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Fobia social: o que acontece por trás do medo de ser julgado e como o transtorno afeta a vida de quem convive com ele

Relato de Felca sobre bullying, isolamento e dependência de álcool reacende o debate sobre a ansiedade social; especialistas explicam os sintomas, as diferenças em relação à timidez e os caminhos para o tratamento.


Foto: reprodução

 

O medo de falar com desconhecidos, a angústia antes de sair de casa e a sensação de estar sendo observado o tempo inteiro podem parecer, para quem vê de fora, apenas timidez. Para quem convive com esses sentimentos de forma intensa e persistente, porém, situações comuns podem se transformar em obstáculos que afetam os estudos, o trabalho, os relacionamentos e a liberdade de ir e vir.

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O tema ganhou destaque nesta terça-feira (20) após o influenciador digital Felca, nome artístico de Felipe Bressanim Pereira, revelar publicamente seu diagnóstico de transtorno de ansiedade social, também conhecido como fobia social. Em um vídeo publicado após meses afastado das redes, ele relatou episódios de bullying e agressões durante a vida escolar, além das dificuldades enfrentadas na vida adulta para participar de situações sociais.

O depoimento chamou a atenção não apenas pela exposição de experiências dolorosas, mas também pelo relato de uso abusivo de álcool como uma tentativa de enfrentar o medo de interagir com outras pessoas. O caso ajuda a ampliar uma discussão importante: a fobia social vai muito além de ser uma pessoa reservada ou sentir vergonha em determinadas circunstâncias.

Segundo especialistas ouvidos pela imprensa, compreender o transtorno exige olhar para a intensidade do medo, o sofrimento provocado e as limitações que ele impõe à rotina. O diagnóstico, contudo, depende de avaliação profissional, e a história de uma pessoa não deve ser usada como explicação universal para todos os casos.

 

Digital Influencer Felipe Bressanim Pereira (Felca) — Foto: Reprodução/YouTube

O que é fobia social?

A fobia social é um transtorno de ansiedade caracterizado pelo medo intenso e persistente de situações em que a pessoa acredita que poderá ser observada, avaliada negativamente, criticada ou humilhada. O termo clínico também utilizado é transtorno de ansiedade social.

De acordo com a definição apresentada em reportagem da CNN Brasil publicada em 20 de outubro de 2026, o transtorno envolve receio acentuado de exposição social, que pode levar à evitação de situações interpessoais e prejudicar diferentes áreas da vida.

O medo nem sempre está relacionado a grandes eventos, apresentações ou discursos. Ele pode aparecer em atividades cotidianas, como fazer uma pergunta em sala de aula, conversar com um colega de trabalho, atender ao telefone, comer diante de outras pessoas ou pedir informações a um desconhecido.

Em alguns casos, a ansiedade começa muito antes do compromisso. A pessoa antecipa o que pode dar errado, imagina possíveis críticas e ensaia mentalmente cada frase. Depois da interação, pode passar horas revendo o que disse, convencida de que cometeu algum erro ou causou uma impressão negativa.

Esse ciclo pode fazer com que atividades desejadas sejam abandonadas. A pessoa pode querer fazer amigos, estudar, trabalhar ou participar de encontros, mas sentir um medo tão intenso que acaba evitando essas experiências.

Fobia social não é a mesma coisa que timidez

Uma das principais dificuldades para reconhecer o transtorno é a confusão com a timidez. Embora as duas experiências possam envolver desconforto em situações sociais, elas não são equivalentes.

Em entrevista publicada pela revista Exame em 20 de outubro de 2026, as psicólogas Natália Aguilar e Daisy Cangussú explicaram que a diferença está, sobretudo, na intensidade do medo, na persistência dos sintomas e nos prejuízos provocados na rotina.

Uma pessoa tímida pode ficar nervosa ao conhecer alguém ou falar em público, mas ainda conseguir realizar a atividade. Já quem apresenta fobia social pode sentir um medo desproporcional de ser julgado e começar a evitar compromissos, oportunidades profissionais e até atividades básicas.

Também é importante não confundir o transtorno com introversão. Preferir ambientes tranquilos, ter poucos amigos ou gostar de passar tempo sozinho não significa, por si só, ter um problema de saúde mental.

O sinal de alerta aparece quando o medo provoca sofrimento significativo e passa a limitar escolhas, relações e atividades importantes.

Como o bullying pode afetar a saúde mental?

No relato divulgado em 20 de outubro, Felca associou suas dificuldades atuais às experiências de bullying e agressões vividas durante a infância e a adolescência. Segundo o influenciador, as humilhações deixaram marcas que continuaram a afetar sua relação com outras pessoas mesmo depois de deixar o ambiente escolar.

O depoimento evidencia uma questão relevante para a saúde mental: experiências repetidas de rejeição, constrangimento ou violência podem influenciar a maneira como alguém percebe as relações sociais.

Quando uma criança ou adolescente é constantemente ridicularizado, pode passar a associar a exposição diante dos outros à possibilidade de sofrer novamente. Com o tempo, situações neutras também podem ser interpretadas como ameaçadoras, aumentando o receio de errar, chamar atenção ou ser alvo de comentários.

Na reportagem da Exame, Natália Aguilar explicou que experiências negativas durante a infância e a adolescência podem influenciar a percepção de segurança nos ambientes sociais. O medo de novas situações de humilhação pode permanecer mesmo depois que a pessoa deixa o lugar onde sofreu as agressões.

Isso não significa, entretanto, que toda pessoa vítima de bullying desenvolverá fobia social. O transtorno tem causas multifatoriais, que envolvem aspectos biológicos, psicológicos e ambientais. Da mesma forma, nem todas as pessoas diagnosticadas apresentam histórico de violência escolar.

Por isso, o relato de Felca deve ser compreendido como uma experiência individual, capaz de dar visibilidade ao problema, e não como uma regra para explicar a origem do transtorno em toda a população.

O caso também reforça a importância de escolas, famílias e instituições tratarem o bullying como uma forma de violência, e não como uma brincadeira inofensiva ou uma etapa inevitável do crescimento.

Quais são os principais sintomas?

A fobia social pode se manifestar de diferentes maneiras. Os sintomas variam de pessoa para pessoa, mas costumam envolver reações físicas, pensamentos negativos e mudanças de comportamento.

Entre os sinais mais comuns estão:

  • Sintomas físicos: coração acelerado, suor excessivo, tremores, rubor facial, tensão muscular, falta de ar e náuseas.
  • Sintomas emocionais: medo intenso de ser criticado, vergonha, insegurança, angústia e receio persistente de passar por constrangimento.
  • Sintomas cognitivos: preocupação antecipada com encontros, dificuldade para organizar os pensamentos e sensação de que outras pessoas estão observando cada movimento.
  • Sintomas comportamentais: evitar conversas, apresentações, festas, reuniões e outros ambientes; recusar convites ou se afastar de situações importantes por medo da avaliação alheia.

A pessoa também pode sentir que precisa controlar cada gesto, palavra ou expressão facial para evitar uma possível reprovação. Esse esforço constante para parecer natural pode tornar as interações ainda mais cansativas.

É importante lembrar que apresentar um ou mais desses sintomas ocasionalmente não confirma um diagnóstico. A avaliação considera a frequência, a intensidade, a duração do quadro e o impacto sobre a vida cotidiana.

O que é o chamado efeito holofote?

Um dos conceitos que ajudam a compreender a ansiedade social é o chamado efeito holofote, expressão utilizada para descrever a tendência de superestimar o quanto as outras pessoas percebem e prestam atenção em nosso comportamento.

Em março de 2026, Felca abordou a ansiedade social em uma participação no programa Fantástico, em um quadro que combinou encenações e conversas sobre o tema. Na ocasião, ele conversou com o psiquiatra e pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) Álvaro Cabral Araújo.

O conceito ajuda a explicar por que uma pessoa pode acreditar que todos perceberam suas mãos tremendo, sua voz falhando ou uma frase dita de maneira desajeitada. Na prática, as outras pessoas podem estar muito mais concentradas em suas próprias preocupações do que o indivíduo imagina.

Isso não significa que o medo seja inventado ou que baste dizer a alguém para parar de se preocupar. Para quem enfrenta o transtorno, a sensação de estar sob julgamento pode ser real e acompanhada de reações físicas intensas.

O tratamento busca justamente ajudar a pessoa a reconhecer esses padrões de pensamento e desenvolver formas mais equilibradas de interpretar as situações sociais.

Quando o álcool se torna uma tentativa de enfrentar o medo

Um dos pontos mais preocupantes do depoimento de Felca foi o relato de uso de álcool para conseguir participar de gravações, entrevistas e outros compromissos públicos.

Segundo a cobertura publicada pelo UOL e pela CNN Brasil em 20 de outubro, o influenciador contou que recorria à bebida para tentar reduzir a ansiedade antes de interagir com outras pessoas. Ele também relatou ter sofrido um acidente doméstico após consumir álcool em excesso e desmaiar, fraturando duas costelas.

O episódio mostra como uma tentativa de aliviar o sofrimento pode acabar criando novos riscos.

O álcool pode diminuir temporariamente a sensação de inibição, mas não trata as causas da ansiedade social. Quando passa a ser utilizado repetidamente como condição para enfrentar situações cotidianas, pode reforçar a ideia de que a pessoa não é capaz de lidar com elas sem beber.

Além disso, o consumo excessivo está associado a riscos de acidentes, dependência e outros problemas de saúde. A relação entre ansiedade e uso de substâncias precisa ser avaliada com atenção, especialmente quando a bebida se torna uma estratégia recorrente de enfrentamento.

A orientação é procurar ajuda profissional quando o medo leva ao uso de álcool ou de outras substâncias para conseguir sair de casa, trabalhar ou manter relações sociais. O tratamento deve considerar tanto os sintomas de ansiedade quanto eventuais problemas relacionados ao consumo de substâncias.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico da fobia social deve ser realizado por profissional de saúde mental qualificado, considerando a história de vida da pessoa e a forma como os sintomas se manifestam.

Não basta sentir vergonha, ficar nervoso antes de uma apresentação ou preferir evitar festas. O profissional investiga se existe medo intenso e persistente de situações sociais, se a pessoa teme ser avaliada negativamente e se esse receio provoca sofrimento ou prejuízos significativos.

Também é necessário avaliar há quanto tempo os sintomas estão presentes e se outras condições podem explicar ou agravar as dificuldades relatadas.

Ansiedade social, depressão, transtorno do pânico e problemas relacionados ao uso de substâncias podem coexistir ou apresentar manifestações semelhantes. A avaliação individual ajuda a estabelecer quais fatores estão envolvidos e qual abordagem é mais adequada.

Por isso, testes informais na internet e relatos de outras pessoas não substituem uma consulta. Reconhecer sinais de alerta é um primeiro passo, mas somente uma avaliação clínica pode esclarecer o diagnóstico.

Fobia social tem tratamento?

Sim. Existem tratamentos capazes de reduzir significativamente os sintomas e ajudar a pessoa a retomar atividades que foram limitadas pelo medo.

A terapia cognitivo-comportamental (TCC) está entre as abordagens psicoterapêuticas com evidências científicas para o tratamento do transtorno de ansiedade social. Ela pode ajudar o paciente a identificar pensamentos automáticos, questionar interpretações negativas e desenvolver estratégias para lidar com situações temidas.

Em determinados casos, o trabalho terapêutico inclui exposição gradual a situações sociais. Isso não significa obrigar alguém a enfrentar seus maiores medos de uma só vez. O processo deve ser planejado, progressivo e compatível com as necessidades e os limites de cada pessoa.

O acompanhamento psiquiátrico também pode ser indicado. Dependendo da gravidade dos sintomas, do histórico clínico e da presença de outras condições, o profissional pode avaliar a necessidade de medicamentos.

A participação da família e de pessoas próximas também pode contribuir para a recuperação, desde que o apoio seja oferecido sem julgamentos ou cobranças excessivas.

Frases como “é só perder a vergonha” ou “todo mundo fica nervoso” podem minimizar um sofrimento que precisa ser levado a sério. O acolhimento não significa reforçar a evitação, mas oferecer condições para que a pessoa busque tratamento e avance de forma segura.

Enfrentar o medo não significa ultrapassar todos os limites

Após compartilhar sua experiência, Felca anunciou o projeto #SimFel, um desafio de três meses para estimular a participação em experiências e interações sociais que normalmente evitaria. O influenciador também manifestou a intenção de realizar palestras voluntárias em escolas para falar sobre bullying.

A iniciativa coloca em evidência a importância de reconstruir a relação com o convívio social. No entanto, desafios públicos e metas pessoais não substituem o acompanhamento profissional e não devem ser tratados como uma fórmula universal de recuperação.

Na reportagem da CNN Brasil, a médica com atuação em saúde mental Priscila F. Telles ressaltou que cada pessoa reage de maneira diferente às experiências negativas e que o bullying não determina, necessariamente, o desenvolvimento de um transtorno mental. A especialista também destacou a importância de respeitar a história e as necessidades individuais no processo de cuidado.

Para algumas pessoas, começar pode significar conversar brevemente com alguém de confiança. Para outras, pode envolver retomar um compromisso, buscar atendimento ou aprender a permanecer em uma situação desconfortável sem recorrer à bebida.

O objetivo não é transformar uma pessoa introvertida em alguém extrovertido, mas permitir que ela faça escolhas sem ser controlada pelo medo.

É possível superar a fobia social?

A evolução varia conforme a pessoa, a gravidade dos sintomas, as condições associadas e o acesso ao tratamento. Muitos pacientes apresentam melhora significativa, recuperam a confiança e conseguem ampliar sua participação na vida social, acadêmica e profissional.

Isso não significa que todos terão uma trajetória linear ou que o desconforto desaparecerá de uma hora para outra. O tratamento pode exigir tempo, ajustes e acompanhamento contínuo.

O relato de Felca ajuda a mostrar que o sofrimento provocado pela ansiedade social pode permanecer escondido por trás de uma rotina aparentemente funcional. Também demonstra como o medo pode levar ao isolamento e à busca de estratégias prejudiciais para suportar situações cotidianas.

Mais do que transformar uma experiência individual em uma história de superação, o debate precisa ampliar a compreensão sobre saúde mental, combater o bullying e facilitar o acesso ao cuidado especializado.

A fobia social não é falta de vontade, fraqueza de caráter ou simples timidez. É uma condição que merece atenção, acolhimento e tratamento. Reconhecer o sofrimento, buscar ajuda e respeitar o tempo de cada pessoa são passos importantes para que o medo deixe de determinar os limites da própria vida.

Serviço: pessoas que percebem prejuízos importantes na rotina por causa da ansiedade podem procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS) para orientação inicial e encaminhamento, quando necessário, à rede de atenção psicossocial. Em situações de sofrimento emocional intenso ou risco imediato, é importante procurar atendimento de urgência.