Coluna
Made in Brazil
Marco Antônio Ribeiro

SERGIO SAMPAIO

Hoje o assunto é Sergio Sampaio. O “Maldito” Sergio Sampaio, que só queria botar seu bloco na rua

A carreira musical errante deste monstro sagrado, também ficou pontuada por atitudes autodestrutivas e conflitos com gravadoras — o que lhe renderia o rótulo de “maldito” que também acompanhava outros nomes da MPB.


Conterrâneo de Roberto Carlos da pequena e pacata cidade de Cachoeiro do Itapemirim, Sergio Sampaio sempre quis trabalhar com música.

Aos 16 anos, começou a carreira em uma rádio local, onde passava horas na discoteca fazendo suas pesquisas.

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Na época, foi empurrado para um concurso de calouros e se deu bem. Tomou gosto pela coisa e começou a aprender tocar violão e esboçar umas composições.

Passou quatro anos no emprego e depois se mandou para o Rio de Janeiro, onde passou fome, morou na rua e vivia de bicos, incluindo apresentações em bares em troca de comida.

Além do Rei da Jovem Guarda, Sergio era obcecado por Mick Jagger, chegando até a imitar os trejeitos do líder dos Rolling Stones quando se apresentava nos palcos.

Certo dia, em um dos muitos bicos, foi acompanhar um músico em uma audição na CBS e conheceu o então produtor Raul Seixas, que gostou do moleque, dando a ele algumas oportunidades para viver com um mínimo de dignidade.

Aproveitando a ausência da diretoria da gravadora, Raul resolve fazer um disco chamado Sessão das Dez, creditado a Grã-Ordem Kavernista, e chamou Sergio para cantar no disco, junto com o doidão Edy Star e a vocalista Miriam Batucada.

Foto: reprodução

O disco foi um fracasso na época, mas virou cult alguns anos depois.

Certo dia, já com uma certa moral, Sergio vai a casa de Erasmo Carlos para tentar convencer o tremendão a mostrar suas músicas para Roberto (seu sonho é ouvir uma canção sua voz do rei).

Durante o encontro, Sergio desabafa sobre a censura das gravadoras e do governo militar e disse ter vontade de “botar o bloco na rua, de botar pra f*d*er”.

Erasmo, percebendo o potencial, incentivou o moleque a compor uma canção justamente sobre esse grito sufocado na garganta.

Daí nasceu o maior sucesso de Sergio Sampaio – Eu Quero Botar Meu Bloco na Rua” – que não foi lançada na gravadora de Raulzito, mas causou um rebuliço no Festival Internacional da Canção, em 1972.

A música foi gravada pela Philips e se tornou conhecida no Brasil inteiro e até no exterior, trazendo (finamente) o reconhecimento sonhado.

Foto: reprodução

Mas, a partir daí, começou uma série de altos e (muitos) baixos na carreira. Sérgio foi do céu ao inferno várias vezes. Tornou-se desconfiado e arredio, chegando a ser agressivo e temperamental com seu círculo de poucas amizades. Admitiu que não sabia lidar com o sucesso e fugiu de volta para a cidade natal, onde se escondeu da imprensa e público.

Foi o período em que se afundou no álcool e drogas, deixando sua saúde – que já não era essas coisas – extremamente frágil. Ganhou fama de maldito, enquanto sua sanidade parecia despencar ladeira abaixo.

Foto: reprodução

Chegou a gravar uma música chamada “A Última Esperança”, que (aparentemente) brincava com o trágico incêndio do edifício Joelma. A opinião pública caiu de pau.

No período que parecia ter (re)encontrado a lucidez, escreveu “Feminino Coração de Deus”, enaltecida pela crítica, gravada por Erasmo no álbum Mulher.

Mas o período de bonança dura pouco.

Voltou a beber, especialmente após o fim do seu casamento, e cai em desgraça novamente, chegando a pedir abrigo na casa de amigos, porque não tinha onde morar.

Novamente ressurge das cinzas, sai em pequenas turnês pelo nordeste e escreve de forma compulsiva diversas músicas que só seriam lançadas após sua morte, que aconteceu em 1994 quando ele tinha apenas 47 anos.

Havia chegado a conta de anos e anos de péssima alimentação, cigarros e álcool.

Hoje, apesar de conhecido pelo grande público apenas por seu maior sucesso, é cultuado pela geração de artistas mais jovem, que descobriu sua genialidade e mantêm sua memória viva nos diversos tributos Brasil afora.

O bloco ainda segue na rua.