
Presidentes latino-americanos lançaram ‘Escudo das Américas’ com Trump — Foto: SAUL LOEB/AFP
A política dos Estados Unidos para combater o narcotráfico na América Latina entra em uma nova fase sob o presidente Donald Trump. A estratégia amplia a participação militar, reforça a cooperação com governos aliados e aproxima o discurso de combate às drogas da chamada guerra contra o terrorismo. As mudanças podem ter consequências diretas para o Brasil, especialmente diante das divergências sobre a atuação das Forças Armadas estrangeiras e o enquadramento jurídico das principais facções criminosas brasileiras.
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Em reportagem publicada em 9 de outubro de 2026, a BBC News Brasil analisou como a ofensiva americana poderá influenciar a política de segurança regional e as relações com o próximo governo brasileiro. O tema ganha relevância na disputa presidencial entre o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que se enfrentam no segundo turno marcado para 25 de outubro.
Flávio Bolsonaro sinaliza aproximação com a estratégia de Trump
Flávio Bolsonaro já manifestou a intenção de aproximar o Brasil do Escudo das Américas, iniciativa regional impulsionada pelo governo Trump para ampliar a cooperação no combate ao narcotráfico e às organizações criminosas.
O senador também defendeu a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. A proposta acompanha uma discussão internacional sobre o tratamento jurídico das facções, mas levanta questões sobre as consequências diplomáticas, operacionais e legais de uma eventual mudança.
Segundo especialistas ouvidos pela BBC, uma relação mais próxima entre um governo Flávio Bolsonaro e Washington poderia ampliar a cooperação bilateral em segurança. Isso, entretanto, não significa necessariamente que o Brasil autorizaria operações militares americanas em seu território.
A pesquisadora Vanda Felbab-Brown, da Brookings Institution, avalia que a implementação de mecanismos mais amplos de colaboração enfrentaria resistências internas, inclusive de setores militares brasileiros.
Lula resiste à militarização da política antidrogas
O governo Lula demonstra reservas à estratégia americana, por considerar que o combate ao narcotráfico pode servir também à ampliação da influência geopolítica dos Estados Unidos na região.
De acordo com a reportagem da BBC, um auxiliar do presidente brasileiro, ouvido sob condição de anonimato, comparou a iniciativa americana a um “cavalo de Troia”: uma política apresentada como cooperação contra o crime organizado que poderia abrir espaço para interesses estratégicos mais abrangentes.
O debate não se limita à segurança pública. O documento conjunto anunciado por países ligados ao Escudo das Américas também aborda temas como infraestrutura digital, cooperação econômica e minerais críticos, ampliando o alcance da articulação regional.
A divergência entre os dois campos políticos envolve, portanto, não apenas os métodos de combate às facções, mas também o grau de aproximação que o Brasil deve manter com a política externa e de defesa de Washington.
Da repressão ao tráfico à guerra contra o terrorismo
A ofensiva de Trump representa uma mudança importante na linguagem e nos instrumentos empregados pelos Estados Unidos. Em vez de tratar o narcotráfico exclusivamente como uma questão criminal, o governo americano passou a enquadrar determinadas organizações como ameaças terroristas, defendendo o emprego de recursos militares contra esses grupos.
A estratégia recorda fases anteriores da política antidrogas americana, iniciada formalmente em 1971, durante o governo Richard Nixon. Ao longo de mais de cinco décadas, Washington financiou operações de erradicação de plantações, forneceu equipamentos, treinou forças de segurança e apoiou ações de inteligência na América Latina.
Apesar dos investimentos bilionários, o mercado ilegal de drogas não foi eliminado. Organizações criminosas se adaptaram, alteraram rotas e produtos e, em diferentes países, a fragmentação de grandes cartéis contribuiu para a formação de novos grupos e disputas violentas.
A experiência do México é frequentemente citada nesse debate. A militarização do combate às drogas, intensificada a partir de 2006, não impediu a continuidade da violência associada às organizações criminosas.
Na Colômbia, o Plano Colômbia produziu avanços no fortalecimento das instituições de segurança e justiça, segundo especialistas, mas não eliminou a produção e o tráfico de cocaína. Os resultados históricos mostram que operações militares podem atingir estruturas criminosas, sem necessariamente desmontar as condições econômicas e sociais que alimentam o mercado ilegal.
PCC e Comando Vermelho: o que muda com a classificação como terroristas?
A eventual classificação das duas maiores facções brasileiras como organizações terroristas é um dos pontos mais sensíveis da discussão.
Os defensores da medida argumentam que o enquadramento poderia ampliar instrumentos de cooperação internacional, sanções financeiras e mecanismos de responsabilização de integrantes e apoiadores das organizações. Entretanto, a extensão dos efeitos dependeria da legislação aplicável e dos instrumentos efetivamente adotados por cada país.
Críticos alertam para o risco de misturar o combate ao crime organizado com operações militares concebidas para enfrentar grupos terroristas. Especialistas em direito internacional citados pela BBC questionam a legalidade de ataques letais contra suspeitos de tráfico sem garantias judiciais, lembrando que a suspeita de envolvimento em crimes não transforma automaticamente uma pessoa em combatente sujeito a ataques militares.
A distinção é fundamental: a designação de uma organização como terrorista não elimina, por si só, as obrigações internacionais de proteção à vida, o devido processo legal e os limites ao uso da força.
No Brasil, qualquer mudança de enquadramento exigiria análise da Constituição, da legislação penal e das competências das autoridades nacionais. A cooperação com os Estados Unidos também precisaria respeitar os limites jurídicos e institucionais brasileiros.
Soberania nacional e segurança pública no centro do debate
A discussão expõe um dilema para o próximo governo brasileiro: como ampliar a capacidade de enfrentar facções que operam internacionalmente sem comprometer a soberania nacional ou adotar medidas cuja eficácia ainda é controversa.
A cooperação internacional pode contribuir para investigações financeiras, compartilhamento de inteligência, controle de fronteiras e combate à lavagem de dinheiro. Já a autorização para operações militares estrangeiras em território nacional envolveria questões de soberania e exigiria uma análise jurídica e política muito mais ampla.
O desafio é impedir que o debate fique restrito à escolha entre endurecimento militar e manutenção do modelo atual. O enfrentamento do crime organizado também depende de investigação, inteligência, fortalecimento das instituições, controle de armas, combate à corrupção e capacidade de interromper os fluxos financeiros das facções.
Uma escolha que vai além da disputa eleitoral
A aproximação com Trump ou a manutenção de uma política externa mais distante da estratégia americana poderá alterar as relações diplomáticas do Brasil, mas não determina, isoladamente, o sucesso de uma política de segurança.
O resultado dependerá dos instrumentos escolhidos, da capacidade de execução do Estado e da compatibilidade das medidas com a legislação brasileira e os compromissos internacionais do país.
Para o eleitor, a questão central não é apenas qual candidato promete uma resposta mais dura ao crime organizado. É também quais medidas apresentam resultados verificáveis, quais riscos jurídicos e diplomáticos envolvem e como o próximo governo pretende combinar segurança pública, cooperação internacional e respeito às instituições.
Fonte principal: BBC News Brasil
