Brasil

Economia

Venda de gigante brasileira de terras raras aos EUA acende alerta sobre soberania mineral e futuro industrial do Brasil

Com controle da única produtora comercial de terras raras do país, empresa norte-americana passa a integrar um projeto estratégico financiado por Washington. Negócio levanta questionamentos sobre autonomia nacional, transferência de tecnologia e riscos de o Brasil exportar matérias-primas sem desenvolver sua própria indústria de alto valor agregado.


Mineradora Serra Verde (GO) foi comprada por empresa americana por mais de dois bilhões de dólares para concorrer com a Ásia — Foto: Divulgação/Serra Verde

A transferência do controle da mineradora Serra Verde para a norte-americana USA Rare Earth colocou os recursos minerais brasileiros no centro de uma disputa econômica e geopolítica internacional. Localizada em Minaçu, no norte de Goiás, a mina Pela Ema é a única operação comercial em escala relevante de produção de terras raras pesadas e leves no Brasil, segundo as informações divulgadas pela empresa e pela reportagem original.

A aquisição, concluída em setembro de 2026, envolve US$ 300 milhões em pagamento e a emissão de 126,8 milhões de ações da compradora. A operação representa um movimento estratégico dos Estados Unidos para ampliar o acesso a minerais fundamentais para a indústria de alta tecnologia, a transição energética e o setor de defesa.

Continua depois da Publicidade

O negócio ganha importância porque o Brasil possui uma das maiores reservas conhecidas de terras raras do mundo, mas ainda ocupa uma posição limitada nas etapas industriais mais sofisticadas dessa cadeia produtiva.

Um dos aspectos que chamam a atenção é que a própria USA Rare Earth reconheceu, em documento apresentado à Securities and Exchange Commission (SEC), órgão regulador do mercado de capitais norte-americano, que a operação no Brasil está sujeita a riscos políticos, eleitorais, regulatórios e econômicos.

Entre os fatores mencionados estão as eleições brasileiras, possíveis mudanças de governo, alterações legislativas e a nova política nacional para minerais críticos e estratégicos.

O documento revela que a empresa considera a legislação brasileira e a possibilidade de maior fiscalização estatal fatores capazes de afetar seus negócios.

Estados Unidos garantem fornecimento de minerais por 15 anos

Um dos dados mais relevantes para compreender a dimensão do negócio é o acordo de fornecimento firmado entre a Serra Verde e o governo norte-americano.

Em agosto de 2026, a mineradora anunciou a conclusão de um contrato de 15 anos que prevê a compra de 100% da produção da primeira fase do empreendimento. O acordo estabelece preços mínimos para elementos como neodímio, praseodímio, térbio e disprósio, considerados fundamentais para a fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho.

O governo dos Estados Unidos também anunciou, em 24 de agosto, um investimento de US$ 750 milhões por meio de seu Departamento de Defesa, como parte de uma estrutura de financiamento de US$ 1,55 bilhão destinada a garantir o fornecimento dos minerais extraídos em Goiás.

Na prática, a estratégia norte-americana vai além da aquisição de uma mineradora. O objetivo é construir uma cadeia produtiva integrada, envolvendo extração, processamento, transformação dos minerais em metais e fabricação de ímãs permanentes.

A própria USA Rare Earth anunciou que a combinação com a Serra Verde permitirá integrar a produção mineral brasileira às suas capacidades industriais de processamento e fabricação de ímãs, criando uma estrutura voltada ao abastecimento de mercados fora da Ásia.

O que o Brasil perde com a venda?

A principal preocupação não está necessariamente na presença de capital estrangeiro na mineração, mas na possibilidade de o Brasil permanecer restrito à extração de recursos naturais enquanto outros países concentram as etapas mais rentáveis da cadeia produtiva.

As terras raras são utilizadas na fabricação de motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos, sistemas de comunicação, componentes de satélites e tecnologias militares. Esses materiais também são importantes para equipamentos de energia renovável e aplicações industriais avançadas.

Ao perder o controle empresarial da Serra Verde, o Brasil deixa de ter participação direta nas decisões estratégicas de uma operação que ocupa posição diferenciada no mercado internacional. Isso não significa que o país tenha perdido automaticamente a propriedade de seus recursos minerais ou sua competência regulatória, mas reduz sua influência sobre decisões comerciais, investimentos e estratégias industriais da companhia.

O controle dos recursos estratégicos é fundamental para a soberania –  Foto: Ísis Medeiros

Entre os principais riscos para a economia brasileira estão:

  • Perda de oportunidades industriais: o processamento avançado, a fabricação de ligas metálicas e a produção de ímãs podem ocorrer fora do Brasil, reduzindo a possibilidade de geração de empregos industriais qualificados no território nacional.

  • Dependência tecnológica: o país pode continuar fornecendo matéria-prima enquanto precisa importar produtos industrializados de maior valor agregado.

  • Menor influência sobre o destino da produção: contratos de longo prazo direcionam a produção para compradores estrangeiros, limitando a disponibilidade comercial dos materiais para o desenvolvimento de uma cadeia industrial brasileira.

  • Redução do protagonismo estratégico: o controle empresarial estrangeiro transfere para outro país decisões importantes sobre expansão, investimentos e integração da operação a cadeias internacionais.

  • Risco de concentração dos benefícios econômicos no exterior: embora a mineração gere empregos, impostos e receitas no Brasil, parte expressiva do valor agregado pode ser capturada pelas etapas industriais realizadas em outros países.

A questão é especialmente importante porque o Brasil possui reservas minerais expressivas, mas ainda precisa ampliar sua capacidade de pesquisa, separação química, refino e fabricação de componentes tecnológicos.

A nova legislação brasileira e a disputa pela soberania mineral

A discussão sobre a Serra Verde ocorre justamente quando o país começa a estruturar uma política específica para evitar que sua riqueza mineral seja aproveitada exclusivamente como fornecedora de matéria-prima.

Em 16 de setembro de 2026, foi sancionada a Lei nº 15.506, que instituiu a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos e criou o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos (CIMCE), vinculado à Presidência da República.

A legislação estabelece a soberania nacional e a supremacia do interesse público como princípios da política mineral. Também cria instrumentos para acompanhar investimentos, operações societárias e atividades relacionadas aos recursos considerados estratégicos.

Outro ponto importante é o estímulo à pesquisa, ao beneficiamento e à transformação mineral dentro do Brasil, com mecanismos de financiamento e incentivos à industrialização.

Um detalhe que merece atenção: diferentemente do que constava na reportagem original, a regulamentação inicial da nova política já foi publicada por meio do Decreto nº 13.118, também em 16 de setembro de 2026. Portanto, a discussão atual envolve a implementação dos instrumentos legais e sua aplicação às operações em andamento.

Foto: Dominik Vaanyi/Unsplash

Brasil tem 23% das reservas mundiais, mas produz menos de 1%

A dimensão estratégica da questão fica ainda mais evidente quando se observam os números internacionais.

De acordo com dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), compilados no relatório Mineral Commodity Summaries 2026, o Brasil possui aproximadamente 21 milhões de toneladas em reservas de terras raras, atrás apenas da China, que registra 44 milhões de toneladas.

Apesar dessa riqueza geológica, a produção brasileira estimada em 2025 foi de apenas 2 mil toneladas, diante de 270 mil toneladas produzidas pela China.

Produção de terras raras em 2025 /Estimativas em toneladas de óxidos de terras raras.
Produção
China 270 mil t
EUA 51 mil t
Austrália 29 mil t
Brasil 2 mil t

Fonte: USGS, Mineral Commodity Summaries 2026.

Os números mostram um problema estrutural: o Brasil possui recursos naturais, mas ainda não desenvolveu capacidade industrial proporcional ao seu potencial mineral.

A China, por sua vez, consolidou uma posição dominante não apenas na extração, mas também no processamento, na separação dos elementos e na fabricação de ímãs permanentes.

É justamente esse modelo de integração industrial que os Estados Unidos tentam construir, utilizando investimentos públicos, contratos de fornecimento e aquisições empresariais.

O risco para o Brasil é repetir, no setor das terras raras, um modelo econômico baseado na exportação de recursos naturais e na importação de produtos industrializados.

Cade e STF entraram na discussão sobre a operação

A negociação também provocou questionamentos nas instituições brasileiras.

Em maio de 2026, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) abriu procedimento para investigar a combinação empresarial entre Serra Verde e USA Rare Earth, além do contrato de fornecimento de 15 anos.

Em agosto, porém, o órgão arquivou a apuração por entender que a operação não se enquadrava nos critérios de notificação obrigatória previstos na legislação concorrencial, considerando o faturamento do grupo comprador no Brasil.

No Supremo Tribunal Federal, a Rede Sustentabilidade apresentou a ADPF 1320, questionando os efeitos da operação sobre a soberania nacional e a exploração de recursos minerais estratégicos. A ação foi distribuída ao ministro Nunes Marques.

Esses episódios demonstram que a discussão ultrapassa os interesses comerciais das empresas e envolve questões relacionadas à política mineral, à segurança econômica e ao controle de ativos estratégicos.

O desafio brasileiro: transformar riqueza mineral em desenvolvimento

A venda da Serra Verde evidencia um dilema para o Brasil: como atrair investimentos internacionais sem abrir mão da construção de uma indústria nacional de tecnologia e transformação mineral?

A presença de empresas estrangeiras pode trazer capital, conhecimento técnico, acesso a mercados e capacidade de investimento. Entretanto, esses benefícios não garantem, por si só, que o país desenvolverá uma cadeia industrial própria.

O desafio está em estabelecer contrapartidas que estimulem a instalação de unidades de processamento, centros de pesquisa, formação de profissionais especializados e fabricação de produtos de maior valor agregado em território nacional.

A nova Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos oferece instrumentos para essa discussão, mas sua efetividade dependerá da implementação das regras, da fiscalização e da capacidade do governo de negociar os interesses nacionais.

No caso da Serra Verde, a questão central é saber quanto da riqueza extraída do subsolo brasileiro será efetivamente transformada em empregos qualificados, tecnologia, arrecadação e desenvolvimento industrial dentro do país.

Em um cenário de disputa internacional por recursos fundamentais para a economia do futuro, possuir grandes reservas minerais representa uma oportunidade. Transformá-las em capacidade produtiva e autonomia tecnológica é o verdadeiro desafio brasileiro.