BRASÍLIA — O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou, durante entrevista à TV Globo nesta quinta-feira (27), que não conhece a empresária Roberta Luchsinger, investigada pela Polícia Federal em diferentes inquéritos relacionados a suspeitas de tráfico de influência, corrupção e às fraudes envolvendo descontos indevidos em aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Ao ser questionado sobre a empresária, Lula afirmou que nunca havia conversado com ela e que Roberta jamais teria estado próxima dele.
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A declaração, porém, entrou em contradição com registros publicados pela própria empresária nas redes sociais. Levantamento do Fato ou Fake, do g1, identificou pelo menos três fotografias e um vídeo em que Roberta aparece ao lado do presidente.
Os registros mostram encontros ocorridos em diferentes momentos, inclusive durante o período eleitoral de 2022 e já durante o terceiro mandato de Lula.

Nas fotos, Luís Roberto Barroso, ainda como ministro que deixou o STF em 2025. A imagem foi publicada por Roberta em 23 de novembro de 2023 – Painel de fotos: Reprodução
Fotos e vídeo mostram Roberta ao lado de Lula
Uma das publicações identificadas foi feita por Roberta em julho de 2022. No vídeo, ela aparece em uma sequência de imagens ao lado de Lula e também de outras figuras políticas, entre elas a primeira-dama Janja Lula da Silva, o então candidato ao governo de São Paulo Fernando Haddad e o atual vice-presidente Geraldo Alckmin.
Em 27 de outubro de 2022, Roberta publicou outra fotografia em que aparece ao lado de Lula e escreveu uma mensagem de aniversário para o então candidato à Presidência.
Já em agosto de 2023, durante o terceiro mandato de Lula, a empresária publicou uma nova fotografia na qual aparece ao lado do presidente e da ministra do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Daniela Teixeira.
Os registros foram usados pelo g1 para contestar a afirmação de Lula de que nunca teria visto ou conversado com Roberta.
A existência das fotografias, no entanto, não prova por si só qualquer irregularidade ou relação ilícita entre o presidente e a empresária. As imagens demonstram que os dois estiveram juntos em determinadas ocasiões, mas o contexto e o conteúdo de eventuais conversas entre eles são questões distintas.
Roberta diz que é amiga de Lulinha há anos
Em entrevista concedida ao g1 nesta sexta-feira (28), Roberta Luchsinger afirmou que mantém uma amizade antiga com Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente.
Segundo ela, a amizade começou antes de Lula retornar à Presidência da República e não teria sido construída com o objetivo de conseguir vantagens junto ao governo.
Roberta também negou ter procurado Lula para pedir benefícios e afirmou que não utilizou a relação com Lulinha para obter contratos públicos.
Ela admitiu, porém, ter procurado Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, que foi chefe de gabinete de Lula, para tratar de uma proposta relacionada ao uso medicinal de produtos à base de canabidiol.
A empresária classificou a forma como buscou apoio como uma possível ingenuidade, mas negou ter cometido irregularidades.
O Ministério da Saúde informou que nenhum contrato relacionado às propostas investigadas foi firmado. A Polícia Federal continua apurando as circunstâncias das negociações.
Quem é Roberta Luchsinger
Roberta Luchsinger é empresária e amiga de Fábio Luís Lula da Silva. O nome dela passou a ganhar destaque nacional após aparecer em investigações da Polícia Federal relacionadas às fraudes envolvendo descontos indevidos em benefícios do INSS.
A empresária também aparece em apurações que investigam possíveis relações financeiras e negociações envolvendo integrantes do círculo político e pessoal do presidente.
Segundo informações divulgadas nas últimas semanas, Roberta é investigada em três inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF). As apurações abrangem suspeitas de tráfico de influência, corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Ela nega as acusações.
Pagamentos a ex-chefe de gabinete de Lula entraram na mira da PF
Um dos pontos centrais da investigação envolve Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, que ocupou o cargo de chefe de gabinete de Lula durante o atual governo.
A Polícia Federal identificou pagamentos e despesas pessoais atribuídos a Roberta em favor de Marcola.
Segundo documentos divulgados durante a investigação, os valores alcançaram aproximadamente R$ 217 mil em pagamentos de faturas de cartão, parcelas de financiamento de veículo, seguro e joias. Os gastos teriam ocorrido entre fevereiro e novembro de 2024.
A defesa de Marcola afirma que os valores faziam parte de um empréstimo pessoal de R$ 249 mil feito por Roberta, sem relação com contratos ou decisões do governo.
O ex-chefe de gabinete declarou que o empréstimo foi de natureza privada e que o valor teria sido quitado. Ele também colocou o sigilo bancário à disposição das autoridades, segundo declarações divulgadas anteriormente.
A investigação, contudo, busca verificar se houve alguma relação entre essas movimentações financeiras e as atividades de Roberta junto ao governo.
PF também investiga negociações com o Ministério da Saúde
Outro ponto que chamou a atenção dos investigadores foi uma minuta de contrato relacionada à venda de medicamentos à base de canabidiol ao Ministério da Saúde.
Segundo informações divulgadas pela imprensa, Roberta teria encaminhado o documento a Marcola.
O ex-chefe de gabinete confirmou ter recebido um modelo de contrato, mas afirmou que não encaminhou a proposta a integrantes do governo. A negociação não teria resultado em contrato público.
Reportagem publicada nesta sexta-feira também aponta que a PF investiga conversas nas quais Roberta teria tratado com Marcola sobre tentativas de acelerar negociações envolvendo produtos de interesse comercial. Entre os assuntos investigados estão propostas relacionadas a testes de dengue e produtos à base de canabidiol.
Até o momento, não há informação pública de que os contratos investigados tenham sido efetivamente celebrados pelo Ministério da Saúde.
PF investiga também pagamentos, joias e despesas pessoais
A investigação identificou ainda conversas entre Roberta e Marcola relacionadas à compra de joias.
Segundo informações divulgadas pela imprensa, a empresária teria adquirido peças avaliadas em cerca de R$ 9 mil e as destinado ao então chefe de gabinete.
A defesa de Marcola sustenta que esses valores estariam incluídos na relação financeira do empréstimo pessoal e nega que as joias tenham representado vantagem indevida.
A PF também apura pagamentos de despesas pessoais atribuídos a Roberta, incluindo cartão de crédito, financiamento de veículo e outros gastos.
Esses elementos são considerados pelos investigadores dentro de um contexto mais amplo para verificar se existia uma relação entre benefícios financeiros e possíveis pedidos de influência sobre decisões ou contratos públicos.
Relação com Lulinha também é investigada
O nome de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, também aparece nas investigações.
A Polícia Federal analisa mensagens e relações empresariais envolvendo Lulinha e Roberta. Uma das linhas de investigação busca esclarecer se houve tentativa de intermediação de interesses privados junto ao governo federal.
Lulinha nega qualquer irregularidade e sua defesa afirma que as informações divulgadas são resultado de vazamentos seletivos e que não há comprovação de atuação ilícita.
A investigação ainda não estabeleceu, de forma definitiva, que Lulinha tenha cometido crime.
Investigação alcança suspeitas relacionadas ao esquema do INSS
O caso ganhou maior dimensão porque Roberta também aparece nas apurações relacionadas à Operação Sem Desconto, investigação que descobriu um esquema de descontos não autorizados em aposentadorias e pensões do INSS.
A operação apura como entidades e intermediários teriam conseguido realizar cobranças que atingiram beneficiários da Previdência.
A PF passou a investigar conexões entre pessoas relacionadas ao esquema e outros personagens que mantinham relações com empresários, lobistas e integrantes do governo.
Nesse contexto, Roberta passou a ser investigada em diferentes frentes.
Lula reconhece que caso de Marcola levou suspeitas ao Planalto
Durante a entrevista à TV Globo, Lula também comentou a relação de seu ex-chefe de gabinete com Roberta.
O presidente reconheceu que o envolvimento de Marcola com a empresária trouxe desconfiança para o Palácio do Planalto.
Segundo informações divulgadas pela Reuters, Lula afirmou que o ex-assessor cometeu um erro e deverá responder por seus atos caso tenha cometido alguma irregularidade.
O presidente também declarou confiança na inocência de seu filho, mas afirmou que, caso sejam comprovados ilícitos, quem tiver cometido irregularidades deverá responder por elas.
Marcola deixou o cargo e passou a atuar na campanha
Marco Aurélio Santana Ribeiro deixou a chefia de gabinete de Lula em julho de 2026.
A justificativa oficial foi a entrada na campanha de reeleição do presidente. Segundo reportagens publicadas na época, porém, a saída ocorreu em meio às revelações sobre sua relação financeira com Roberta.
Marcola chegou a pedir para deixar a campanha presidencial, de acordo com informações divulgadas pela CNN Brasil.
A situação provocou desgaste político justamente no momento em que Lula tenta a reeleição.
O que está comprovado e o que ainda é investigado
A investigação reúne documentos, mensagens, registros financeiros e fotografias. Entretanto, é importante separar os fatos já documentados das hipóteses investigadas pela Polícia Federal.
Está documentado que:
- Roberta Luchsinger publicou fotografias e um vídeo em que aparece ao lado de Lula;
- Roberta é amiga de Fábio Luís Lula da Silva;
- a empresária manteve contato com Marco Aurélio Santana Ribeiro;
- existem registros de pagamentos e despesas envolvendo Roberta e Marcola;
- Marcola confirmou ter recebido um empréstimo de Roberta;
- uma minuta de contrato relacionada a produtos à base de canabidiol chegou às mãos de Marcola;
- a Polícia Federal investiga essas relações;
- Roberta nega ter praticado irregularidades;
- Lulinha nega irregularidades;
- a defesa de Marcola afirma que as transações foram de natureza pessoal;
- o Ministério da Saúde informou que as propostas investigadas não resultaram em contratos.
Ainda está sob investigação:
- se houve tráfico de influência;
- se pagamentos ou presentes tiveram relação com decisões ou contratos públicos;
- se houve favorecimento indevido;
- qual foi exatamente a participação de Lulinha nas negociações investigadas;
- se as relações financeiras entre Roberta e Marcola tiveram alguma contrapartida;
- se houve participação de outras pessoas nas supostas tentativas de intermediação.
Portanto, a existência de investigação ou de pagamentos não significa, por si só, que os envolvidos tenham cometido crimes. A responsabilidade criminal somente poderá ser estabelecida após a conclusão das apurações e eventual decisão judicial.
Declaração de Lula gera repercussão
A afirmação de Lula de que não conhece Roberta Luchsinger passou a ser um dos principais pontos de repercussão da entrevista.
Isso ocorreu porque as próprias redes sociais da empresária contêm registros que mostram encontros entre ela e o presidente.
O episódio também ganhou dimensão política porque ocorre durante a campanha eleitoral de 2026, em um momento no qual investigações envolvendo familiares, aliados e pessoas próximas aos principais candidatos passaram a ocupar espaço no debate presidencial.
A reportagem do g1 classificou os registros como elementos que contradizem a declaração de Lula sobre nunca ter visto ou conversado com Roberta. Ao mesmo tempo, as imagens não permitem concluir, isoladamente, que o presidente tenha participado de qualquer irregularidade investigada.
Caso segue sob investigação
A Polícia Federal continua analisando documentos e mensagens relacionados às relações de Roberta Luchsinger com empresários, lobistas e integrantes ou ex-integrantes do governo.
O caso também envolve apurações no Supremo Tribunal Federal, onde estão concentradas investigações que alcançam Roberta e Lulinha.
Enquanto a investigação não for concluída, as acusações permanecem no campo das suspeitas investigadas pelas autoridades.
O ponto mais recente do caso é a divergência entre a declaração de Lula durante a entrevista à TV Globo e os registros publicados pela própria Roberta, além da entrevista concedida pela empresária nesta sexta-feira, na qual ela reconheceu a amizade com Lulinha, negou ter buscado favorecimento e contestou as acusações de irregularidades.
