A criminalidade organizada no Brasil tem raízes profundas, moldadas por contextos históricos, sociais e políticos. Entre as diversas facções que marcaram a história do crime no país, a Falange Vermelha ocupa uma posição de destaque, não apenas por ser uma das primeiras organizações criminosas brasileiras, mas também por ter sido a precursora de outras facções de grande impacto, como o Comando Vermelho (CV).
Origem da Falange Vermelha
A Falange Vermelha surgiu no início da década de 1970, no Presídio da Ilha Grande, no Rio de Janeiro. Naquele período, o regime militar brasileiro prendia presos políticos junto com criminosos comuns, como uma forma de punição e contenção. No entanto, essa estratégia teve efeitos colaterais inesperados: ao conviver com militantes políticos experientes, os presos comuns começaram a adquirir noções de organização, disciplina e ideologia.
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Foi nesse ambiente que surgiu a Falange Vermelha, inicialmente inspirada em ideias de solidariedade entre os presos, autodefesa e resistência contra a repressão policial. Seu lema era “Paz, Justiça e Liberdade”. Com o tempo, contudo, a facção abandonou os princípios ideológicos e se transformou numa organização voltada para o tráfico de drogas, sequestros e outros crimes.
A semente do crime organizado

André Torres, um dos fundadores do Comando Vermelho – Foto: Reprodução
André Torres criou o Grupo União, depois chamado Falange Vermelha, hoje Comando Vermelho. Não importa o nome, foi a semente do crime organizado. Ele avalia o tempo e analisa: “Em termos de criminalidade, mudou tudo. Os assaltos a bancos se tornaram raros porque não rendiam. Os bancos não deixam dinheiro grande nas agências. Era uma puta mão de obra, precisava de um monte de homens, e quando dividiam a grana, dava uma merreca para cada um. O que dá lucro é o tráfico de drogas e os sequestros.
Outra diferença é o armamento. Nós assaltávamos bancos com revólver 38, no máximo pistola 45 ou 765. Se naquele tempo usássemos as armas de hoje como os fuzis AR-15 e Fal, ia ser uma tragédia. Pode reparar que os bandidos raramente trazem esse armamento para as ruas. Só usam na segurança dos pontos de venda de droga. Acho que tínhamos mais coragem que os bandidos de hoje”.
A Falange Vermelha já não controlava o sistema penitenciário. Seus líderes estavam confinados no presídio de segurança máxima Bangu I. Mas mesmo da prisão, comandavam o crime organizado nas ruas. André Torres explica como funcionava.
O poder da Falange
“A Falange Vermelha (à época) era muito forte nos morros, nas favelas, nas comunidades carentes. O crime organizado ocupava com competência o espaço que o sistema, o governo, ignorava na área da assistência social. Eram os chefes do tráfico de drogas que compravam o material escolar do filho do favelado, os remédios e davam até dinheiro para pagar os enterros de seus mortos. Quando pobre precisava de um favor maior, mandava recado para um companheiro que estava em Bangu I. De lá, vem a ordem para que o pedido seja atendido. Até internação em hospital se conseguia. Às vezes, a mulher favelada não tinha dinheiro para comprar uma merda de bujão de gás pra cozinhar para os filhos. Ela ia na boca de fumo e o traficante dava o bujão de gás para ela. A gente ganhava muito quando ajudava as pessoas. É por isso que as comunidades carentes protegem os traficantes. É uma questão de sobrevivência. As autoridades se queixam de que o exército do tráfico, a segurança das bocas de fumo, é feita por menores, uma garotada de 14, 15 anos que tem nas mãos armas poderosas, como os fuzis Fal e AR-15. O que essas autoridades não dizem é que o salário mínimo do trabalhador é de 120 cruzeiros (sic) e que esses garotos que trabalhavam no tráfico ganhavam muito mais por semana e que são eles que sustentavam as famílias.”
Provocado, André Torres conclui: “Mesmo depois de tudo que passei, se eu não estivesse nessa cadeira de rodas ia ser um inferno. Com a experiência que eu tenho e com os meus conhecimentos, sempre soube onde conseguir armas modernas e homens capazes… Melhor deixar pra lá…”.
Transição para o Comando Vermelho
A transição da Falange Vermelha para o Comando Vermelho ocorreu ao longo dos anos 1980. À medida que o tráfico de drogas se tornava mais lucrativo e estruturado no Brasil, a facção começou a se expandir e adotar uma lógica empresarial do crime. O nome “Comando Vermelho” passou a ser usado para identificar essa nova fase mais violenta, hierarquizada e voltada para o domínio das favelas e rotas de tráfico.

José Carlos dos Reis Encina, o Escadinha, um dos fundadores do Comando Vermelho, fugiu de helicóptero do presídio da Ilha Grande. Anos depois, tentou a mesma fuga do presidio Frei Caneca, sem sucesso – Foto: Alberto Jacob – 30/12/1982

O traficante Meio-Quilo – Foto: Reprodução

William da Silva Lima, o Professor, foi um dos fundadores do Comando Vermelho — Foto: Arquivo

Traficante Rogério Lemgruber, o Bagulhão — Foto: Manoel Soares / Agência O Globo
Rogério Lemgruber, o Bagulhão ou Marechal, ficou conhecido pela sigla RL. Ele foi criado na Favela do Rebu, em Senador Camará, na Zona Oeste, e costumava cometer assaltos a banco com seu irmão, Sebastião Lemgruber, o Tiguel. Em 1972, ele foi levado ao presídio da Ilha Grande, onde passou a maior parte da sua vida. Foi lá que conheceu o Professor e atuou na organização da facção.
Em janeiro de 1980, ele conseguiu escapar da ilha de barco. Após idas e vindas do sistema carcerário, ele morreu vítima de insuficiência hepática e diabete, em 29 de maio de 1992.
Linha do Tempo: Crimes Praticados e Expansão das Facções
| Período | Evento / Crime Praticado | Detalhes |
|---|---|---|
| 1970–1979 | Formação da Falange Vermelha | Surge na Ilha Grande, com discurso ideológico; foco em roubos e autodefesa dos presos. |
| 1980–1985 | Expansão para o tráfico de drogas | Facção começa a dominar favelas e controlar bocas de fumo. |
| 1980 | Aliança com o Jogo do Bicho | Estabelece parcerias com bicheiros para financiamento e armamentos. |
| 1985–1990 | Transição para Comando Vermelho (CV) | A Falange evolui e adota o nome “Comando Vermelho”, consolidando o tráfico como principal atividade. |
| 1990s | Disputas com outras facções | CV enfrenta surgimento de rivais como ADA e TCP. Início da guerra pelo controle de territórios. |
| 2000s em diante | Internacionalização e diversificação | Facções ampliam atuação para outros países e crimes como milícia, lavagem de dinheiro, extorsão e tráfico de armas. |
A Relação com o Jogo do Bicho
Durante a década de 1980, a Falange Vermelha estabeleceu vínculos com figuras do Jogo do Bicho, uma das formas mais antigas de contravenção no Brasil, especialmente no Rio de Janeiro. Os bicheiros, que já controlavam áreas inteiras da cidade e contavam com influência política e econômica, passaram a financiar facções em troca de proteção e parceria no controle de territórios.
Essa aliança garantiu à Falange acesso a armas, dinheiro e influência. Em muitos casos, os traficantes se tornaram também operadores do Jogo do Bicho ou passaram a cobrar taxas de operação dentro das comunidades que dominavam.
Com o tempo, no entanto, a relação entre traficantes e bicheiros tornou-se instável, com disputas territoriais e de influência, especialmente com a ascensão de novas facções e o fortalecimento das milícias.
O Crescimento das Facções Criminosas
A partir dos anos 1990, o Brasil viu o surgimento de diversas outras facções, tanto dentro quanto fora dos presídios. No Rio de Janeiro, além do Comando Vermelho, surgiram o Terceiro Comando Puro (TCP) e o Amigo dos Amigos (ADA), frutos de divisões internas e disputas por território.
Já em São Paulo, em 1993, foi fundado o Primeiro Comando da Capital (PCC), inicialmente como uma organização de proteção aos presos contra abusos do sistema penitenciário. O PCC se tornou uma das maiores facções da América Latina, com ramificações em vários estados e países vizinhos.

Foto: Alex Silva/Estadão Conteúdo
O nome Primeiro Comando da Capital (PCC) fora empregado originalmente para denominar a equipe de futebol. E foi por meio do esporte que o PCC tomou o controle do primeiro presídio. O time composto pelos oito criminosos do PCC deu o golpe fatal. Em meio a uma partida de futebol, eles mataram os criminosos mais temidos do presídio de Taubaté e se firmaram com os novos líderes da prisão. Era 31 de agosto de 1993. Neste dia, os jogadores de futebol conseguiram a fidelidade dos demais criminosos e o nome do time de futebol passou a ser o da gangue que passaria a dar as ordens dentro da prisão.
O Combustível da Criminalidade: Violência, desigualdade social e as falhas do sistema
O surgimento e a expansão da criminalidade organizada no Brasil, especialmente a partir da década de 1970, não podem ser compreendidos apenas pelo viés policial ou judicial. Há um conjunto de fatores históricos, sociais, econômicos e políticos que atuaram como propulsores para a formação de facções criminosas como a Falange Vermelha e, posteriormente, o Comando Vermelho.
1. Desigualdade Social e Exclusão Histórica
O Brasil é um dos países com maior índice de desigualdade social no mundo. Por décadas, comunidades inteiras foram abandonadas pelo Estado em termos de educação, saneamento, segurança e oportunidades econômicas. Nessas regiões marginalizadas, o crime organizado surgiu muitas vezes como uma resposta à ausência do poder público, oferecendo uma forma de renda, proteção e até certa forma de “justiça paralela”.
Sem acesso a empregos formais, direitos básicos ou presença policial confiável, jovens de favelas e periferias passaram a ser recrutados por organizações criminosas, que ofereciam status, dinheiro e pertencimento.
2. Superlotação e Falência do Sistema Prisional

Núcleos de Custódias e Centros Prisionais superlotados – Foto: Reprodução
Outro fator central foi a política carcerária adotada especialmente durante a ditadura militar (1964–1985). Ao misturar presos comuns com presos políticos, o governo criou sem querer um ambiente ideal para a formação de facções. Os criminosos comuns aprenderam com os militantes como se organizar, resistir e articular estratégias coletivas — o que daria origem à Falange Vermelha.
Além disso, a superlotação dos presídios, a falta de políticas de ressocialização e o abandono do sistema carcerário tornaram as prisões verdadeiras “escolas do crime”, onde facções se fortalecem e expandem seu poder.
3. Corrupção e Conivência do Estado
A corrupção policial, judicial e política também alimentou o crescimento do crime. Em muitas regiões, houve alianças entre traficantes, políticos e forças de segurança, criando um ciclo de impunidade e proteção para o crime organizado.
O próprio Jogo do Bicho, por exemplo, sobreviveu e prosperou durante décadas com a conivência de autoridades. Essa estrutura informal de poder e influência foi absorvida ou combatida por novas facções, que passaram a disputar esses espaços.
4. Expansão do Tráfico de Drogas

Foto: Flavia Vilela/Agência Brasil
Nos anos 1980 e 1990, o Brasil passou a ser uma rota estratégica para o tráfico internacional de drogas. A demanda por cocaína na Europa e nos EUA fez com que organizações brasileiras começassem a negociar diretamente com cartéis da Bolívia, Colômbia e Peru. O lucro fácil e o acesso a armamentos sofisticados elevaram o nível de organização e violência das facções.
As facções passaram a disputar favelas, bairros e cidades, o que gerou ondas de violência urbana, guerras territoriais e aumento da letalidade policial e civil.
5. Falta de Políticas Públicas Sustentáveis
Apesar de avanços pontuais, o Brasil não conseguiu implementar políticas públicas eficazes e duradouras para prevenir o ingresso de jovens no crime, reduzir a reincidência criminal ou controlar o poder das facções nos presídios. As ações costumam ser pontuais, reativas e com foco apenas na repressão, sem atacar as raízes do problema.
O crescimento do crime organizado no Brasil não é fruto do acaso. Ele foi alimentado por décadas de abandono social, má gestão estatal, corrupção, desigualdade e repressão desordenada. Facções como a Falange Vermelha não surgiram do nada: elas são o reflexo de um país que, em muitos momentos, tratou os sintomas da criminalidade, mas ignorou suas causas profundas.
Enquanto essas causas estruturais não forem enfrentadas de forma integrada — com investimentos em educação, emprego, habitação, justiça e segurança pública humanizada — o ciclo da violência continuará se repetindo.

Brasileiros foram presos durante a Operação Montes Claros nas cidades de Pedro Juan Caballero e Zanja Pytã, no Paraguai – Foto: Reprodução
Impactos e Desafios
As organizações criminosas no Brasil têm forte influência sobre comunidades, especialmente em áreas de vulnerabilidade social. Elas não apenas controlam o tráfico de drogas, mas muitas vezes oferecem serviços e segurança onde o Estado está ausente. Isso cria uma relação complexa entre moradores, traficantes e poder público.
Apesar das ações policiais, prisões e operações de combate ao tráfico, as facções continuam se adaptando e evoluindo, muitas vezes se reorganizando de dentro dos próprios presídios.
