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Renan Santos terá ato de apoio em Manaus em meio à repercussão de críticas à Zona Franca

Mobilização do partido Missão ocorre nesta quarta-feira (2), na capital amazonense, após o candidato defender mudanças no modelo econômico da região e dias depois de ter a campanha digital temporariamente suspensa pelo TSE.


Manaus — O candidato à Presidência da República Renan Santos, do partido Missão, terá um ato de apoio em Manaus nesta quarta-feira (2). A mobilização está prevista para ocorrer em frente à Arena da Amazônia, na Avenida Constantino Nery, e acontece em meio à repercussão das declarações do presidenciável sobre a Zona Franca de Manaus (ZFM).

A manifestação também ocorre após uma decisão do ministro Dias Toffoli, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que inicialmente havia suspendido a propaganda eleitoral de Renan na internet, além de restringir temporariamente o acesso da campanha a recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) e a debates.

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Na terça-feira (1º), entretanto, Toffoli autorizou novamente a campanha digital do candidato, restabelecendo também o recebimento de recursos do fundo eleitoral e sua participação em debates.

 

Candidato à Presidência da República Renan Santos (Missão) – Foto: Reprodução/Missão

 

Ato acontece após críticas à Zona Franca

O diretório estadual do Missão convocou militantes e apoiadores para participar da manifestação em Manaus. Segundo a legenda, atos semelhantes foram organizados em outras capitais brasileiras.

A mobilização ocorre em um momento de repercussão das declarações de Renan Santos sobre o modelo econômico do Amazonas.

Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, publicada em 31 de agosto, o candidato defendeu uma reformulação da Zona Franca de Manaus e questionou a manutenção dos incentivos fiscais concedidos às empresas instaladas na região.

Renan classificou o modelo como uma “economia artificial” e defendeu uma transição para atividades que, segundo sua avaliação, sejam menos dependentes de benefícios tributários.

O candidato também citou empresas instaladas no Polo Industrial de Manaus ao argumentar sobre o volume de incentivos fiscais associados ao modelo.

 

 

Polo Industrial movimenta bilhões

As declarações repercutiram no Amazonas diante do peso econômico da Zona Franca para a região.

Dados da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) apontam que o Polo Industrial de Manaus faturou R$ 121,76 bilhões no primeiro semestre de 2026.

No período, a média mensal de empregos alcançou aproximadamente 130,9 mil postos de trabalho. As exportações somaram cerca de US$ 391 milhões.

Entre os segmentos de maior participação no faturamento estão bens de informática, duas rodas, eletroeletrônicos e produtos químicos.

Os números ajudam a dimensionar o impacto de eventuais mudanças no modelo econômico defendido pelo candidato, principalmente em relação ao emprego industrial e à arrecadação gerada pelas atividades instaladas em Manaus.

Renan já havia questionado incentivos

As críticas à Zona Franca não começaram com a entrevista de agosto.

Durante uma sabatina realizada pelo G4 em parceria com O Antagonista, Renan Santos voltou a questionar a eficiência dos incentivos concedidos ao modelo amazonense.

Na ocasião, o candidato comparou a Zona Franca com o agronegócio e afirmou considerar o setor agropecuário um exemplo de atividade econômica mais eficiente.

As declarações provocaram reação em um estado no qual a Zona Franca representa um dos principais pilares da economia e concentra uma ampla cadeia de fornecedores, trabalhadores e empresas.

Justiça Eleitoral suspendeu campanha digital

A repercussão política ocorre simultaneamente a um episódio envolvendo a campanha eleitoral de Renan Santos.

Em decisão tomada no fim de agosto, o ministro Dias Toffoli, do TSE, havia determinado a suspensão temporária da propaganda eleitoral do candidato na internet.

A decisão também atingia o recebimento de recursos do Fundo Eleitoral e a participação de Renan em debates, entrevistas e sabatinas.

O motivo estava relacionado à identificação dos perfis utilizados pela campanha nas redes sociais. Segundo informações divulgadas sobre o caso, parte das contas utilizadas pelo candidato não havia sido informada inicialmente à Justiça Eleitoral dentro do prazo estabelecido.

A medida provocou reação do partido Missão, que classificou a decisão como desproporcional e anunciou que buscaria revertê-la.

Campanha foi liberada novamente

Na terça-feira (1º), Toffoli reconsiderou parte da decisão e autorizou a retomada da propaganda eleitoral digital de Renan Santos.

Também foram restabelecidos o recebimento dos recursos do Fundo Eleitoral e a participação do candidato em debates e outros espaços de exposição eleitoral.

A decisão, porém, manteve exigências relacionadas à regularização e identificação dos perfis utilizados pela campanha.

Com a reversão da medida, o partido voltou a concentrar esforços na mobilização de apoiadores e na divulgação da candidatura.

Passagem por Manaus ganha peso político

O ato desta quarta-feira ocorre, portanto, em um cenário de dois debates relevantes para a candidatura de Renan Santos.

De um lado, o candidato tenta ampliar sua presença política no Amazonas enquanto enfrenta críticas por suas propostas para a Zona Franca. De outro, a campanha busca transformar a recente disputa com a Justiça Eleitoral em uma pauta de mobilização de seus apoiadores.

Para o Amazonas, o posicionamento de Renan sobre a ZFM ganha importância especial devido ao tamanho do Polo Industrial de Manaus e à quantidade de empregos vinculados direta e indiretamente ao modelo.

A manifestação em frente à Arena da Amazônia deve ser acompanhada pela militância do Missão e representa uma das primeiras oportunidades de o candidato medir sua capacidade de mobilização no estado durante a corrida presidencial de 2026.

 

 

Nota editorial:

Renan Santos, é perfeitamente legítimo criticar incentivos fiscais, discutir o tamanho do Estado e defender uma economia mais liberal. O que não parece razoável é analisar a Zona Franca de Manaus como se ela fosse apenas um simples conjunto de “privilégios tributários” concedidos a empresários.

A Zona Franca de Manaus precisa ser entendida dentro da realidade brasileira — e, principalmente, da realidade amazônica.

Manaus está localizada no coração da Amazônia, a milhares de quilômetros dos grandes centros consumidores e industriais do país. Produzir na região significa enfrentar custos logísticos enormes, distâncias continentais e dificuldades históricas de infraestrutura. Os incentivos fiscais surgiram justamente como um mecanismo para compensar parte dessas desvantagens e tornar possível a existência de um polo industrial competitivo naquela região.

E o resultado está longe de ser irrelevante.

Em 2025, o Polo Industrial de Manaus reuniu cerca de 600 indústrias, alcançou faturamento de aproximadamente R$ 227,67 bilhões e sustentou mais de meio milhão de empregos diretos e indiretos, segundo dados oficiais da Suframa.

Mas talvez a maior vantagem da Zona Franca seja aquela que muitos críticos esquecem de colocar na conta: a preservação da Amazônia.

Sem uma economia urbana forte, industrializada e capaz de gerar emprego e renda para milhões de pessoas, qual seria a alternativa econômica para boa parte da população amazônica?

  • Mais pressão sobre a floresta.
  • Mais exploração predatória de madeira.
  • Mais avanço desordenado sobre áreas naturais.
  • Mais atividades econômicas dependentes da derrubada da floresta.

A Zona Franca criou uma alternativa: concentrar grande parte da atividade econômica em Manaus e gerar riqueza sem exigir que milhões de hectares da floresta sejam transformados em áreas de produção. Isso não significa que o modelo seja perfeito ou que não precise de modernização. Significa apenas reconhecer uma realidade: desenvolvimento econômico e preservação ambiental precisam caminhar juntos na Amazônia.

Outro ponto importante é que a Zona Franca não pode ser tratada simplesmente como dinheiro público entregue sem contrapartida. As empresas instaladas no modelo estão submetidas a regras, projetos industriais, exigências produtivas e investimentos. O modelo também impulsiona cadeias de serviços, logística, comércio, tecnologia e fornecedores.

Aliás, os números recentes mostram que o Polo Industrial continua atraindo investimentos e gerando empregos, o que demonstra que não se trata de uma estrutura economicamente irrelevante ou artificial.

É claro que a Zona Franca precisa evoluir. Precisa investir mais em tecnologia, inovação, pesquisa, bioeconomia e integração com o interior do Amazonas. Precisa reduzir dependências e preparar-se para os desafios da nova economia.

Mas acabar com a Zona Franca ou simplesmente demonizar o modelo seria ignorar a pergunta mais importante: o que colocar no lugar?

Porque é fácil dizer que os incentivos devem acabar. Difícil é explicar como substituir centenas de milhares de empregos e bilhões de reais movimentados pela economia amazônica sem provocar uma crise social gigantesca.

A discussão séria, portanto, não deveria ser entre “Zona Franca boa” ou “Zona Franca ruim”.

A pergunta deveria ser:

Como transformar a Zona Franca de Manaus em um modelo ainda mais moderno, competitivo, tecnológico e sustentável, preservando aquilo que ela já conseguiu construir?

Porque defender a Amazônia não é apenas defender árvores.

É também garantir emprego, renda, dignidade e oportunidades para quem vive nela.

E, até hoje, poucos modelos econômicos conseguiram fazer isso na escala da Zona Franca de Manaus.