
“A logística foi feita na hora. A gente saiu de Paracatu e a gente foi colocando no Google Maps para poder ver quantos quilômetros daria até chegar em Brasília.” – Foto: Gabriela Biló/Folhapress
A caminhada liderada pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) chegou a mais um dia neste sábado (24) marcada por grande mobilização de apoiadores, intenso registro de imagens para redes sociais e críticas quanto à falta de estrutura e segurança ao longo do trajeto. O ato, organizado em protesto contra a condenação dos acusados de tentativa de golpe de Estado, tem atraído parlamentares e pré-candidatos em busca de visibilidade política.

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Iniciada na segunda-feira (19), em Paracatu (MG), a caminhada percorre cerca de 240 quilômetros até Brasília, com passagem por cidades do interior de Goiás. Segundo organizadores e participantes, o número de apoiadores cresceu ao longo dos dias e já chega a algumas centenas.
Acompanhando trechos do percurso, foi observado que, apesar do clima de mobilização e apoio ao deputado, faltam planejamento logístico e estrutura básica para os participantes. Ao longo da rodovia BR-040, manifestantes caminham pelo acostamento, separados do tráfego apenas por uma corda e orientações pontuais de agentes de segurança. Empurrões e situações de risco foram registrados, inclusive com a presença de idosos e crianças no grupo.
A Polícia Rodoviária Federal afirmou que a caminhada apresenta “riscos à segurança viária”. Parlamentares da oposição também criticaram a iniciativa. O deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) classificou a manifestação como irregular e afirmou que o ato coloca vidas em perigo.
Nikolas Ferreira disse que optou por uma caminhada para evitar acampamentos fixos, alegando que isso poderia abrir espaço para conflitos. O deputado admitiu, no entanto, que não houve planejamento prévio detalhado e que nem mesmo o PL foi informado formalmente sobre a iniciativa. “A logística foi sendo feita na hora, com base no trajeto indicado pelo Google Maps”, afirmou.
Enquanto a maioria dos apoiadores enfrenta longas horas de caminhada sob sol e cansaço físico, o deputado percorre o trajeto acompanhado por escolta policial e apoio de assessores. Em paradas, recebe cuidados médicos básicos, como uso de pomadas e imersão dos pés em gelo, segundo relatos da própria equipe.
Ao longo do caminho, celulares e câmeras são onipresentes. Apoiadores disputam espaço para selfies e vídeos com Nikolas, cujo acesso é controlado por seguranças. Também são comuns referências simbólicas ao bolsonarismo, como bonecos do ex-presidente Jair Bolsonaro e objetos ligados aos atos de 8 de janeiro.
Apesar do discurso de que o movimento não teria caráter eleitoral, a caminhada atraiu vereadores, deputados, senadores e pré-candidatos às eleições de 2026. Faixas com críticas ao presidente Lula, ao STF e ao ministro Alexandre de Moraes se misturam a pedidos por voto impresso e slogans como “Acorda Brasil”.
Para participantes, o ato representa um protesto contra o que chamam de perseguição política e restrições à liberdade de expressão. “Queremos um país livre e honesto”, disse uma manifestante que viajou do interior de São Paulo para acompanhar o grupo.
Caminhada vira teste de força e acende sinal de alerta no campo progressista
A caminhada liderada pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) também passou a ser interpretada por setores da esquerda como um sinal de reorganização e crescimento de um movimento político que não estava no radar imediato do calendário eleitoral de 2026. Embora apresentada pelos organizadores como um protesto pontual, a iniciativa ganhou dimensão nacional e passou a provocar reações de parlamentares, lideranças e instituições ligadas ao campo progressista.

A caminhada é de aproximadamente, 240 km. Nas paradas, de acordo com um assessor do deputado, ele tira os sapatos, coloca os pés no gelo e passa uma pomada usada para o alívio de dores musculares – Foto: Gabriela Biló/Folhapress
Entre as principais críticas feitas por representantes da esquerda está a avaliação de que o ato ultrapassa o caráter simbólico e se aproxima de uma estratégia de mobilização permanente, semelhante à adotada por grupos bolsonaristas em momentos anteriores de tensão institucional. Parlamentares do PT e de partidos aliados apontam riscos à segurança pública, questionam a legalidade da manifestação em rodovias federais e veem no movimento uma tentativa de manter viva a narrativa de contestação às decisões do Supremo Tribunal Federal.
Outro ponto destacado por críticos é o fato de a caminhada ter atraído deputados, senadores, vereadores e pré-candidatos, apesar do discurso oficial de que não se trata de um ato eleitoral. Para a esquerda, a presença maciça de políticos indica que o movimento funciona como vitrine para lideranças conservadoras e de direita que buscam capitalizar politicamente a insatisfação de parte do eleitorado, antecipando disputas que ainda não estavam formalmente colocadas.
Nos bastidores, integrantes do governo e aliados avaliam que a mobilização expõe uma dificuldade do campo progressista em reagir rapidamente a ações de rua organizadas pela direita, especialmente quando elas se apoiam em símbolos emocionais, discursos de liberdade e forte engajamento nas redes sociais. Há também a leitura de que atos como esse podem forçar a esquerda a acelerar sua própria estratégia de mobilização, antes mesmo do início oficial do período eleitoral.
Para críticos, a caminhada evidencia ainda um paradoxo: ao mesmo tempo em que denuncia o sistema político e institucional, o movimento se apoia fortemente em figuras com mandato, estrutura de segurança e ampla visibilidade midiática. Essa contradição é explorada por opositores como argumento de que o protesto não representa um movimento espontâneo, mas sim uma ação política organizada com objetivos claros de fortalecimento de lideranças da direita.
Mesmo sem ter sido planejada como uma ação de campanha, a caminhada acabou inserida no debate eleitoral e passou a ser vista como um termômetro da capacidade de mobilização da direita fora das redes sociais. Para a esquerda, o episódio acende um alerta: a disputa política de 2026 pode ter começado antes do previsto, nas estradas, nos atos de rua e na ocupação simbólica do espaço público.

Apesar do clima de mobilização e apoio ao deputado, falta planejamento e estrutura básica para os participantes, separados do tráfego apenas por uma corda e orientações pontuais de agentes de segurança. Empurrões e situações de risco foram registrados, inclusive com a presença de idosos e crianças no grupo – Foto: Gabriela Biló/Folhapress
A expectativa dos organizadores é que Nikolas chegue a Brasília neste domingo (25), encerrando a caminhada com um novo ato político na capital federal.
