
O presidente Donald Trump durante conversa com Lula na Malásia, no ano passado – Evelyn Hockstein/Reuters
O governo brasileiro acompanha com cautela a proposta do ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump de criação de um chamado “Conselho de Paz” e indica que a tendência é rejeitar o convite para integrar o colegiado. A avaliação, segundo integrantes do Palácio do Planalto e do Itamaraty, é de que o modelo apresentado concentra poder excessivo nas mãos do líder norte-americano e pode colidir com os princípios do multilateralismo defendidos pelo Brasil.
Entre os pontos considerados mais sensíveis está a falta de menção explícita à Faixa de Gaza, apesar de a iniciativa ter sido apresentada sob o argumento de monitorar conflitos no Oriente Médio. O texto faz referência genérica a “áreas afetadas ou ameaçadas por conflitos”, sem delimitar claramente o escopo de atuação do conselho.
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Outro fator que causa desconforto é a estrutura decisória do órgão. Embora os países-membros possam sugerir alterações, qualquer mudança dependeria da aprovação do presidente dos Estados Unidos, além de um poder de veto reservado a Washington, o que, na avaliação brasileira, compromete a autonomia coletiva do grupo.
A posição mais inclinada à recusa foi externada publicamente pelo assessor especial da Presidência, Celso Amorim, e confirmada por auxiliares do governo. Interlocutores afirmam que, caso Gaza estivesse claramente incluída no documento, haveria maior estímulo para a adesão do Brasil — hipótese que não se concretizou.
Durante evento em Salvador, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou duramente a proposta e afirmou que Trump estaria tentando criar uma espécie de “nova ONU”, paralela à Organização das Nações Unidas. Para o governo brasileiro, essa sobreposição representa um risco ao sistema internacional construído no pós-guerra.
Desde que recebeu o convite, Lula intensificou conversas com líderes internacionais, como Xi Jinping, Narendra Modi e Recep Tayyip Erdogan, além do presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas. O objetivo, segundo o Planalto, é trocar impressões sobre o cenário global e a preservação do multilateralismo, e não articular uma resposta conjunta.
Auxiliares do presidente afirmam que eventuais retaliações dos Estados Unidos não estão no centro das preocupações. A estratégia segue sendo observar a reação dos demais países convidados e aprofundar análises jurídicas e diplomáticas antes de uma resposta formal.
Levantamento citado por diplomatas aponta que a maioria dos países convidados para o conselho possui regimes autocráticos ou ditatoriais, o que reforça as reservas do Itamaraty sobre a legitimidade e a efetividade da iniciativa.
Esquerda volver
Enquanto líderes pelo mundo tentam somar forças, construir consensos e dividir responsabilidades, Lula parece fiel a um estilo próprio: se a proposta vem pronta demais, ele desconfia; se promete união, ele questiona; se pede adesão automática, ele prefere divergir. Afinal, para o presidente brasileiro, em diplomacia internacional, concordar demais pode ser sinal de que alguém ficou com poder de menos — ou de sobra.
