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Saúde Yanomami: números de mortes disparam no governo Lula e geram debate, enquanto governo aponta queda de óbitos em 2026

Levantamento divulgado pela VEJA aponta dados do Ministério da Saúde afirma que indicadores de mortalidade e doenças graves já mobilizam até o STF.


Indígenas observam a movimentação de aeronaves na pista de pouso do Polo Base de Surucucu, na Terra Indígena Yanomami, em Roraima – Foto: Lalo de Almeida/Folhapress

 

A situação de saúde na Terra Indígena Yanomami voltou ao centro do debate nacional após a divulgação de um relatório do Ministério da Saúde encaminhado ao Congresso Nacional. O documento registra 1.138 mortes de indígenas Yanomami entre 2023 e 2025, nos três primeiros anos do atual governo federal.

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O número supera os 951 óbitos registrados entre 2019 e 2021, período correspondente aos três primeiros anos da gestão de Jair Bolsonaro. Os dados foram divulgados inicialmente pela Gazeta do Povo e posteriormente repercutidos por outros veículos.

A comparação, entretanto, tornou-se alvo de contestação do governo Lula. A Secretaria de Comunicação Social da Presidência afirma que os registros dos dois períodos não podem ser analisados como se tivessem ocorrido sob condições equivalentes, principalmente devido à precariedade da assistência e à possível subnotificação de doenças e óbitos nos anos anteriores.

Ao mesmo tempo, os dados oficiais mais recentes mostram uma mudança importante no cenário. Segundo o Ministério da Saúde, o número total de mortes caiu 29,5% no primeiro semestre de 2026 em comparação com o mesmo período de 2023.

1.138 mortes em três anos

De acordo com o relatório citado na reportagem, foram contabilizados:

  • 435 mortes em 2023;
  • 347 mortes em 2024;
  • 356 mortes em 2025;
  • 1.138 mortes no período de 2023 a 2025.

Entre as principais causas identificadas estão as infecções respiratórias agudas, com 219 mortes, a desnutrição, com 104, e a malária, com 47 óbitos.

No período equivalente dos três primeiros anos do governo Bolsonaro, foram registrados 263 óbitos em 2019, 334 em 2020 e 354 em 2021, totalizando 951.

A diferença entre os dois períodos é de 187 mortes.

É importante destacar, porém, que esses números representam óbitos registrados e que a qualidade e a capacidade de cobertura dos serviços de saúde podem influenciar os registros ao longo do tempo.

2023 concentrou o maior número de mortes

O primeiro ano do governo Lula foi também o período com maior número de mortes na série apresentada pelo relatório: 435 óbitos.

Em 2024, o número caiu para 347, mas voltou a subir para 356 em 2025.

O governo federal argumenta que 2023 foi marcado pelo início de uma grande operação de emergência sanitária e pela reconstrução de uma estrutura de atendimento que, segundo a administração federal, havia chegado a um nível crítico nos anos anteriores.

Essa diferença de interpretação é o principal ponto de disputa em torno dos números.

 

Alojamento para familias doentes na únidade de saúde do Polo Base Auaris – Foto: Lalo de Almeida/Folhapress

 

Governo contesta comparação entre os períodos

Após a divulgação dos dados, a Secretaria de Comunicação Social da Presidência afirmou que a comparação direta entre os governos ignora diferenças nas condições de atendimento e de registro.

Segundo o governo, entre 2019 e 2022 houve deterioração da assistência à saúde no território, com unidades e polos-base fechados ou destruídos e comunidades sem atendimento regular. A avaliação oficial é de que esse cenário teria provocado subnotificação de adoecimentos e mortes.

A administração federal afirma que, a partir de 2023, houve expansão da busca ativa, dos diagnósticos, da vigilância epidemiológica e do atendimento médico.

O governo também sustenta que os indicadores de 2026 apresentam melhora concreta.

Mortalidade caiu 29,5% em 2026

Os dados divulgados pelo Ministério da Saúde nesta segunda-feira (24) mostram que 158 mortes por todas as causas foram registradas entre janeiro e junho de 2026, contra 224 no mesmo período de 2023.

A redução foi de 29,5%.

O indicador é relevante porque permite comparar períodos equivalentes e evita misturar três anos completos de uma administração com três anos de outra para avaliar uma tendência epidemiológica mais recente.

Além da mortalidade geral, houve redução significativa em causas específicas.

As mortes por desnutrição caíram 75,7%, enquanto os óbitos provocados por infecções respiratórias agudas recuaram 40,8% na comparação entre os primeiros semestres de 2023 e 2026.

 

Criança Yanomami ao lado do alojamento utilizado para abrigar indígenas vindos da região de Surucucu – Foto: Lalo de Almeida/Folhapress

 

Mortes por malária foram zeradas no primeiro semestre

Outro dado apresentado pelo Ministério da Saúde diz respeito à malária.

Entre janeiro e junho de 2026, foram confirmados 6,8 mil casos da doença na Terra Indígena Yanomami. Apesar do número elevado de infecções, não houve registro de morte por malária no período.

O total de casos representa uma redução de 50,6% em relação ao primeiro semestre de 2023.

Ao mesmo tempo, a capacidade de diagnóstico aumentou. Foram realizados 145 mil exames para detecção da doença no primeiro semestre, crescimento de 85,4% em relação ao mesmo período de 2023.

O Ministério da Saúde também informou que 1.515 pessoas receberam tratamento com tafenoquina para casos elegíveis de malária causada pelo Plasmodium vivax.

Vacinação avançou

A vacinação é outro indicador usado pelo governo para demonstrar a ampliação da assistência.

No primeiro trimestre de 2023, foram aplicadas 11.273 doses no território Yanomami. No mesmo período de 2026, foram 20.267 doses, aumento de 79,8%.

Entre crianças menores de um ano, a proporção com o esquema vacinal completo passou de 28% para 57,6%.

O acompanhamento nutricional também foi ampliado e, segundo o Ministério da Saúde, alcançou 84% das crianças.

Estrutura de saúde foi ampliada

A Presidência afirma que o número de profissionais de saúde que atuam no território passou de aproximadamente 690 para mais de 2,1 mil.

O governo também informa que atualmente estão funcionando 37 polos-base e 40 Unidades Básicas de Saúde, além do Centro de Referência de Surucucu, voltado ao atendimento de casos mais graves.

A ampliação da estrutura é apresentada como parte da estratégia para reduzir a necessidade de remoções e permitir que pacientes sejam atendidos mais próximos de suas comunidades.

 

Indígenas aguardam a chegada do transporte aeromédico – Foto: Lalo de Almeida/Folhapress

 

Garimpo ilegal permanece como desafio

A crise sanitária não pode ser dissociada da situação territorial.

O garimpo ilegal é apontado por órgãos públicos e pelo próprio governo como um dos principais fatores de pressão sobre as comunidades Yanomami. A atividade pode provocar contaminação dos rios, degradação ambiental, insegurança alimentar e dificuldades de circulação das equipes de saúde.

Segundo dados apresentados pelo governo, entre março de 2024 e agosto de 2026 houve redução de aproximadamente 99% na abertura de novas áreas de garimpo dentro da Terra Indígena Yanomami.

O governo também afirma que as operações de fiscalização provocaram prejuízo estimado em R$ 768 milhões à atividade ilegal no período.

Esses números são apresentados pela administração federal como evidência de que a presença do Estado no território foi ampliada.

 

Pista de pouso clandestina no lado da Venezuela com aviões suspeitos de atuar no garimpo na Terra Indígena YanomamiFoto: Lalo de Almeida/Folhapress

 

STF encerrou ação sobre proteção dos indígenas

Outro marco citado pelo governo foi a decisão do Supremo Tribunal Federal sobre a ADPF 709, ação que tratou das medidas de proteção aos povos indígenas.

Em setembro de 2025, o STF decidiu por unanimidade encerrar a ação após considerar que a União havia avançado no cumprimento das medidas determinadas para fortalecer a atenção à saúde indígena e combater invasões em terras indígenas.

A decisão, entretanto, não significou o fim das ações de proteção no território Yanomami. O governo informou que mais de 20 órgãos federais continuariam atuando na região.

O que os números permitem concluir?

Os dados disponíveis mostram duas realidades que precisam ser consideradas simultaneamente.

De um lado, o relatório do Ministério da Saúde registra 1.138 mortes entre 2023 e 2025, número superior aos 951 óbitos contabilizados nos três primeiros anos do governo Bolsonaro.

De outro, os indicadores mais recentes mostram queda da mortalidade em 2026, além de reduções expressivas nas mortes por desnutrição, infecções respiratórias e malária.

Por isso, o número acumulado de mortes não deve ser interpretado isoladamente como prova de que a situação sanitária esteja atualmente piorando. Da mesma forma, a melhora dos indicadores de 2026 não elimina a dimensão da crise registrada nos anos anteriores.

A principal controvérsia está justamente na comparação dos registros: o governo afirma que parte dos óbitos dos anos anteriores pode ter deixado de ser contabilizada devido à precariedade da assistência, enquanto críticos da atual administração argumentam que os números oficiais registrados entre 2023 e 2025 mostram que a mortalidade permaneceu extremamente elevada.

 

Mulher Yanomami com suspeita de meningite aguarda o resgate aéreo sendo atendida por uma enfermeira no Polo Base AuarisFoto: Lalo de Almeida/Folhapress

 

Crise ainda exige acompanhamento

A Terra Indígena Yanomami continua enfrentando desafios relacionados à saúde, logística, segurança alimentar, doenças infecciosas e proteção territorial.

A redução dos indicadores em 2026 representa uma melhora importante, mas a existência de milhares de casos de malária, a necessidade de acompanhamento nutricional permanente e as dificuldades de acesso a comunidades isoladas mostram que a situação permanece complexa.

A análise mais completa da crise exige acompanhar não apenas o número absoluto de mortes, mas também as causas dos óbitos, a população exposta, a cobertura dos serviços de saúde, a capacidade de diagnóstico, a vacinação, a desnutrição e a evolução dos casos de doenças infecciosas.

Assim, os números divulgados nesta semana recolocam a crise Yanomami no debate público, mas também mostram que a avaliação das políticas adotadas desde 2023 precisa considerar tanto o elevado número de mortes acumuladas quanto a evolução dos indicadores mais recentes.

Fontes: Ministério da Saúde, Supremo Tribunal Federal, Funai, Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República e reportagens da Gazeta do Povo e VEJA.