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O resultado das eleições de 2026 e as decisões do próximo governo serão determinantes para o cumprimento das metas ambientais assumidas pelo Brasil até 2030. O país terá de avançar no combate ao desmatamento, na recuperação da vegetação nativa e na redução das emissões de gases de efeito estufa em um cenário de agravamento dos eventos climáticos extremos.
O alerta foi destacado em reportagem publicada pela Rádio França Internacional (RFI) em 9 de outubro. Segundo especialistas ouvidos pela emissora, a continuidade das políticas ambientais será fundamental para evitar danos potencialmente irreversíveis a ecossistemas como a Amazônia, o Cerrado, o Pantanal e a Caatinga.
A preocupação envolve não apenas a preservação da biodiversidade, mas também a segurança hídrica, a produção agropecuária, a saúde pública e a sobrevivência de comunidades que dependem diretamente dos recursos naturais.
Cientista alerta para risco de colapso da Amazônia
O climatologista Carlos Nobre, pesquisador sênior do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP), alerta que a combinação entre desmatamento, degradação florestal, queimadas e aquecimento global pode levar a Amazônia a um ponto de não retorno.
Esse conceito descreve um limite a partir do qual as alterações ambientais podem se tornar tão intensas que a floresta perde a capacidade de se recuperar nas condições anteriores, passando por transformações profundas em sua estrutura e funcionamento.
Segundo Nobre, sem a interrupção do desmatamento e da degradação, acompanhada da restauração florestal, quatro biomas brasileiros — Amazônia, Cerrado, Pantanal e Caatinga — podem enfrentar riscos críticos até 2040. O pesquisador alerta que as consequências podem se agravar nas décadas seguintes.
O cenário não significa que exista uma data exata e cientificamente estabelecida para o desaparecimento desses biomas. Trata-se de um alerta sobre os riscos associados à combinação de pressões humanas e mudanças climáticas.
Em estudo publicado na revista Estudos Avançados, da USP, Nobre e outros pesquisadores também destacam a necessidade de interromper a destruição e promover a regeneração da Amazônia. A floresta tem papel fundamental no armazenamento de carbono, na manutenção da biodiversidade e na reciclagem da umidade que contribui para as chuvas em diferentes regiões do Brasil.
Brasil precisa cumprir metas ambientais até 2030
Entre os principais compromissos brasileiros está o fim do desmatamento ilegal até 2030, associado à proteção da vegetação nativa e à recuperação de áreas florestais.
O país também estabeleceu a meta de restaurar 12 milhões de hectares de florestas. O desafio exige fiscalização, recursos financeiros, monitoramento por satélite e políticas públicas capazes de impedir que áreas preservadas sejam destruídas novamente.
Para Caroline Medeiros Frasson, diretora-executiva da Laclima, organização que reúne especialistas em direito ambiental, os resultados obtidos com o fortalecimento das ações de fiscalização demonstram que é possível avançar no combate ao desmatamento.
A continuidade dessas iniciativas, entretanto, dependerá das prioridades do governo que assumirá a Presidência da República em 1º de janeiro de 2027.
O Brasil também apresentou à Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima uma nova Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC), instrumento que formaliza os compromissos climáticos de cada país no âmbito do Acordo de Paris.
A meta brasileira para 2035 prevê reduzir as emissões líquidas de gases de efeito estufa entre 59% e 67%, em comparação com os níveis de 2005. O compromisso amplia a necessidade de mudanças estruturais na proteção das florestas, na agropecuária, na indústria e no setor energético.
Desmatamento tem peso nas emissões brasileiras
O controle da devastação florestal é uma das medidas mais importantes para reduzir as emissões nacionais. O corte e a queima da vegetação liberam gases de efeito estufa armazenados na biomassa e no solo, além de diminuir a capacidade dos ecossistemas de absorver carbono.
Dados citados pela RFI atribuem à mudança no uso da terra e à destruição da vegetação nativa aproximadamente 42% das emissões brasileiras, seguidas pela agropecuária e pelo setor de energia.
Esse perfil diferencia o Brasil de países cujas emissões estão concentradas principalmente na queima de combustíveis fósseis. No caso brasileiro, combater o desmatamento é essencial para atingir as metas climáticas, embora também sejam necessárias medidas para reduzir emissões da agricultura, da indústria e dos transportes.
A especialista em políticas climáticas Natalie Unterstell, do Instituto Talanoa, destaca que os próximos anos serão decisivos para manter o país no caminho de cumprimento dos compromissos assumidos internacionalmente.
Recuperação de terras degradadas também é prioridade
Além de conter a destruição de florestas, o Brasil precisa recuperar áreas que perderam parte de sua capacidade produtiva e ecológica.
Em agosto de 2026, durante a 17ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação, realizada na Mongólia, o governo brasileiro apresentou uma meta voluntária de neutralidade da degradação da terra até 2030.
O plano prevê ações de recuperação e restauração em mais de 163 mil quilômetros quadrados de áreas degradadas. As iniciativas incluem a regeneração da vegetação nativa, sistemas agroflorestais e ações em unidades de conservação, territórios indígenas, áreas de preservação permanente e bacias hidrográficas.
A dimensão do desafio é expressiva: segundo o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, aproximadamente 2,3 milhões de quilômetros quadrados do território brasileiro apresentam algum nível de degradação.
O conjunto de medidas pretende conter novos danos, recuperar áreas comprometidas e estimular formas de uso da terra que conciliem produção e conservação.
Eventos extremos ameaçam populações e atividades econômicas
Os efeitos da degradação ambiental ultrapassam os limites das áreas desmatadas. A perda de vegetação pode comprometer a regulação do ciclo da água, aumentar a exposição dos solos à erosão e intensificar a vulnerabilidade de determinadas regiões a secas, incêndios e outros eventos extremos.
Na Amazônia, as secas severas têm provocado dificuldades de navegação, isolamento de comunidades, redução da disponibilidade de água e impactos sobre a fauna aquática. No Sul do país, as enchentes recentes evidenciaram os prejuízos humanos e econômicos associados a desastres climáticos.
Especialistas ouvidos pela RFI alertam que a repetição e o agravamento desses eventos podem afetar a agropecuária, um dos principais setores da economia brasileira, além de comprometer o abastecimento de água e a geração de energia.
Os impactos tendem a ser mais severos para populações de baixa renda, comunidades tradicionais e moradores de áreas com infraestrutura limitada, que geralmente dispõem de menos recursos para prevenir perdas e se recuperar de desastres.
Petróleo e mineração ampliam o debate ambiental
Outro desafio para o próximo governo será conciliar a exploração de recursos naturais com os compromissos climáticos e a proteção dos ecossistemas.
Projetos de petróleo e gás na Margem Equatorial brasileira, assim como iniciativas de exploração de minerais críticos e terras raras, colocam em discussão os riscos ambientais, os mecanismos de licenciamento e a proteção das comunidades potencialmente afetadas.
Esses recursos são considerados estratégicos para a economia e para diferentes cadeias industriais. Entretanto, sua exploração pode gerar impactos sobre ecossistemas sensíveis e comunidades locais, dependendo da localização dos empreendimentos, das técnicas empregadas e da qualidade da fiscalização.
A definição de regras claras, a avaliação rigorosa dos impactos e o cumprimento das exigências ambientais serão fundamentais para reduzir riscos.
O debate também envolve a transição energética: ampliar a oferta de petróleo pode gerar receitas e investimentos, mas precisa ser analisado à luz das metas de redução de emissões e dos compromissos internacionais assumidos pelo Brasil.
Novo Congresso pode dificultar a agenda climática
A composição do Congresso Nacional eleito em outubro de 2026 acrescenta outro elemento de preocupação para organizações ambientais.
Levantamento do Observatório do Clima, divulgado após as eleições, indica que 68,9% dos parlamentares eleitos estão nas faixas de baixa ou muito baixa convergência ambiental, conforme a metodologia utilizada pela entidade.
No Senado, 64 dos 81 parlamentares foram classificados nessas categorias, o equivalente a 79%. Na Câmara dos Deputados, o grupo reúne 345 dos 513 integrantes, cerca de 67%.
A análise considera o histórico e a atuação dos parlamentares em temas como licenciamento ambiental, proteção dos biomas, terras indígenas, transição energética e redução de emissões.
Segundo a avaliação repercutida pela Rádio Senado, o perfil da próxima legislatura pode dificultar a aprovação de medidas de proteção ambiental e abrir espaço para propostas de flexibilização de regras e redução de salvaguardas.
O levantamento mede a convergência dos parlamentares com a agenda ambiental segundo critérios próprios da organização; portanto, não deve ser interpretado, isoladamente, como prova de que cada parlamentar votará da mesma maneira em todas as propostas.
Escolhas políticas terão impacto nas próximas décadas
As decisões tomadas entre 2027 e 2030 terão importância direta para a capacidade do Brasil de cumprir suas metas climáticas e de conservação. O resultado dependerá da continuidade da fiscalização, da restauração de áreas degradadas, da proteção dos territórios indígenas e de outras áreas preservadas e da mobilização de investimentos públicos e privados.
A política ambiental também terá consequências para a posição internacional do país, que busca atrair recursos para projetos de conservação, restauração florestal e desenvolvimento de uma economia de menor emissão de carbono.
Mais do que cumprir compromissos diplomáticos, o desafio será reduzir riscos concretos para a população e para a economia. A preservação dos biomas brasileiros está ligada à disponibilidade de água, à estabilidade dos sistemas agrícolas, à proteção da biodiversidade e à capacidade de enfrentar os efeitos das mudanças climáticas.
O alerta dos cientistas é que a janela de oportunidade para evitar transformações ambientais graves não é ilimitada. Para que as metas de 2030 saiam do papel, será necessário manter políticas consistentes e transformar compromissos internacionais em ações efetivas em todo o território nacional.
