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Governo Lula chega ao fim do mandato com dívida em alta, déficit elevado e dúvidas sobre a sustentabilidade das contas públicas

Apesar do desemprego em níveis historicamente baixos e da expansão de programas sociais, aumento da dívida, déficit nominal bilionário, crescimento das despesas e dependência de maior arrecadação expõem os limites da política econômica.


Brasília — O terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva chega à reta final com indicadores que permitem uma avaliação mais crítica da política econômica do governo. Embora o país tenha registrado avanços importantes no emprego e na renda, os números fiscais revelam um problema que permanece sem solução: o Estado brasileiro continua gastando em ritmo elevado, acumulando déficits e aumentando sua dívida.

Os dados oficiais do Banco Central e do Tesouro Nacional mostram que o problema não está apenas no tamanho da dívida, mas na dificuldade de estabilizá-la em relação ao Produto Interno Bruto (PIB).

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Em maio de 2026, a Dívida Bruta do Governo Geral alcançou 81,1% do PIB, equivalente a aproximadamente R$ 10,6 trilhões. Somente nos cinco primeiros meses do ano, o indicador aumentou 2,4 pontos percentuais do PIB. Segundo o Banco Central, juros nominais e emissões líquidas de dívida foram fatores importantes para essa elevação.

O quadro coloca a política fiscal como o principal ponto fraco da administração Lula.

 

Foto: Reprodução

 

A conta dos juros se tornou cada vez mais pesada

Um dos números mais preocupantes é o custo dos juros.

Nos 12 meses encerrados em maio de 2026, os juros nominais do setor público chegaram a R$ 1,111 trilhão, equivalente a 8,48% do PIB. No mesmo período do ano anterior, eram R$ 946,1 bilhões, ou 7,74% do PIB.

Quando juros e resultado primário são somados, o déficit nominal atingiu R$ 1,260 trilhão em 12 meses, equivalente a 9,62% do PIB.

É um número que ajuda a explicar por que o crescimento da dívida se tornou um problema estrutural.

Quanto maior a dívida e maior o custo médio de financiamento, maior é a parcela do orçamento que precisa ser destinada ao serviço da dívida. Isso reduz o espaço para investimentos e para novas políticas públicas sem aumento de impostos ou endividamento adicional.

Despesa cresce mais rapidamente que a receita

Os próprios dados do Tesouro revelam outro problema.

Em maio de 2026, o Governo Central registrou déficit primário de R$ 53,3 bilhões. Na comparação com maio de 2025, a receita líquida cresceu 5,5% em termos reais, mas a despesa total avançou 9,4%.

A diferença é relevante.

O governo consegue elevar a arrecadação, mas uma parcela importante desse aumento é acompanhada por crescimento ainda maior das despesas. Isso dificulta a formação de superávits primários capazes de estabilizar a dívida.

A questão central, portanto, não é apenas se o governo arrecada mais. É quanto arrecada em relação ao que gasta e se o resultado é suficiente para impedir que a dívida continue crescendo.

O problema fiscal não pode ser explicado apenas pelos juros

É verdade que a taxa de juros brasileira pesa fortemente sobre as contas públicas. Também é correto afirmar que parte importante do déficit nominal vem dos juros.

Mas isso não elimina a responsabilidade da política fiscal.

Em maio, o setor público consolidado registrou déficit primário de R$ 56,1 bilhões. Em 12 meses, o déficit primário chegou a R$ 149 bilhões, equivalente a 1,14% do PIB.

Ou seja: mesmo antes de contabilizar os juros, o setor público gastou mais do que arrecadou no período considerado.

Esse é o principal argumento dos críticos da política econômica do governo: sem um resultado primário suficientemente forte, o país fica dependente de crescimento econômico, inflação, aumento de arrecadação ou juros mais baixos para evitar uma deterioração ainda maior da dívida.

Aumento da arrecadação resolve apenas parte do problema

O governo conseguiu resultados expressivos na arrecadação federal, mas isso também abriu uma discussão sobre a estratégia escolhida.

Quando o ajuste fiscal ocorre principalmente pelo aumento de receitas, e não pela contenção estrutural das despesas, o resultado pode ser limitado.

A estratégia pode funcionar enquanto a atividade econômica estiver forte e a arrecadação crescer. O problema aparece quando o crescimento desacelera.

Nesse cenário, despesas obrigatórias continuam pressionando o orçamento enquanto a receita perde velocidade.

O Tesouro mantém acompanhamento permanente das receitas, despesas e metas fiscais, justamente porque o equilíbrio entre esses dois lados é determinante para a sustentabilidade das contas públicas.

Emprego é o contraponto positivo — mas não encerra a discussão

A crítica fiscal não elimina os resultados favoráveis do mercado de trabalho.

O desemprego brasileiro chegou a níveis historicamente baixos durante o governo Lula. A taxa anual de desocupação em 2025 foi de 5,6%, segundo o IBGE.

Mas o próprio conceito de desemprego exige cautela.

A taxa mede pessoas desocupadas que fazem parte da força de trabalho. Portanto, uma análise completa precisa considerar também participação no mercado de trabalho, informalidade, subutilização, desalento, número de ocupados e rendimento real.

Além disso, a queda do desemprego não pode ser atribuída exclusivamente ao governo federal. O mercado de trabalho responde ao crescimento econômico, ao setor privado, à agropecuária, às exportações, ao consumo e a diversos fatores externos.

Por isso, o bom desempenho do emprego é um ponto positivo do período, mas não constitui, isoladamente, prova de que a política econômica do governo tenha sido eficiente em todas as áreas.

Crescimento econômico não foi suficiente para resolver o desequilíbrio

O PIB cresceu 2,3% em 2025, segundo o IBGE.

O resultado é positivo, mas representa desaceleração em relação ao crescimento de 2024. O problema para o governo é que uma economia que cresce em ritmo moderado precisa de maior disciplina fiscal para impedir que a dívida avance mais rapidamente que a capacidade de geração de riqueza.

O crescimento ajuda a reduzir a relação dívida/PIB quando o PIB cresce suficientemente rápido. Porém, quando a dívida aumenta simultaneamente, o efeito pode ser neutralizado.

É exatamente essa combinação que preocupa no cenário atual: crescimento econômico positivo, mas dívida e despesas também crescendo.

Inflação está controlada, mas ainda exige atenção

A inflação também não pode ser utilizada como argumento absoluto a favor ou contra o governo.

Em junho de 2026, o IPCA subiu 0,16%, acumulando 3,36% no ano e 4,64% em 12 meses.

O número mostra desaceleração importante no mês, mas a inflação acumulada ainda permanece relevante para as famílias.

Além disso, o comportamento dos preços é influenciado por fatores que vão muito além da Presidência da República, como alimentos, energia, combustíveis, câmbio, preços internacionais e política monetária.

Portanto, atribuir integralmente a inflação ao governo seria tão inadequado quanto atribuir integralmente ao governo a queda do desemprego.

Programas sociais ampliam proteção, mas também pressionam o orçamento

Bolsa Família, Minha Casa, Minha Vida, Pé-de-Meia e outras políticas ampliaram a presença do governo federal na transferência de renda e no investimento social.

Há uma justificativa econômica para essas políticas: reduzir pobreza, estimular consumo, melhorar permanência escolar e ampliar o acesso à habitação.

A questão crítica é outra: qual é o custo permanente dessas políticas e como financiá-las sem comprometer o equilíbrio fiscal?

Programas sociais podem produzir benefícios importantes e, ao mesmo tempo, aumentar a rigidez do orçamento.

O desafio de qualquer governo é garantir que a expansão dos benefícios seja compatível com a capacidade permanente de arrecadação do Estado.

O risco de um governo depender de receitas crescentes

A fragilidade do modelo aparece quando se observa a relação entre arrecadação e despesa.

Em maio de 2026, enquanto a receita líquida cresceu 5,5% em termos reais, a despesa total aumentou 9,4%.

Isso significa que, naquele mês, o gasto avançou mais rapidamente que a receita.

Para os próximos anos, essa diferença é mais importante do que o resultado de um mês isolado.

Se as despesas continuarem crescendo acima da capacidade estrutural de arrecadação, o governo terá basicamente quatro alternativas: cortar despesas, elevar impostos, aceitar maior déficit ou aumentar a dívida.

Nenhuma delas é politicamente simples.

O que a crítica ao governo precisa reconhecer

Uma análise crítica baseada em dados não pode ignorar os resultados positivos.

O Brasil possui atualmente um mercado de trabalho muito mais favorável do que no início do mandato, com desemprego baixo e aumento da renda real. A economia continua crescendo e a inflação não está fora de controle.

Também seria incorreto afirmar que o governo simplesmente abandonou as metas fiscais. O Tesouro possui regras, metas, relatórios periódicos e mecanismos de acompanhamento da execução orçamentária.

O problema está em outro lugar: a trajetória fiscal continua exigindo uma correção que ainda não se mostrou suficiente para estabilizar a dívida.

A avaliação mais dura do terceiro mandato

Se o critério principal for emprego, renda e proteção social, o governo possui argumentos consistentes para apresentar resultados positivos.

Se o critério for equilíbrio das contas públicas e sustentabilidade da dívida, a avaliação é muito mais negativa.

O dado mais difícil de contornar é que a Dívida Bruta do Governo Geral chegou a 81,1% do PIB em maio de 2026, enquanto o déficit nominal acumulado em 12 meses alcançou 9,62% do PIB.

Ao mesmo tempo, o Governo Central registrou, em maio, déficit primário de R$ 53,3 bilhões, com despesas crescendo mais rapidamente que a receita.

O legado que fica

A principal crítica ao governo Lula não está no fato de o Brasil ter crescido ou de ter reduzido o desemprego. Esses são resultados reais e devem ser reconhecidos.

A crítica está na sustentabilidade do caminho escolhido.

O governo ampliou políticas sociais, aumentou investimentos e preservou uma agenda de transferência de renda, mas ainda não apresentou uma solução estrutural convincente para compatibilizar esse nível de gasto com uma dívida pública que cresce e com juros que consomem mais de R$ 1 trilhão por ano.

O resultado é um paradoxo: o governo consegue mostrar um Brasil com mais emprego e renda, mas entrega também um Estado mais endividado e com menor margem fiscal para enfrentar a próxima crise.

A pergunta que fica para o próximo governo é simples, mas decisiva: será possível manter os ganhos sociais e trabalhistas conquistados sem continuar empurrando para o futuro uma conta cada vez maior?

Os números disponíveis até agosto de 2026 ainda não permitem responder definitivamente. Mas permitem afirmar que o problema fiscal permanece como a principal fragilidade do legado econômico do terceiro mandato de Lula.

Nota técnica — O desemprego pode cair sem que todos os problemas do mercado de trabalho desapareçam

É comum, em disputas políticas, afirmar que o governo “maquia” ou “manipula” a taxa de desemprego. Não há evidência, nos dados consultados, de que o IBGE esteja alterando artificialmente o indicador para favorecer o governo. A PNAD Contínua segue metodologia própria e considera como desempregada a pessoa que não estava trabalhando, estava disponível e havia procurado trabalho.

O que merece atenção é como a estatística é construída e quais números são escolhidos para apresentar o mercado de trabalho.

A taxa oficial de desemprego é calculada sobre a força de trabalho, e não sobre toda a população em idade de trabalhar. Assim, quem não trabalha e também não está procurando emprego pode ficar fora da força de trabalho e, consequentemente, não entrar na taxa de desocupação. O próprio IBGE esclarece que estudantes, pessoas dedicadas exclusivamente aos afazeres domésticos e outros indivíduos fora da força de trabalho não são contabilizados como desempregados.

Isso não significa que essas pessoas sejam “retiradas” artificialmente da estatística. É uma regra metodológica internacionalmente utilizada. O problema surge quando a taxa de desemprego é apresentada isoladamente, sem mostrar os indicadores complementares.

Um exemplo é o desalento. São pessoas que gostariam de trabalhar e estão disponíveis, mas desistiram de procurar emprego por diferentes razões. Em 2025, o Brasil ainda tinha 2,9 milhões de desalentados, segundo o IBGE.

Outro indicador é a subutilização da força de trabalho. Em 2025, enquanto a taxa oficial de desemprego foi de 5,6%, a taxa de subutilização chegou a 14,5%, abrangendo 16,6 milhões de pessoas. O indicador inclui, além dos desocupados, pessoas que trabalham menos horas do que gostariam e outras pessoas com potencial para integrar a força de trabalho.

Também é necessário observar a informalidade. Em 2025, 38,1% dos ocupados estavam em trabalhos informais. Portanto, uma taxa de desemprego baixa não significa automaticamente que todos os trabalhadores estejam empregados em postos formais, estáveis e com proteção trabalhista.

Há ainda uma característica importante da metodologia: para ser considerado ocupado, basta ter trabalhado pelo menos uma hora na semana de referência, segundo os critérios da PNAD. Isso faz com que a análise do mercado de trabalho precise ser complementada por informações sobre horas trabalhadas, renda, formalização e subocupação.

O que os números mostram no caso brasileiro

No caso do governo Lula, portanto, seria incorreto afirmar simplesmente que a queda do desemprego foi “fabricada”. Os próprios números mostram aumento da população ocupada: em 2025, o Brasil chegou a 103 milhões de pessoas ocupadas, recorde da série histórica, enquanto a taxa anual de desemprego caiu para 5,6%.

Ao mesmo tempo, a fotografia fica mais complexa quando são incorporados os demais indicadores: 14,5% de subutilização, 2,9 milhões de desalentados e 38,1% de informalidade.

A conclusão, portanto, é que não existe uma “manobra” matemática comprovada para reduzir artificialmente o desemprego. Existe, sim, uma diferença entre apresentar apenas a taxa oficial de desocupação e apresentar o conjunto completo de indicadores do mercado de trabalho.

Para uma avaliação política do governo, o segundo método é mais adequado: desemprego, participação na força de trabalho, ocupação, informalidade, subutilização, desalento, horas trabalhadas e rendimento devem ser analisados conjuntamente.

Essa distinção é fundamental para que uma crítica ao governo seja baseada em números reais, e não em uma acusação de manipulação estatística que os dados disponíveis não comprovam.