Um levantamento realizado por pesquisadores da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), por meio do projeto Atlas ODS Amazônia, identificou que os municípios de Silves, Itapiranga, São Sebastião do Uatumã e Urucará, localizados na região do Médio Amazonas, apresentam uma trajetória histórica de ocupação humana consolidada e atividades econômicas estruturadas, reforçando o potencial da região para impulsionar a bioeconomia e o desenvolvimento sustentável.
A pesquisa foi desenvolvida em parceria com o Instituto Acariquara e contou com apoio da Eneva. O trabalho resultou na elaboração do Mapa de Potencialidades Territoriais, documento que reúne informações sobre aspectos sociais, econômicos e produtivos dos quatro municípios.
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Segundo o coordenador do estudo, Danilo Egle Santos Barbosa, o diagnóstico vai além dos indicadores estatísticos tradicionais e incorpora informações obtidas diretamente com moradores, lideranças comunitárias, produtores rurais e representantes de organizações locais.
“O estudo demonstra que esses municípios possuem uma história consistente de ocupação e organização econômica. Ao integrar dados oficiais e o conhecimento das comunidades, foi possível compreender como essas atividades foram construídas ao longo das últimas décadas e continuam sustentando a economia regional”, destacou o pesquisador.

Danilo Egle, pesquisador do Atlas ODS Amazonas e professor da UFAM – Foto: Gabriel Vieira/Reprodução
Economia baseada nos recursos da floresta
O levantamento aponta que a economia do Médio Amazonas está sustentada em atividades tradicionais que fazem parte da identidade econômica da região amazônica.
Entre os principais segmentos produtivos identificados estão:
- agricultura familiar;
- pesca artesanal;
- extrativismo vegetal;
- produção de farinha;
- manejo florestal sustentável;
- pecuária;
- cadeias produtivas ligadas à sociobiodiversidade.
Os pesquisadores também registraram a presença de cooperativas, associações comunitárias e organizações de produtores rurais, consideradas fundamentais para fortalecer a economia local, ampliar mercados e agregar valor à produção regional.
Vocações produtivas
O estudo identificou características econômicas específicas em cada município analisado.
Em Urucará, destaca-se a produção de guaraná orgânico certificado, reconhecida nacionalmente pela qualidade do produto. Já Itapiranga apresenta forte potencial na cadeia produtiva do tucumã, além de experiências em manejo florestal sustentável.
No município de Silves, a produção de farinha continua sendo uma das principais atividades econômicas, acompanhada por iniciativas voltadas à bioeconomia e ao aproveitamento sustentável dos recursos naturais.
Em São Sebastião do Uatumã, o turismo de base comunitária e as atividades ligadas à sociobiodiversidade aparecem como alternativas para geração de renda, valorizando os conhecimentos tradicionais e a conservação ambiental.
Desafios estruturais
Apesar do cenário positivo, o levantamento mostra que ainda existem obstáculos para ampliar o desenvolvimento econômico da região.
Entre os principais desafios apontados estão:
- deficiência no saneamento básico;
- dificuldades de acesso ao crédito para pequenos produtores;
- limitações logísticas, comuns em municípios do interior amazônico;
- necessidade de qualificação profissional;
- fortalecimento de políticas públicas voltadas às cadeias produtivas locais.
Os pesquisadores ressaltam que superar essas barreiras poderá ampliar a competitividade regional e criar novas oportunidades de emprego e geração de renda.
Integração regional
Como proposta para acelerar o desenvolvimento, o estudo recomenda a criação de um consórcio intermunicipal envolvendo Silves, Itapiranga, São Sebastião do Uatumã e Urucará.
A iniciativa permitiria ações conjuntas nas áreas de saúde, educação, infraestrutura, turismo, empreendedorismo, cultura e bioeconomia, além de facilitar a captação de investimentos públicos e privados.
A avaliação é de que os quatro municípios compartilham características econômicas, sociais e ambientais semelhantes, o que favorece a construção de políticas integradas de desenvolvimento regional.
Pesquisa ouviu comunidades
Para elaborar o diagnóstico, os pesquisadores cruzaram informações de bases oficiais com pesquisas documentais e atividades de campo.
Durante o trabalho foram realizados encontros comunitários, entrevistas, grupos focais, aplicação de questionários e visitas técnicas. O objetivo foi identificar aspectos econômicos, sociais e culturais que muitas vezes não aparecem nos levantamentos estatísticos convencionais.
Bioeconomia ganha espaço no Amazonas
O estudo reforça um movimento que vem sendo defendido por universidades, instituições de pesquisa e órgãos públicos: a bioeconomia como alternativa para promover crescimento econômico aliado à conservação da floresta.
Nos últimos anos, produtos da sociobiodiversidade amazônica, como guaraná, tucumã, castanha, açaí, óleos vegetais e fibras naturais, passaram a receber maior atenção de programas de incentivo à inovação, agregação de valor e desenvolvimento sustentável.
Especialistas destacam que investimentos em infraestrutura, assistência técnica, logística, qualificação profissional e acesso ao mercado são considerados fundamentais para transformar o potencial produtivo da região em melhoria da qualidade de vida das populações locais.
Os resultados completos do estudo serão publicados nos próximos meses pelos pesquisadores responsáveis pelo projeto Atlas ODS Amazônia.
