Amazônia

Amazonas

Dragagem no rio Solimões gera impasse entre órgãos ambientais e DNIT e preocupa comunidades ribeirinhas

Intervenção no canal de navegação entre Manaus e Careiro da Várzea foi realizada por parte do DNIT antes da conclusão do licenciamento pelo Ipaam. Moradores temem agravamento das chamadas terras caídas às margens do rio Solimões. A ANTAQ já havia acompanhado tecnicamente a travessia antes do início da dragagem, em 20 de outubro.


O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) iniciou a dragagem no rio Solimões, em Careiro da Várzea, Região Metropolitana de Manaus, antes de obter o licenciamento ambiental do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam). A obra foi interrompida devido às críticas da Prefeitura e às manifestações de moradores de comunidades ribeirinhas, que temem impactos nas margens do rio.

Continua depois da Publicidade

As atividades começaram na terça-feira (27 de outubro), em resposta a uma solicitação dos vereadores Regilson Brito e Eduardo Barbosa, feita por meio do Requerimento nº 704/2026, apresentado na Câmara Municipal de Careiro da Várzea.

Segundo informações obtidas pela reportagem de A CRÍTICA, no primeiro dia a draga trabalhou cerca de uma hora. A atividade foi interrompida depois que a Prefeitura questionou a intervenção e exigiu as autorizações e licenças pertinentes.

Apesar da interrupção inicial, os equipamentos voltaram a operar por cerca de 40 minutos na quinta-feira (29), o que causou preocupação entre as comunidades que vivem próximas ao trecho.

DNIT afirma que intervenção é emergencial

Em resposta à reportagem, o DNIT disse que a dragagem no canal de navegação da travessia entre Manaus, pelo Porto da Ceasa, e Careiro da Várzea é emergencial.

Segundo o órgão federal, o objetivo é recuperar as condições de navegabilidade prejudicadas pelo assoreamento e pela formação de bancos de areia, problemas agravados pela estiagem que afeta a região amazônica.

O departamento também argumentou que tem competência legal para administrar e manter a infraestrutura de transporte sob sua responsabilidade. Como fundamentação para a intervenção, citou a Portaria nº 5.208, de 19 de outubro de 2026, que ratificou a declaração de situação de emergência no trecho da travessia.

O documento, publicado no Diário Oficial da União em 20 de outubro, destaca o prejuízo às condições de navegabilidade e a necessidade de medidas imediatas para garantir a segurança e a continuidade das operações de transporte.

O DNIT ainda ressaltou que a execução de serviços em infraestrutura federal não depende, por si só, de autorização da Prefeitura. No entanto, reconheceu que essa prerrogativa não elimina a obrigação de respeitar a legislação ambiental e as manifestações dos órgãos competentes, quando necessários.

Ipaam informa que licenciamento está em análise

Existe uma divergência entre as informações dos órgãos envolvidos. Enquanto o DNIT confirmou que a dragagem estava sendo realizada, o Ipaam informou que ainda está analisando o pedido de licenciamento ambiental feito pelo departamento federal.

Segundo o instituto estadual, até o momento de sua manifestação, não havia sido constatado o início efetivo da dragagem, apenas a movimentação de máquinas e equipamentos na área.

O Ipaam ressaltou que a realização da atividade depende do cumprimento dos procedimentos necessários para a validade da licença ambiental.

O órgão também informou que poderá fiscalizar os serviços e verificar o cumprimento das condicionantes ambientais caso a intervenção seja autorizada.

Ribeirinhos temem avanço das terras caídas

A mobilização dos moradores começou após a chegada dos equipamentos para a operação. Comunidades próximas ao trecho procuraram a Prefeitura de Careiro da Várzea, o Ministério Público do Estado do Amazonas (MPAM) e a Defensoria Pública para pedir providências.

A principal preocupação é que a movimentação do leito do rio durante a dragagem possa causar instabilidade nas margens e aumentar os riscos de desbarrancamento.

O temor é relacionado ao fenômeno das terras caídas, que é o desprendimento de grandes porções de solo das margens dos rios, que desmoronam e são arrastadas pela correnteza.

Esse fenômeno é comum na região amazônica e pode causar danos a moradias, estruturas comunitárias, áreas de cultivo e locais utilizados para atracação de embarcações.

Um morador da área, que pediu para não ser identificado, contou que a atividade começou pelo lado direito do rio Solimões e foi interrompida após a chegada de autoridades.

“Algumas autoridades vieram aqui e eles pararam, mas pelo que sabemos não tem licença. Começou nesta terça-feira a dragagem no lado direito do rio Solimões”, disse.

A preocupação dos moradores envolve não apenas possíveis alterações ambientais, mas também a segurança de famílias que vivem próximas às margens e dependem do rio para transporte, alimentação e atividades econômicas.

Estiagem prejudica transporte fluvial no Amazonas

A operação ocorre em um momento de redução dos níveis dos rios amazônicos, o que prejudica a navegação e aumenta a necessidade de intervenções para manter os corredores hidroviários em funcionamento.

Esse problema ficou evidente após as secas históricas registradas em 2023 e 2024, quando a redução do volume de água dificultou o transporte de passageiros e mercadorias, além de afetar o abastecimento de comunidades isoladas.

Em maio de 2026, o Ministério de Portos e Aeroportos informou que o Governo Federal havia antecipado medidas para reduzir os impactos de uma possível nova estiagem na Amazônia. Entre as ações previstas estavam dragagens, manutenção hidroviária, reforço da sinalização náutica e monitoramento das condições de navegação.

O DNIT destaca que os bancos de areia móveis são um dos maiores desafios para a navegação em determinados trechos dos rios Negro e Solimões, exigindo intervenções de manutenção e planejamento hidroviário.

No caso da travessia entre Manaus e Careiro da Várzea, a manutenção do canal é considerada estratégica para o deslocamento de veículos, passageiros e cargas entre a capital amazonense e municípios do interior.

Mais de 124 mil famílias afetadas pela estiagem

Os dados mais recentes do Governo do Amazonas mostram a gravidade da crise climática no estado.

De acordo com o boletim divulgado em outubro pelo Comitê Permanente de Enfrentamento a Eventos Climáticos e Ambientais, 46 municípios amazonenses estavam em situação de emergência em virtude da estiagem. O levantamento também registrou 124.887 famílias afetadas pelos efeitos da redução dos níveis dos rios e da falta de chuvas.

O município de Careiro da Várzea está entre as localidades que enfrentam situação de emergência.

No âmbito federal, o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional informou, em 21 de outubro, a aprovação de R$ 32,5 milhões para ações de assistência humanitária no Amazonas, contemplando 25 planos de trabalho relacionados à estiagem e às queimadas.

A situação reforça a importância dos rios para a infraestrutura de transporte e para a sobrevivência das populações ribeirinhas, especialmente durante os períodos de vazante.

Dragagem gera debate sobre desenvolvimento e proteção ambiental

A situação no Careiro da Várzea destaca um desafio recorrente na Amazônia: conciliar a manutenção da infraestrutura hidroviária com a proteção dos ecossistemas e a segurança das comunidades tradicionais.

A dragagem pode ajudar a recuperar a profundidade dos canais e facilitar a passagem de embarcações, principalmente em períodos de estiagem. No entanto, a intervenção exige avaliação técnica e ambiental para identificar possíveis impactos no leito dos rios, na dinâmica dos sedimentos e na estabilidade das margens.

A principal questão agora é saber em que condições a operação poderá ser retomada e que medidas de prevenção e fiscalização serão exigidas pelos órgãos ambientais.

Até a conclusão do licenciamento, existe um impasse entre a necessidade de garantir a navegabilidade da travessia e as preocupações dos moradores com os possíveis efeitos da intervenção no rio Solimões e nas comunidades que dependem dele.

29 de outubro: o portal Politiza Amazonas publicou informações sobre o medo de cerca de 180 famílias da comunidade da Prainha, que têm medo de perder suas casas devido a desmoronamentos. A matéria informa que moradores procuraram a Defensoria Pública. Leia a reportagem .

30 de outubro: o portal Fonte Boa em Tempo publicou novas informações sobre a mobilização comunitária, incluindo questionamentos sobre a retirada de areia e a defesa de uma rota alternativa para as balsas. Leia a publicação .

Existe uma informação importante, a ANTAQ já havia acompanhado tecnicamente a travessia antes do início da dragagem, em 20 de outubro. Isso mostra que a intervenção não foi feita de forma isolada, mas estava relacionada a um problema de navegabilidade identificado anteriormente.

Perguntas relevantes que não foram respondidas:

O DNIT tem autorização ou enquadramento formal que permita iniciar a intervenção antes da conclusão do licenciamento estadual?

Foi feito um estudo técnico sobre os riscos de erosão e desmoronamento nas margens próximas à comunidade?

A Prefeitura, o Ministério Público e a Defensoria tomaram alguma medida formal após as denúncias?

A dragagem foi efetivamente suspensa e há previsão de retomada?

A falta de esclarecimentos públicos sobre os riscos da intervenção afeta diretamente cerca de 180 famílias que vivem na comunidade da Prainha.

O Portal CINCO usou dados publicados por órgãos públicos em outubro de 2026:

Situação da estiagem:

  • Boletim do Governo do Amazonas, atualizado em 27 de outubro, indica 46 municípios em situação de emergência e 124.887 famílias afetadas.
  • Emergência na travessia: a Portaria nº 5.208/2026 ratificou oficialmente a situação de emergência no trecho entre o Porto da Ceasa e Careiro da Várzea.
  • Recursos federais: o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional anunciou R$ 32,5 milhões para ações de assistência humanitária no Amazonas.
  • Planejamento de dragagens: o Ministério de Portos e Aeroportos já havia anunciado, em maio, medidas preventivas para preservar a navegação durante a estiagem de 2026.