A Amazônia consolidou-se como uma das principais áreas de expansão do crime organizado na América Latina. A conclusão é do estudo From Narco Cartels to Criminal Networks: The Structural Transformation of Organized Crime in Latin America and the Caribbean, divulgado pelo Instituto Igarapé, que identifica a atuação de mais de 30 grupos criminosos disputando influência em toda a Bacia Amazônica.
O levantamento mostra que essas organizações deixaram de atuar exclusivamente no tráfico internacional de drogas e passaram a controlar uma ampla cadeia de atividades ilícitas, como garimpo ilegal, exploração clandestina de madeira, grilagem de terras, tráfico de animais silvestres, comércio irregular de combustíveis, logística, agricultura e exportação de produtos provenientes de crimes ambientais.
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Segundo os pesquisadores, essas atividades passaram a integrar uma economia criminosa diversificada, fortalecendo financeiramente as facções e tornando-as mais resistentes às ações de repressão das forças de segurança.

Facções do tráfico avançam em comunidades – Foto: Reprodução
O cofundador do Instituto Igarapé e coordenador da pesquisa, Robert Muggah, afirma que o crime organizado ampliou significativamente sua influência territorial na Amazônia.
“Mais de 30 grupos armados operam em toda a Bacia Amazônica. Em algumas áreas, eles cobram impostos de garimpeiros, controlam o transporte fluvial ou decidem quem pode trabalhar em terras disputadas. O ouro e a madeira ilegais agora geram renda e influência territorial”, declarou à CNN.
O estudo destaca que a disputa entre as organizações vai muito além das tradicionais rotas do narcotráfico. Os grupos buscam controlar rios, pistas clandestinas, áreas de mineração, comunidades isoladas e corredores logísticos utilizados para transportar drogas, ouro, madeira e outros produtos ilegais destinados aos mercados nacional e internacional.
A pesquisa também aponta que diferentes modalidades criminosas passaram a operar de forma integrada. Recursos obtidos com o garimpo ilegal financiam o tráfico de drogas, enquanto a grilagem facilita novas áreas de exploração mineral e a infraestrutura utilizada para o transporte de madeira também serve para movimentar cocaína, armas e outros produtos ilícitos.
Infiltração na economia formal
O relatório chama atenção para a crescente capacidade das organizações criminosas de infiltrar recursos ilícitos na economia legal.
Segundo Muggah, a comercialização de ouro extraído ilegalmente continua sendo um dos maiores desafios para os órgãos de fiscalização, já que o minério pode ser misturado à produção regular antes de chegar às refinarias, dificultando o rastreamento de sua origem.
Situação semelhante ocorre no setor agrícola, onde produtos provenientes de áreas ocupadas ilegalmente acabam inseridos nas cadeias formais de comercialização.
O estudo também identifica vulnerabilidades no mercado de combustíveis. De acordo com o pesquisador, roubos e adulterações provocam prejuízos bilionários ao setor, enquanto organizações criminosas utilizam postos legalizados para revender combustíveis obtidos de forma ilícita.
Os portos brasileiros aparecem igualmente como pontos críticos. Conforme o relatório, facções recrutam funcionários, manipulam contêineres e utilizam empresas de fachada para enviar cocaína e outras mercadorias ilegais ao exterior.
Governo Federal é cobrado por atuação mais eficaz
Embora o enfrentamento ao crime organizado seja uma responsabilidade compartilhada entre União, estados e municípios, especialistas avaliam que grande parte das ações necessárias depende diretamente do Governo Federal.
Entre as atribuições federais estão o combate aos crimes transnacionais, a fiscalização das fronteiras, o fortalecimento da Polícia Federal, da Polícia Rodoviária Federal, do Ibama, do ICMBio e da Receita Federal, além da coordenação de operações de inteligência financeira, do controle da lavagem de dinheiro e da cooperação internacional contra organizações criminosas.
Na avaliação apresentada pelo estudo, os resultados alcançados até o momento ainda não têm sido suficientes para desarticular a estrutura financeira das facções. A permanência de cadeias ilegais ligadas ao garimpo, à madeira, ao ouro e à grilagem evidencia dificuldades do poder público em impedir que essas atividades continuem financiando o avanço do crime organizado na Amazônia.
Os pesquisadores defendem que o Governo Federal intensifique a integração entre os órgãos de segurança, fiscalização ambiental e controle financeiro, ampliando investimentos em inteligência, rastreamento de ativos e combate à lavagem de dinheiro. Também apontam como necessária uma atuação mais efetiva no controle das fronteiras e na fiscalização das cadeias produtivas que permitem a inserção de produtos ilegais no mercado formal.
Para Robert Muggah, concentrar esforços apenas em operações policiais e militares não é suficiente para enfraquecer as organizações criminosas.
“O maior erro é tratar o crime organizado principalmente como um adversário armado que pode ser derrotado por meio de prisões e intervenções militares. Essas medidas podem produzir resultados visíveis, mas muitas vezes deixam intacta a estrutura mais profunda do poder criminoso.”
O estudo conclui que políticas públicas voltadas à inteligência financeira, ao combate à lavagem de dinheiro, à recuperação de ativos ilícitos e à cooperação internacional tendem a produzir resultados mais duradouros do que ações focadas exclusivamente em prisões e apreensões.
