele se apresenta como fiscal da moralidade alheia.
Em 2016, o UOL informou que Renan respondia a ações cíveis e trabalhistas relacionadas a empresas das quais era sócio, envolvendo cobranças e acusações que ele negava.
Em 2017, ele foi condenado em segunda instância pelo Tribunal de Justiça de São Paulo a pagar indenização por danos morais ao jornalista José Roberto Burnier em razão de uma montagem publicada na internet. A decisão ainda admitia recurso à época.
Em 2022, reportagem do Estadão informou que o Ministério Público investigava Renan no contexto da Operação Juno Moneta, que apurava suspeitas de lavagem de dinheiro. A acusação de tráfico de influência mencionada na investigação havia sido rejeitada pela Justiça; a defesa sustentou que não havia irregularidades e que os esclarecimentos haviam sido prestados.
Mais recentemente, em setembro de 2026, a Justiça Federal manteve Renan como responsável por dívidas tributárias relacionadas à Martin Artefatos de Metal S.A., empresa da qual ele foi sócio e diretor. Segundo a reportagem da Folha, Renan afirma que não era proprietário da companhia quando os débitos foram constituídos.
Também em 2026, uma decisão da Justiça Federal determinou a retirada de vídeos publicados por Renan e pelo MBL após ação do Ministério Público Federal que apontou discurso de ódio e discriminação contra indígenas do Baixo Tapajós. O MPF pediu ainda indenização por danos morais coletivos.
São episódios de naturezas diferentes — e não devem ser tratados como se fossem equivalentes a condenações criminais. Mas fazem parte do histórico público de alguém que construiu sua candidatura justamente sobre a ideia de cobrar dos demais uma postura mais rigorosa.
O paradoxo
O paradoxo da candidatura de Renan Santos está justamente aí.
Ele tenta ocupar o espaço de quem chegou à política para dizer aquilo que os políticos tradicionais não dizem. Seu discurso contra Lula e contra o bolsonarismo é agressivo; suas propostas econômicas prometem cortes profundos; e sua campanha aposta na confrontação como instrumento para conquistar um eleitorado cansado da polarização tradicional.
Mas a Zona Franca de Manaus mostra como slogans encontram limites quando confrontados com a realidade.
É perfeitamente legítimo questionar o custo dos incentivos. É legítimo defender uma mudança de modelo. É legítimo discutir se Manaus poderia desenvolver setores de maior valor agregado, como biotecnologia e bioeconomia.
O que não é suficiente é apontar para a ZFM e resumir décadas de política industrial, milhares de empresas, centenas de milhares de postos de trabalho e uma cadeia produtiva inteira a uma simples frase sobre “privilégios”.
Da mesma forma, quem construiu a própria carreira política acusando adversários de falta de coerência precisa aceitar que seu passado também seja colocado sob escrutínio.
Renan Santos quer fazer da política uma guerra contra os privilégios dos outros. A Zona Franca de Manaus, porém, expõe a dificuldade de transformar discurso duro em política pública concreta. E o próprio passado do candidato mostra que ninguém entra nessa disputa carregando uma ficha em branco.
Fontes:
- C-Level
- CNN Brasil
- Serviços e Informações do Brasil
- Repositório IPEA
- Folha de S.Paulo
- Agência Brasil
- UOL Notícias
