
O presidente Lula chamou a governadora do DF e candidata à reeleição, Celina Leão (PP) de “cínica e mentirosa” – Foto: Reprodução
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) transformou a crise bilionária do Banco de Brasília (BRB) em munição política durante um comício em Ceilândia, na noite de quarta-feira (16). Em vez de limitar o discurso às responsabilidades administrativas e financeiras que estão sob investigação, Lula partiu para o ataque pessoal contra a governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), chamando-a de “cínica e mentirosa”.
Continua depois da Publicidade
A declaração provocou uma reação imediata da governadora, que classificou a postura presidencial como uma agressão pessoal e levantou um questionamento direto sobre o tratamento dado por Lula a mulheres que ocupam cargos de poder.
“Será que ele usaria as mesmas palavras para se dirigir a um governador homem?”, questionou Celina, ao reagir às declarações. A governadora afirmou que Lula escolheu “partir para a ofensa pessoal” e classificou a atitude como uma agressão contra uma mulher.
O episódio foi interpretado por aliados de Celina e por veículos locais como um ataque de caráter machista. A governadora, contudo, preferiu responder politicamente: disse que não devolveria a ofensa e que apresentaria fatos sobre a situação do banco.
Presidente usa palanque eleitoral para atacar adversária
O contexto da declaração também chama atenção.
Lula estava em um ato de campanha em Ceilândia, ao lado de aliados que disputam as eleições no Distrito Federal, entre eles Leandro Grass, candidato apoiado pelo PT ao governo local. Celina Leão é candidata à reeleição.
Foi nesse ambiente eleitoral que o presidente decidiu atacar diretamente a governadora.
“Quem quebrou o BRB foi a ligação entre o Ibaneis e o Vorcaro”, afirmou Lula, responsabilizando o ex-governador Ibaneis Rocha e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro pela crise da instituição. O presidente também disse que o governo federal não colocaria dinheiro da União no banco.
A escolha das palavras — especialmente “cínica e mentirosa” — deslocou parte do debate de uma discussão técnica sobre a situação financeira do BRB para uma disputa política aberta entre o Palácio do Planalto e o governo do Distrito Federal.
Celina: “O BRB não é meu e nem de partido algum”
Na resposta, Celina afirmou que o presidente pode fazer campanha contra ela, apoiar seus adversários e criticá-la politicamente, mas não deveria transformar o BRB em instrumento eleitoral.
“O BRB não é meu e nem de partido algum. É um patrimônio de Brasília. Tem milhares de funcionários, clientes, empresas e famílias que dependem dele”, afirmou a governadora.
Celina também fez uma cobrança institucional a Lula: segundo ela, o presidente deveria agir como chefe do Executivo de todos os brasileiros, e não apenas como líder político de sua campanha.
“Eleições passam, governos passam, partidos passam, mas o nosso DF fica”, afirmou.
A declaração expôs uma das principais linhas de defesa do governo local: a de que a discussão sobre o futuro do BRB não deveria ser subordinada à disputa eleitoral.
Não se trata de “dar dinheiro” ao BRB
Outro ponto levantado por Celina é a forma como Lula apresentou a discussão.
O presidente afirmou que o governo federal não daria dinheiro ao BRB e associou a eventual ajuda à necessidade de preservar recursos destinados ao Bolsa Família.
A operação pretendida pelo governo do DF, entretanto, envolve uma estrutura diferente: o Executivo distrital busca um empréstimo de até R$ 6,6 bilhões junto ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC), com discussão sobre garantias da União.
Ou seja, a controvérsia envolve aval e estruturação de crédito, e não simplesmente uma transferência direta de recursos do Tesouro Nacional para o banco.
A operação enfrenta obstáculos jurídicos e políticos, e o Supremo Tribunal Federal acompanha a questão.
Rombo bilionário ainda é objeto de investigação
A crise do BRB está diretamente relacionada às operações realizadas com o Banco Master, instituição controlada por Daniel Vorcaro e posteriormente liquidada pelo Banco Central.
Os números revelados até agora são expressivos e ainda apresentam diferenças conforme a fonte e a metodologia utilizada.
Um relatório do Banco Central citado pela imprensa estima um rombo potencial de R$ 11,4 bilhões no BRB decorrente das operações com o Master. O governo do Distrito Federal trabalha com uma estimativa menor, de aproximadamente R$ 8,8 bilhões. Já a Polícia Federal teria identificado operações que somam cerca de R$ 17,5 bilhões.
O próprio BRB ainda trabalha para dimensionar definitivamente as perdas e concluir processos de auditoria relacionados às operações.
Celina também está sob pressão pelas negociações com o Master
Embora tenha reagido às acusações de Lula, Celina também enfrenta questionamentos sobre sua relação com as negociações envolvendo o Banco Master.
Mensagens atribuídas a Daniel Vorcaro e divulgadas pela imprensa indicariam que Celina, então vice-governadora, teria participado das tratativas envolvendo a aquisição do Master pelo BRB.
A governadora nega ter participado da operação e afirma que sempre foi contrária ao negócio. As informações estão inseridas no conjunto de elementos analisados nas investigações.
Portanto, há duas discussões diferentes em curso: a responsabilidade pelas operações que provocaram o prejuízo ao BRB e a disputa política sobre quem deve responder pela crise.
GDF cria força-tarefa para recuperar dinheiro
Enquanto a guerra política se intensifica, o governo do Distrito Federal criou uma comissão especial para tentar recuperar ativos e reparar os danos causados ao BRB pelas operações relacionadas ao Master.
A comissão terá entre suas atribuições identificar valores e bens que possam ser recuperados, negociar ressarcimentos e atuar junto ao Ministério Público, Judiciário, Banco Central e FGC.
A iniciativa coloca o governo local diante de uma tarefa urgente: recuperar parte dos recursos e preservar a capacidade financeira do banco público.
O discurso de Lula aumenta a temperatura da disputa
A crise do BRB já era um dos maiores problemas financeiros e políticos do Distrito Federal. Agora, ganhou um componente eleitoral ainda mais evidente.
De um lado, Lula responsabiliza a gestão anterior do DF e Daniel Vorcaro e rejeita qualquer possibilidade de socorro federal ao banco. De outro, Celina acusa o presidente de transformar uma instituição pública em instrumento de disputa eleitoral e questiona o tratamento pessoal recebido durante o comício.
A acusação de machismo, feita pela própria governadora ao questionar se Lula adotaria a mesma linguagem contra um homem, acrescentou uma nova dimensão à crise.
O fato concreto é que o confronto deixou de ser apenas sobre balanços, operações bancárias e bilhões de reais. Virou também uma disputa aberta entre o presidente da República e a governadora do Distrito Federal, travada em pleno período eleitoral.
E, enquanto os políticos trocam acusações, a questão central permanece: quanto o BRB efetivamente perdeu, quem será responsabilizado pelas operações e quem pagará a conta da crise?
