
Manaus (AM) coberta de fumaça nesta quarta-feira (23), em dia de qualidade do ar em patamar péssimo – Raphael Alves/Agencia Enquadrar
Manaus enfrenta uma combinação de calor extremo, fumaça e aumento expressivo das queimadas justamente no período em que o fenômeno El Niño deve ganhar ainda mais força. Enquanto a capital amazonense registra níveis de poluição considerados péssimos, um levantamento do Laboratório de Impacto Climático da Universidade de Chicago estima que 13,3 mil brasileiros poderão morrer em decorrência de dias de calor extremo entre setembro de 2026 e fevereiro de 2027.
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A projeção faz parte de uma estimativa mais ampla, segundo a qual o atual episódio de El Niño poderá estar associado a aproximadamente 451 mil mortes por calor extremo em todo o mundo durante o período analisado. O cálculo considera o excesso de mortalidade provocado pelas temperaturas acima do padrão e não inclui outros possíveis impactos do fenômeno, como secas, incêndios florestais e inundações.
No Amazonas, os efeitos já são sentidos pela população.
Manaus coberta pela fumaça
Nesta quarta-feira (23), Manaus registrou concentração de 291 microgramas de material particulado fino por metro cúbico (µg/m³), segundo dados do Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).
Pelos parâmetros utilizados no monitoramento, a qualidade do ar é considerada boa quando a concentração fica entre 0 e 25 µg/m³ e passa à classificação de “péssima” quando ultrapassa 125 µg/m³.
Em setembro, sensores da plataforma RedeAr apontaram média diária superior a 30 µg/m³, o dobro do limite de 15 µg/m³ recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
A fumaça tem provocado sintomas entre moradores, como ardência nos olhos, irritação no nariz e na garganta, além de aumentar a preocupação com problemas respiratórios. Em vários pontos da cidade, moradores passaram a utilizar máscaras para reduzir a exposição aos poluentes.
Um dos principais riscos está relacionado ao material particulado PM2,5, formado por partículas extremamente pequenas que podem penetrar profundamente nos pulmões e alcançar a corrente sanguínea.
Queimadas disparam no Amazonas
O aumento da poluição ocorre paralelamente à explosão no número de focos de queimadas.
Dados do Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), apontam que o Amazonas registrou 3.240 focos de queimadas entre 1º e 22 de setembro, contra 942 no mesmo período de 2025. A alta chega a 244%.
Os focos estão concentrados principalmente nas regiões norte, leste e sul do estado, mas o avanço do fogo também alcança áreas próximas à Região Metropolitana de Manaus.
Itacoatiara, por exemplo, contabilizou 133 focos de calor no período analisado, contra 62 registrados no mesmo intervalo de 2024, último ano marcado por um forte episódio de El Niño. Em Careiro Castanho, foram 76 focos, ante 47 no mesmo período de 2024.
Na comunidade São João, localizada no quilômetro 35 da BR-319, moradores relatam dificuldades para combater um incêndio que persiste há dias.
Calor bate recorde no Amazonas
Além da fumaça, o calor extremo amplia a pressão sobre a saúde da população.
Na terça-feira (22), o Amazonas registrou a maior temperatura do ano: 38,6°C, segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).
Pesquisadores ouvidos na reportagem relacionam o cenário à combinação entre o El Niño, o aquecimento dos oceanos, a redução das chuvas e alterações na circulação atmosférica.
A previsão da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (Noaa) é de que o fenômeno alcance uma intensidade muito forte a partir deste mês.

El Niño 2026 pode provocar seca pior que a de 2015 – Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
Brasil entre os países mais afetados
A estimativa do Laboratório de Impacto Climático da Universidade de Chicago coloca o Brasil entre os países que poderão registrar maior número de mortes relacionadas ao calor extremo.
O país aparece com 13,3 mil mortes projetadas, atrás de Nigéria, Indonésia, Sudão e Índia. Para o Brasil, a margem de erro indicada no levantamento é de aproximadamente 700 mortes para mais ou para menos.
Os pesquisadores afirmam que as projeções foram elaboradas a partir de dados históricos sobre a relação entre temperatura e mortalidade, considerando diferenças de clima, vulnerabilidade e capacidade de adaptação em milhares de regiões do planeta.
O estudo alerta que o cenário pode representar uma espécie de antecipação de condições que, com o avanço das mudanças climáticas, poderão se tornar mais frequentes nas próximas décadas.
Alerta para populações vulneráveis
O impacto do calor não é distribuído de maneira uniforme. Populações com menor capacidade de adaptação tendem a ficar mais expostas aos efeitos das temperaturas extremas.
Entre as medidas apontadas pelos pesquisadores para reduzir o número de mortes estão sistemas de alerta precoce, identificação e acompanhamento de pessoas vulneráveis, criação de centros de resfriamento e medidas de proteção para trabalhadores expostos ao calor.
No caso de Manaus e de outras cidades amazônicas, o cenário é agravado pela combinação entre calor, baixa umidade, fumaça e exposição aos poluentes produzidos pelas queimadas.
Decreto prevê emergência acima de 250 µg/m³
No Amazonas, um decreto assinado em 9 de setembro pelo governador Roberto Cidade proibiu o uso do fogo no estado e estabeleceu critérios para eventual declaração de situação de emergência relacionados à qualidade do ar.
Pelo decreto, níveis de material particulado superiores a 250 µg/m³ podem levar à adoção de medidas como recomendação para redução ou suspensão temporária de atividades presenciais dos órgãos públicos.
O índice registrado em Manaus nesta quarta-feira, de 291 µg/m³, ultrapassou esse parâmetro.
O cenário coloca em evidência o desafio de transformar os alertas climáticos em ações concretas de prevenção, especialmente em períodos nos quais calor extremo e fumaça se combinam.
Para especialistas, a emergência não deve ser tratada apenas como um problema ambiental. O avanço das queimadas e a elevação das temperaturas também representam uma questão de saúde pública, com impacto direto sobre crianças, idosos, pessoas com doenças respiratórias e cardiovasculares e trabalhadores expostos ao ar livre.
Com a previsão de fortalecimento do El Niño nos próximos meses, a perspectiva é de que calor, seca, queimadas e fumaça continuem pressionando o Amazonas, enquanto o mundo acompanha um fenômeno climático que pode produzir efeitos cada vez mais severos sobre a saúde da população.
