Guerra

Oriente Médio

Brasileiros em Israel relatam momentos de horror após pior ataque do Hamas ao Estado judeu

Medo, correria, busca por abrigos: Brasileiros que vivem em Israel contam como viveram os ataques do grupo palestino Hamas no sul do país, em torno da Faixa de Gaza, que até agora deixaram 1.100 mortos.


Enquanto as autoridades israelenses informam, nesta segunda-feira (9), terem retomado o controle total das localidades atacadas, moradores de Israel ainda estão chocados com a ação surpresa dos terroristas. Mesmo os que estão distantes da fronteira se dizem horrorizados com as cenas de violência e temem que o conflito se alastre.

Daniel Dachtenberg, brasileiro mora em Israel trabalha no porto de Haifa – Foto: Arquivo Pessoal

O empresário do ramo de seguros Alberto Rabinovitsh vive em Petach Tikva, no subúrbio de Tel Aviv. Ele conta que ao acordar, por volta das 7h30 da manhã do sábado (7), ouviu a sirene de alerta e correu imediatamente para o quarto protegido que mantém em casa, uma espécie de bunker com paredes de concreto e porta blindada, obrigatório nos edifícios em Israel desde os anos 1990, onde ele tem um minuto e meio para entrar, após ouvir o alarme, tempo em que os foguetes lançados de Gaza poderiam atingir a localidade onde vive.

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“Foi um susto total. Nós moramos num apartamento novo, que tem um quarto protegido, que em hebraico se chama “mamad”. E fomos para lá. Nisso, a gente escuta o som: ‘bum’, que é quando o domo de ferro atinge um míssil que estava sendo jogado para essa região e a gente fica mais dez minutos dentro desse quarto protegido. A gente sai e a vida segue dentro de uma certa normalidade”, conta.

Neste mesmo dia, a família, originária do Rio de Janeiro e que vive há sete anos em Israel, se dirige para a sinagoga para orações, quando percebe uma movimentação anormal.

Além da preocupação com a própria segurança, Alberto Rabinovitsh teme pelo filho. “Eu levei o meu filho ontem para a base, que fica a 120 km de casa e posso te falar que é uma sensação muito difícil, você se despedir do seu filho e não saber quando você vai vê-lo novamente”, relata o carioca que assumiu a dupla cidadania ao se mudar para Israel. “Somos judeus. A gente tem um amor atávico a esse país e a vida inteira a gente frequentou Israel. Foi uma decisão de vida, de realmente mudar para um país que se tem um pertencimento. Eu continuo frequentando muito o Brasil, visito algumas vezes por ano, mas a gente tem esse sentimento de pertencimento aqui a Israel”, descreve.

Homens armados palestinos deitados na estrada perto de Sderot, Israel. Militantes palestinos da Faixa de Gaza se infiltraram no sul de Israel no sábado e dispararam milhares de foguetes contra o país, fazendo com que Israel começasse a atacar alvos em Gaza em resposta Foto: Ohad Zwigenberg (AP)  

“Dormindo ao lado do inimigo”

“Israel é um país muito pequeno, é menor do que o estado do Rio de Janeiro e ele é cercado por países árabes,” continua Rabinovitsh. “Você tem na fronteira norte, o Líbano; um pouco do lado você tem a Síria, depois você tem a Jordânia, abaixo a Arábia Saudita e na fronteira sul, você tem o Egito. Estamos em vias de ter um acordo de paz com a Arábia Saudita, noticiado por todos os órgãos e, na minha opinião, essa é uma das motivações para o que está acontecendo. Sempre que teve qualquer tentativa de negociação para chegar a um processo de paz, Israel foi atacado”, recorda. Porém, “nada parecido com o que aconteceu essa semana, nunca teve esse tipo de chacina, de carnificina que foi feita. É uma coisa surreal, você entrar para matar qualquer pessoa, você entrar para matar crianças, idosos e mulheres. Não era uma briga contra o Exército”, destaca.

“O Hamas sabe que Israel é muito mais forte do que ele. É um país e um Estado que é altamente militarizado, com tecnologia gigantesca, com armamentos de primeiríssima linha. Tudo o que existe de mais moderno no mundo em termos de armamentos, existe em Israel. Então, quando você cutuca uma onça, você sabe que a reação é muito forte”, acrescenta. “Mas a gente não pode esquecer que o Hamas é um grupo terrorista que prega a destruição do Estado de Israel”, aponta. “A gente dorme com o inimigo literalmente ao nosso lado”, lamenta.

Alberto Rabinovitsch é empresário brasileiro em Israel – Foto: Divulgação

Daniel Dachtenberg, 58 anos, é outro brasileiro no meio do fogo cruzado. Assim como Alberto Rabinovitsh, ele também tem dois filhos entre os reservistas do Exército israelense. E mesmo que esteja baseado na cidade portuária de Haifa, ao norte do país, sente as consequências do conflito que estourou no sul de Israel.  “O meu filho, no domingo de manhã foi convocado e já se apresentou domingo à noite. Ele está na fronteira com a Jordânia. E minha filha foi colocada em prontidão, com todos os equipamentos”, relata este trabalhador do porto.

“É uma mistura de nervosismo, de angústia, de tudo. (…) Agora, como eu estou me sentindo, eu não sei se a ficha caiu. Sábado, fomos realmente pegos de surpresa, mas foi uma ação muito bem preparada”, relembra. “Por que? Porque sábado é o nosso Shabbat, quando as pessoas estão literalmente em descanso. (…) Como são festas familiares, os soldados foram dispensados para casa, para passar as festividades com os seus pais. Então, as unidades não estavam completas”, explica o brasileiro, como sendo uma das hipóteses para explicar os resultados da ação dos extremistas islâmicos.

Soldados israelitas perto da fronteira com a Faixa de Gaza. 9 de Outubro de 2023 – Foto: Jack Guez (AFP)

Os alarmes continuam soando

“Estou conversando com você e os alarmes estão estourando em Israel agora, especificamente na região sul”, diz Daniel Dachtenberg no meio da entrevista. “O Exército já assumiu as cidades que foram invadidas pelos terroristas. (…) Para você ter o número, 380.000 reservistas foram chamados a se apresentar. (…) E você sai às ruas e vê as pessoas descendo, já vestidas e paramentadas e embarcando nos carros para as suas bases. É uma emoção e um sentimento…Não sei como explicar o que é, mas é algo que foge do seu controle. Você está assistindo e não está acreditando”, descreve ele, sobre o ambiente em Israel, nesta segunda-feira.

“Eu não tenho medo porque eu tenho fé e eu tenho uma confiança no nosso Exército fora do comum. (…) Ele foi pego de surpresa no começo, mas depois não”, afirma. “Como pode um Exército que é conhecido no mundo todo ter esse tipo de acesso [dos extremistas] e acontecer isso numa fronteira vigiada por câmeras? É que diariamente essas cercas e câmeras são atacadas. As telas e as grades são constantemente vandalizadas. Então, não é difícil dizer que muitas delas foram cortadas e ainda não foram corrigidas ou até mesmo existe uma falha nessa correção”, cita como um possível agravante para a ação dos jihadistas.

“Por que eles conseguiram chegar? Porque eles entraram com um carro que é uma perua, como se fosse uma perua S10 de cabine para quatro pessoas, e atrás ainda tem o bagageiro aberto. Então, eles estavam armados dentro e na parte de trás eles estavam com uma [metralhadora] ponto cinquenta fixada no chão”, relata sobre a ação dos extremistas. “Eles foram metralhados. A quantidade de soldado, de policial militar morto nas ruas, a quantidade de pessoas que estavam nas ruas e foram metralhadas…”, lamenta. (…) “A quantidade de gente em estado gravíssimo é enorme”, observa.

Os escombros da Mesquita Yassin, destruída em um ataque aéreo israelense, são vistos no campo de refugiados de Shati, na Cidade de Gaza, na segunda-feira, 9 de outubro de 2023 – Foto: Hatem Moussa (FP)

“Terrorista é outra coisa”

“Eu já tinha visto de tudo, as atitudes, o modus operandi desses terroristas e quero deixar claro: árabe é árabe, palestino é palestino, mas terrorista é outra coisa”, define. “Eu tenho amigos árabes. Eu tenho amigos palestinos. Trabalho com árabes e trabalho com palestinos e fazemos churrasco. Quero deixar isso muito claro como brasileiro e como um judeu não nascido em Israel, de uma família judaica de educação judaica no Brasil, em São Paulo. Cuidado! Porque as pessoas misturam, sabe? E é uma mistura mentirosa, errônea. Os valores estão equivocados”, analisa.

Depois do que viu, Daniel Dachtenberg diz não acreditar em um acordo de paz entre os dois lados. “Quando você me pergunta o que você quer, eu falo: ‘eu quero que você seja exterminado do mapa’, que não exista mais nenhum judeu no mundo, não tem mais acordo”, conclui.

O brasileiro diz estar preparado para um conflito longo. “Nós, ontem, recebemos aqui o porta-aviões americano. Esse porta-aviões está aqui única e exclusivamente para dar o recado do Pentágono: chegamos aqui em Israel, com toda essa força nuclear e balística, para que o Irã não mexa uma sobrancelha para nenhum tipo de atitude contra a ação que Israel vai desenvolver”, analisa.

Samuel Ben Zikri, guia brasileiro em Israel – Foto: Arquivo pessoal

Samuel Ben Zikri é guia brasileiro em Israel. Ele conta que “a situação está bem difícil na fronteira” e que “a chance de cair mísseis nas cidades é menor, já que existe aquela proteção do sistema antimísseis. Mas tem ocorrido falhas e tem caído foguetes nas cidades”, relata este brasileiro, nascido no Pará, que também vive no Estado judeu. “Foi uma falha absurda, igual àquela de 50 anos atrás. No dia do ataque, se comemorava 50 anos da pior guerra de Israel [Yom Kipur]. Então, agora nós temos uma pior do que a pior”, avalia.

Esse fim de semana, eu estava saindo do trabalho para pegar passageiros, que por sinal vinham da França, e eles foram pegos de surpresa. (…) Acabaram voltando e acabou que a gente foi obrigado a ficar em casa, porque as cenas que apareceram na mídia foram de terror. (…) Nunca vi algo tão desumano, você sequestrar uma família inteira e uma velhinha de 85 anos que sobreviveu ao Holocausto, ser levada para Gaza. Eles estão nesse momento no cativeiro, mães com crianças amamentando. Imagina!”, descreve, chocado.

Revolta contra o governo Netanyahu

“Primeiramente, estão todos revoltados com o governo. Você tem acompanhado Israel ultimamente? Só se preocupou com política e os políticos só se preocuparam com seus problemas pessoais e esqueceram a segurança nacional”, avalia Zikri. “E essa é a prova. Todo mundo foi abandonado pelo Estado e agora nós estamos pagando esse preço, onde os governantes ficaram governando via Twitter [X], em vez de estar na cadeira deles fazendo o que deveria ser feito pela população”, critica.

“Com certeza vai continuar. O nosso maior problema é a entrada do Irã. Agora mesmo de manhã, já teve dois mísseis vindo do Líbano, ou seja, Líbano é outro ‘procurador’ do Irã. Assim como o Hezbollah representa o Irã no Líbano. (…) É por isso que os Estados Unidos já mandaram um porta-aviões aqui para nossa costa para ficar de prontidão”, relata.

“Hoje você deve ter notado que o petróleo subiu 4% e já se fala nessa guerra do Oriente Médio todo, e sabe lá quanto tempo ela pode durar. É tudo por causa do Irã, que incita os grupos terroristas, financia. Ele é o maior produtor de petróleo e tem interesse que o petróleo esteja lá em cima, e é a gente que paga o preço”, lamenta.

Soldados israelenses se reúnem sobre e ao redor de tanques, enquanto a violência na vizinha Faixa de Gaza aumenta após um ataque em massa de infiltrados palestinos armados, no lado israelense da fronteira de Gaza, em 9 de outubro de 2023 – Foto Amir Cohen (REUTERS) 

Para Samuel, a justificativa dos extremistas de que defendem seus territórios da ocupação de Israel não explica o conflito. “Isso não tem nada a ver. Existe uma única palavra que resume tudo isso: se chama religião. Eles querem impor a religião deles à força. Vocês aí na França estão passando por isso também. A pessoa entra na sua casa, você recebe democraticamente, abre os braços e depois ele quer se apossar da sua casa, colocar as normas deles e a gente é expulso. É exatamente isso que acontece aqui também. (…) É tudo religião. Infelizmente, nós todos somos os infiéis e por isso devemos ser acabados. É isso que o Irã radical prega”, finaliza.

O guia brasileiro explica que por causa do conflito já está recebendo desistências de turistas que previam visitar Israel no fim do ano. “Dezembro está muito longe ainda, mas a gente sofre sim, e todo o conflito aqui, o primeiro setor a parar é o do turismo”, lamenta.

Com agências