
Nerissa e Katherine Bowes-Lyon – Divulgação/Netflix
Durante décadas, dois nomes ligados à família da rainha Elizabeth II praticamente desapareceram dos registros públicos britânicos. Nerissa e Katharine Bowes-Lyon eram primas de primeiro grau da futura soberana, mas passaram a maior parte da vida longe dos palácios, internadas em uma instituição de Surrey.
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Nerissa nasceu em 1919 e Katharine em 1926. As duas eram filhas de John Herbert Bowes-Lyon, irmão da mãe de Elizabeth II, a rainha-mãe Elizabeth Bowes-Lyon.
Em 1941, quando tinham 22 e 15 anos, respectivamente, foram internadas no Royal Earlswood Hospital, em Surrey, instituição destinada ao atendimento de pessoas com deficiência intelectual e do desenvolvimento. Ali permaneceriam durante grande parte de suas vidas.
Enquanto isso, a trajetória da prima delas tomava outro rumo. Elizabeth tornou-se rainha em 1952 e, no ano seguinte, sua coroação foi transmitida para milhões de pessoas. Nerissa e Katharine, porém, continuavam vivendo praticamente invisíveis dentro da instituição.

O Royal Earlswood Mental Hospital, na cidade de Redhill, no qual viveram e morreram duas primas da Rainha Elizabeth 2ª – Foto: reprodução
O registro que apagou duas vidas
A história ganhou um contorno ainda mais incomum por causa do Burke’s Peerage, tradicional publicação britânica dedicada à genealogia e às famílias aristocráticas.
A edição de 1963 registrou Nerissa como morta em 1940 e Katharine como morta em 1961. As duas, entretanto, estavam vivas e continuavam no Royal Earlswood. A própria história da publicação confirma que a edição de 1963 foi a 103ª edição da obra.
O caso veio a público em 1987, depois que a imprensa britânica descobriu que as duas mulheres, dadas como mortas nos registros genealógicos, ainda estavam vivas. O então editor do Burke’s Peerage, Harold Brooks-Baker, afirmou posteriormente que a publicação havia apenas reproduzido as informações fornecidas pela família, argumentando que não era prática da obra questionar informações desse tipo fornecidas por integrantes de famílias aristocráticas.
Essa explicação, porém, não encerrou a controvérsia.

Famílias reais da Europa: da rainha Vitória até as rainhas Elizabeth II e Margrethe II — Foto: Editoria de Arte / O Globo
Nerissa morreu em 1986
Nerissa morreu de fato em 1986, aos 66 anos, depois de aproximadamente quatro décadas institucionalizada.
O funeral provocou novas perguntas. Segundo relatos publicados pela imprensa britânica, ela foi enterrada no Redhill Cemetery e seu túmulo recebeu inicialmente apenas uma identificação simples, com uma placa contendo seu nome e um número. O episódio ganhou repercussão quando a imprensa passou a investigar a história das irmãs no ano seguinte.
Foi justamente a morte de Nerissa que ajudou a revelar publicamente que os registros estavam errados.
E então surgiu a segunda surpresa: Katharine ainda estava viva.
Katharine viveu até 2014
Katharine permaneceu no Royal Earlswood até o fechamento da instituição, em 1997. Depois, continuou recebendo cuidados em Surrey.
Ela morreu em 23 de fevereiro de 2014, aos 87 anos. Registros genealógicos posteriores confirmam sua data de nascimento, sua relação familiar com Elizabeth II e a data de sua morte.
Ou seja, quando a edição de 1963 do Burke’s Peerage dizia que Katharine havia morrido, ela ainda viveria por mais de cinco décadas.
Elas sabiam quem era a família?
Relatos sobre a vida das duas dentro da instituição ajudam a tornar a história ainda mais humana.
Segundo relatos reunidos em reportagens e documentários, Nerissa e Katharine acompanhavam pela televisão acontecimentos envolvendo a família real. Quando Elizabeth II aparecia na tela, elas reagiam, acenavam e faziam reverências.
O contraste era marcante: enquanto a família real ocupava as primeiras páginas dos jornais e os maiores eventos públicos do Reino Unido, duas parentes próximas da monarca permaneciam institucionalizadas e praticamente desconhecidas do público.

Em 1941, as primas da Rainha Elizabeth II, Katherine Bowes-Lyon e Nerissa Bowes-Lyon, registradas como mortas e escondidas do mundo na ‘Instituição Real de Earlswood para Deficientes Mentais’ – Foto: Reprodução
A família real sabia?
É justamente nesse ponto que a história exige cautela.
Ao longo dos anos, reportagens e documentários levantaram questionamentos sobre o grau de conhecimento e participação dos familiares no destino das duas mulheres. Algumas publicações chegaram a afirmar que elas teriam sido deliberadamente escondidas da vida pública.
Mas não existe base suficiente para afirmar como fato que Elizabeth II tenha determinado o isolamento das primas ou ordenado que fossem declaradas mortas.
O Palácio de Buckingham, quando questionado à época, tratou o assunto como uma questão relacionada à família Bowes-Lyon, e não diretamente à família real. Também há relatos de que a rainha-mãe Elizabeth Bowes-Lyon afirmou ter tomado conhecimento da situação das sobrinhas somente anos depois. Essas alegações permanecem parte da controvérsia histórica em torno do episódio.
Um retrato de uma época
Mais do que uma história envolvendo a monarquia britânica, o episódio também expõe como pessoas com deficiência intelectual eram tratadas durante grande parte do século XX.
A institucionalização prolongada era uma realidade para milhares de pessoas no Reino Unido, muitas vezes afastadas de suas famílias e da convivência social.
O caso das primas de Elizabeth II ganhou proporções extraordinárias justamente porque elas pertenciam a uma família extremamente conhecida.
A própria Burke’s Peerage, criada em 1826, se consolidou como uma das mais tradicionais obras de genealogia da aristocracia britânica e afirma atualmente manter registros históricos de milhares de famílias.
No caso de Nerissa e Katharine, porém, os registros acabaram criando uma situação quase surreal: duas mulheres continuavam vivendo suas vidas enquanto uma publicação de referência já as tratava como mortas.
E o erro permaneceu por décadas antes de ser descoberto pelo público.

A Rainha Elizabeth 2ª com sua irmã, Princesa Margareth, em foto de 1948 – Foto: Getty Images
Uma história que continua cercada de perguntas
A história de Nerissa e Katharine Bowes-Lyon não permite uma conclusão simples sobre quem decidiu o quê ou quais eram exatamente as intenções da família.
O que os registros permitem afirmar é mais objetivo: as duas eram primas de primeiro grau de Elizabeth II; foram internadas em 1941; apareceram como mortas em registros genealógicos quando ainda estavam vivas; Nerissa morreu em 1986; e Katharine viveu até 2014.
O restante permanece no terreno das interpretações, relatos de época e controvérsias que transformaram as duas mulheres em um dos episódios mais incomuns da história da família real britânica.

O túmulo de Nerissa Bowes-Lyon, prima da Rainha Elizabeth II, no Cemitério Redhill – Foto: Getty Images
A história virou série na Netflix
A história de Nerissa e Katharine Bowes-Lyon também ganhou uma versão dramatizada na televisão. As duas aparecem na quarta temporada de The Crown, série da Netflix criada por Peter Morgan e inspirada em acontecimentos reais da vida da rainha Elizabeth II.
O episódio é o sétimo da quarta temporada, intitulado The Hereditary Principle — em português, O Princípio da Hereditariedade. Lançado em 15 de novembro de 2020, o capítulo acompanha a princesa Margaret enquanto ela descobre a existência das duas primas, que permaneciam internadas no Royal Earlswood Hospital e apareciam como mortas nos registros genealógicos.
Na produção, Trudie Emery interpreta Katharine Bowes-Lyon e Pauline Hendrickson interpreta Nerissa Bowes-Lyon. As atrizes foram escolhidas após uma pesquisa que buscou intérpretes com deficiência intelectual para representar as duas mulheres.
O episódio mostra as irmãs assistindo pela televisão a acontecimentos envolvendo a família real e retrata a descoberta do segredo por Margaret. A produção também apresenta um confronto entre a princesa e a rainha-mãe sobre o destino das primas.

Trudie Emery e Pauline Hendrickson interpretaram Katherine e Nerissa Bowes-Lyon em The Crown – Foto: Divulgação/Netflix
É importante, porém, separar fato histórico de dramatização. A própria série é classificada pela Netflix como uma obra de ficção inspirada em acontecimentos reais. Há registros históricos que confirmam a existência das duas mulheres, a internação, a informação incorreta sobre suas mortes e as respectivas datas de falecimento. Porém, algumas cenas e diálogos apresentados em The Crown não possuem comprovação histórica.
Um dos principais exemplos é justamente o suposto confronto entre Margaret e a mãe. Reportagens sobre o episódio destacam que a produção dramatizou e criou elementos da narrativa para construir o conflito familiar apresentado na tela.
Assim, a história de Nerissa e Katharine ganhou uma segunda vida: primeiro, como um episódio real e controverso da aristocracia britânica; décadas depois, como uma das histórias mais marcantes retratadas pela série The Crown.
