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Nascido em Manaus em 10 de março de 1954, Sérgio Cardoso dedicou mais de cinco décadas à produção artística e à gestão cultural. Sua trajetória passou pela pintura, fotografia, dramaturgia, teatro, cinema, literatura e administração pública da cultura. Autodidata, começou a pintar ainda na década de 1970 e, desde então, construiu uma obra profundamente vinculada à cidade onde nasceu e à realidade amazônica.
Formado em Direito pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Sérgio também se especializou na área cultural. Fez pós-graduação em Administração de Projetos Culturais no Rio de Janeiro e estudou administração de serviços culturais em Caracas, na Venezuela. Sua formação foi acompanhada por uma longa atuação na administração pública, sempre mantendo paralelamente a produção artística.
Uma vida dedicada à cultura
Na administração cultural do Amazonas, Sérgio ocupou diferentes funções. Entre 1981 e 1991, atuou como coordenador de assuntos culturais da Secretaria de Educação e Cultura do Estado. Em 1987, foi diretor-superintendente da Televisão Educativa do Amazonas e, posteriormente, exerceu funções de direção na área cultural do Estado, incluindo a Superintendência Cultural. Também esteve à frente de espaços e iniciativas voltados à difusão das artes no Amazonas.
Sua atuação, porém, nunca se limitou à gestão. Nas artes visuais, participou de importantes exposições no Amazonas e em outros estados brasileiros. Entre os registros de sua trajetória estão participações no Salão Nacional de Artes Plásticas, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, na Funarte, na Pinacoteca do Estado de São Paulo e em mostras como Arte Pará. Em 1985, recebeu prêmio de viagem ao país no 8º Salão Nacional de Artes Plásticas.
Sua pintura era marcada por cores intensas, experimentação e uma forte dimensão crítica. A denúncia social, a destruição da natureza, as transformações urbanas e a memória da Amazônia aparecem como elementos recorrentes em sua produção. Em um perfil publicado pela Academia Amazonense de Letras, o escritor Zemaria Pinto descreveu a relação entre o artista e sua cidade como uma espécie de simbiose: “Sergio Cardoso e Manaus; Manaus e Sergio Cardoso”.
La Zone e o teatro
Na dramaturgia, Sérgio Cardoso também deixou uma marca particular na cultura amazonense. Entre seus trabalhos mais conhecidos estão “A Herança Maldita de Mercedita de La Cruz” e “Carmen de Lazone”, peças que ganharam destaque no Festival de Teatro da Amazônia. Também escreveu outros textos para o teatro contemporâneo amazonense, entre eles “Mundica” e “Crhisályda Lapella (Caruso jamais cantou aqui)”.
Um dos elementos mais característicos de sua obra foi a criação de La Zone, uma cidade fictícia que funcionava como uma espécie de espelho deformado, crítico e poético de Manaus. Por meio desse universo, Sérgio explorava personagens, conflitos sociais, marginalização, memória, desigualdades e as transformações de uma cidade marcada por profundas contradições.
Em 2014, lançou a obra “O Livro do Teatro Urbano das Mulheres de La Zone”, ampliando para a literatura e a dramaturgia um universo que já fazia parte de sua produção artística.
Cinema, fotografia e memória
O cinema foi outra importante vertente de sua produção. Sérgio dirigiu e roteirizou documentários sobre artistas, intelectuais e personagens ligados à história cultural e social do Amazonas. Entre os nomes retratados em seus trabalhos estão Óscar Ramos, Roberto Evangelista, Joaquim Marinho, Jair Jacqmont, Hahnemann Bacelar e o crítico de cinema José Gaspar. Seu trabalho audiovisual tinha também uma dimensão de preservação da memória: registrar pessoas e histórias era, para ele, uma forma de impedir que desaparecessem junto com as transformações de Manaus.
Em maio de 2026, poucos meses antes de sua morte, Sérgio lançou o documentário “Edson, Antônio e Zequinha Piola – Os Irmãos Coragem do Futebol Amazonense”, dedicado à trajetória dos irmãos Piola, personagens importantes da história do futebol amazonense. Dirigido por Sérgio, o filme recupera, por meio de relatos e memórias, a trajetória dos irmãos e sua passagem por clubes tradicionais, como Fast Clube, Nacional e Paysandu. A produção foi exibida no Cineteatro Guarany dentro do projeto Cinema de Arte, da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa.
Na Academia Amazonense de Letras
A dimensão literária de Sérgio Cardoso ganhou reconhecimento institucional em 2017, quando ele foi eleito para a Academia Amazonense de Letras. Eleito em 13 de maio daquele ano, tomou posse em agosto e tornou-se o sexto ocupante da cadeira nº 2, sucedendo o artista plástico Moacir Couto de Andrade. A cadeira tem como patrono Euclides da Cunha.
A presença de Sérgio na Academia representava, de certa maneira, a própria amplitude de sua trajetória: um artista que transitava entre diferentes linguagens e que transformava experiências, personagens e contradições de Manaus em pintura, fotografia, cinema, literatura e teatro.
Última exposição
A obra de Sérgio permanece presente em Manaus. Em setembro de 2026, ele apresentou a exposição “Papers & True Graphics – Pinturas e Fotografias”, no Centro Cultural Palácio da Justiça. A mostra reúne trabalhos de diferentes fases de sua produção e evidencia justamente a relação entre pintura, fotografia e cinema que marcou sua trajetória. A exposição foi apresentada pela Academia Amazonense de Letras como parte da produção recente do artista.
Assim, a última exposição de Sérgio permanece como uma espécie de despedida involuntária: uma parte de sua obra continua diante do público na mesma cidade que, durante mais de cinco décadas, foi cenário, personagem, memória e matéria-prima de sua criação.
“Ele era um vulcão em erupção”
A morte de Sérgio Cardoso repercutiu entre artistas, escritores e pessoas ligadas à cultura amazonense. Para o primo José Cardoso, a perda ultrapassa o vínculo familiar e representa o desaparecimento de um artista cuja sensibilidade ajudou a revelar diferentes faces de Manaus.
“Manaus perde um grande e genial artista das artes plásticas, do cinema, do Teatro, da música, da fotografia e da Literatura.
Eu tinha por ele muito mais que afinidades de primos, tinha uma enorme admiração pela sua história de sobrevivência, fez de suas dores e cicatrizes a Luz de sua arte, como bem disse Robério Braga há pouco: ‘Ele era um Vulcão em erupção o tempo todo’, mas permito acrescentar que, ao invés de lavas, ele jorrava Pérolas, que era sua sensibilidade artística de ver o mundo e, em especial, Manaus, que ele elegeu como seu universo.
Talvez tenha sido o artista que mais nos desnudou, colocando, de forma irônica e crítica na maioria das vezes, a nossa identidade, a Manaus que ele tanto sonhou.”
José Cardoso também relembra a influência que Sérgio exerceu sobre sua própria trajetória:
“Sérgio foi o meu primeiro incentivador a mergulhar neste rio profundo de emoções.
Eu aprendi como lição de vida que o amor vem pela admiração. Pude, e agradeço esta oportunidade, dizer nesta derradeira semana para ele: ‘Te amo muito, primo, fica bem…’.
Hoje ele partiu, mas, para mim, ele continuará vivo, como tantos que plantaram sementes no canteiro de minha história.”
Aos 72 anos, Sérgio Vieira Cardoso deixa uma obra que atravessa linguagens e gerações. Pintou, fotografou, escreveu, filmou, dirigiu, administrou projetos culturais e criou personagens e universos próprios para falar de uma cidade que nunca deixou de ser seu principal objeto de investigação.
Manaus, para Sérgio, não foi apenas o lugar onde nasceu. Foi território de memória, conflito, beleza, ironia e invenção. E é justamente nessa cidade, transformada tantas vezes por seu olhar, que sua obra permanece.
