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Cuba mergulha em uma das piores crises das últimas décadas, com apagões, falta de combustível, lixo nas ruas e população sob pressão

Escassez de alimentos e medicamentos, interrupções no abastecimento de água, colapso de serviços públicos, protestos e aumento da repressão expõem a dimensão da crise que atinge cerca de 10 milhões de cubanos; governo culpa sanções dos Estados Unidos, enquanto especialistas apontam também problemas estruturais da economia cubana.


Trânsito quase parado no centro de Havana (Foto: Adalberto Roque/AFP)

 

Cuba atravessa, em agosto de 2026, uma das mais graves crises econômicas, energéticas e sociais de sua história recente. A combinação de falta de combustível, apagões prolongados, escassez de alimentos e medicamentos, problemas no abastecimento de água e deterioração dos serviços públicos vem alterando profundamente a rotina dos moradores da ilha.

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Em Havana, a crise tornou-se visível nas ruas. O acúmulo de lixo passou a fazer parte da paisagem de vários bairros, enquanto a falta de combustível reduz a circulação de caminhões responsáveis pela coleta. Em alguns locais, moradores chegaram a queimar resíduos acumulados nas vias, aumentando a preocupação com fumaça tóxica, doenças e deterioração das condições sanitárias.

A situação energética é o principal fator de agravamento da crise. Em 3 de agosto, Cuba sofreu um novo colapso nacional da rede elétrica, deixando aproximadamente 10 milhões de pessoas sem energia. Foi o quarto grande apagão registrado em poucas semanas, segundo a Reuters.

Vida cotidiana virou uma disputa pelos poucos minutos de energia

Os apagões deixaram de ser apenas interrupções temporárias e passaram a determinar a rotina das famílias.

Reportagem da Associated Press publicada em 7 de agosto mostrou moradores de Havana organizando tarefas domésticas em torno de breves períodos de fornecimento de eletricidade. Quando a energia retorna, famílias tentam simultaneamente cozinhar, lavar roupas, carregar equipamentos, armazenar água e amenizar o calor.

Há relatos de interrupções que duram dias. Algumas pessoas passaram a utilizar fogareiros improvisados, lenha, baterias recarregáveis, painéis solares e pequenos geradores para enfrentar a falta de eletricidade e combustível.

O problema também afeta a alimentação. Sem energia, geladeiras e freezers deixam de funcionar, fazendo com que alimentos estraguem. Para famílias que já enfrentam inflação e dificuldade para comprar produtos básicos, perder comida representa um golpe adicional no orçamento.

A inflação e a desvalorização da moeda cubana ampliaram o problema. Mesmo quando determinados alimentos aparecem no mercado, uma parcela da população não possui renda suficiente para comprá-los em quantidade necessária.

Lixo se acumula nas ruas de Havana

 

Um homem joga lixo em uma rua no centro de Havana, Cuba – 15/02/2026 (Foto: Norlys Perez/REUTERS)

 

Um dos sinais mais visíveis do agravamento da crise é o colapso parcial da coleta de lixo, que vem se agravando desde o inicio do ano.

Havana, cidade com aproximadamente 2 milhões de habitantes, vem registrando montanhas de resíduos em esquinas e áreas residenciais. O problema está diretamente relacionado à falta de combustível para os veículos utilizados na coleta.

A Associated Press relatou que caminhões de lixo ficaram parados em razão da escassez de combustível. O resultado foi o acúmulo de resíduos em praticamente todos os bairros da capital.

 

Um carro antigo passa por uma pilha de lixo acumulado em uma rua de Havana, em 17 de fevereiro de 2026  (Foto: Yamil Lage/AFP)

 

O problema não é apenas estético.

O lixo acumulado favorece a presença de insetos e roedores e aumenta os riscos sanitários. A situação se torna ainda mais delicada porque Cuba também enfrenta dificuldades para manter sistemas de abastecimento de água, tratamento de resíduos e serviços de saúde.

Em alguns bairros, moradores passaram a colocar fogo no lixo para tentar reduzir o volume de resíduos nas ruas. A prática, entretanto, pode liberar substâncias tóxicas e agravar problemas respiratórios.

Falta de água acompanha os apagões

A crise elétrica também afeta o fornecimento de água.

Sem eletricidade suficiente, sistemas de bombeamento e tratamento enfrentam dificuldades para funcionar normalmente. A Organização Pan-Americana da Saúde já alertou que os apagões podem comprometer o tratamento e o armazenamento seguro da água, aumentando o risco de doenças transmitidas pelo líquido contaminado.

Em julho, a ONU informou que famílias cubanas enfrentavam simultaneamente apagões, falta de água, escassez de medicamentos e alimentos e aumento dos preços de produtos essenciais.

A falta de combustível também prejudica o transporte de água e o funcionamento de serviços essenciais.

Hospitais e sistema de saúde sob pressão

A crise chegou ao sistema de saúde, tradicionalmente apresentado pelo governo cubano como uma das principais conquistas da Revolução.

A falta de combustível prejudica ambulâncias, hospitais, policlínicas, laboratórios e sistemas de refrigeração necessários para medicamentos e vacinas. Segundo informações apresentadas à ONU, a fila para cirurgias está crescendo e o sistema enfrenta dificuldades para garantir o atendimento adequado a mulheres grávidas e a vacinação de crianças.

A deterioração da infraestrutura também prejudica a conservação de medicamentos.

Com apagões prolongados, equipamentos que dependem de refrigeração ficam vulneráveis, enquanto pacientes enfrentam dificuldades para chegar aos hospitais por causa da falta de transporte e combustível.

Reportagens recentes também apontam aumento da dificuldade de acesso a medicamentos e problemas na assistência a pessoas com doenças crônicas.

Doenças e condições sanitárias aumentam preocupação

A precariedade do abastecimento de água, o acúmulo de lixo e as dificuldades de saneamento criam condições favoráveis à disseminação de doenças.

A Organização Pan-Americana da Saúde registra que Cuba já vinha enfrentando problemas relacionados a doenças transmitidas por mosquitos. Em 2025, o país declarou um surto multiviral envolvendo dengue, Oropouche e chikungunya.

O risco sanitário cresce quando a coleta de lixo é interrompida e quando o abastecimento de água e a infraestrutura de saúde funcionam de maneira irregular.

Combustível virou o centro da crise

A escassez de petróleo é um dos elementos que ajudam a explicar a dimensão do colapso.

Cuba depende fortemente de combustível importado para movimentar suas usinas termelétricas, veículos, transporte público, ambulâncias, caminhões de coleta de lixo e máquinas utilizadas na agricultura e na indústria.

A interrupção ou redução do fornecimento de petróleo proveniente de países que historicamente abasteceram a ilha agravou uma situação que já era delicada.

A Reuters informou no início de 2026 que a Venezuela respondia por aproximadamente metade do déficit de petróleo de Cuba. Com a redução do fornecimento venezuelano, Havana passou a enfrentar dificuldades ainda maiores para manter suas usinas funcionando.

Em agosto, a situação continuou crítica. Um novo apagão nacional em 3 de agosto foi associado à combinação de falta de combustível e problemas em uma infraestrutura elétrica envelhecida.

Governo cubano culpa os Estados Unidos

O governo de Miguel Díaz-Canel atribui grande parte da crise às sanções e restrições impostas pelos Estados Unidos.

Em entrevista publicada em 23 de agosto, Díaz-Canel afirmou que Cuba está submetida a uma pressão econômica extrema e que as medidas americanas atingem diretamente o acesso da ilha a combustível, alimentos, medicamentos e outros produtos essenciais. O presidente também reconheceu problemas internos, mas afirmou que o bloqueio americano é o principal fator responsável pela atual situação.

Em julho, representantes cubanos afirmaram na ONU que as restrições ao acesso a combustível estavam prejudicando inclusive atividades comerciais e humanitárias.

Washington, por outro lado, sustenta que as dificuldades cubanas também são resultado da gestão econômica do próprio governo e de um modelo estatal marcado por ineficiência e falta de investimentos.

Problemas internos também pesam

A explicação para a crise não é consensual.

Embora as sanções americanas tenham impacto sobre a capacidade cubana de importar combustível, financiar compras e obter peças e equipamentos, análises internacionais também apontam problemas estruturais acumulados durante décadas.

A infraestrutura elétrica é antiga e necessita de investimentos. A economia estatal apresenta baixa produtividade, enquanto a escassez de divisas limita a capacidade de importar alimentos, combustível, máquinas e peças de reposição.

A própria Reuters já apontou corrupção, burocracia, ineficiência e falta de recursos como fatores que contribuíram para a deterioração da infraestrutura cubana.

Assim, a crise atual resulta da combinação de fatores externos e internos: sanções e restrições comerciais, perda de fornecedores de petróleo, envelhecimento da infraestrutura, baixa capacidade de investimento, problemas de produtividade e uma economia com pouca disponibilidade de moeda estrangeira.

Protestos começam a se multiplicar

A insatisfação social também aumentou.

Em março, manifestações ocorreram em meio ao agravamento dos problemas de energia e abastecimento. Em um dos episódios, autoridades cubanas disseram que um escritório local do Partido Comunista foi incendiado durante um protesto antigoverno.

Nos últimos meses, moradores voltaram a protestar contra apagões, falta de alimentos e deterioração das condições de vida.

Em Havana, alguns protestos ocorreram depois de interrupções de energia superiores a 48 horas. Moradores bateram panelas e, em determinados locais, queimaram o lixo acumulado nas ruas.

O crescimento dos protestos também vem acompanhado de aumento da repressão.

ONG registra aumento de protestos e violações de direitos

Segundo levantamento da organização Cubalex divulgado em agosto, Cuba registrou 766 protestos no primeiro semestre de 2026, sendo 253 somente em junho.

A organização também contabilizou 1.894 violações de direitos humanos no período, número que representaria aumento de 48% em relação ao semestre anterior.

Segundo o levantamento, 919 pessoas foram alvo de repressão e Havana concentrou 662 episódios. A Cubalex também registrou 42 mortes que classifica como potencialmente ilícitas e atribuídas ao Estado, número que teria aumentado 56% em relação ao semestre anterior.

Os números são apresentados por uma organização de direitos humanos e devem ser considerados dentro desse contexto, já que não representam uma estatística oficial do governo cubano.

Turismo praticamente paralisado

A crise também atingiu um dos principais setores responsáveis pela entrada de divisas em Cuba: o turismo.

Apagões, falta de combustível, dificuldades de transporte e deterioração da infraestrutura reduziram a capacidade do país de receber visitantes.

Segundo a Associated Press, empresas do setor turístico chegaram a deixar cerca de 25 mil postos de trabalho na hotelaria vagos, enquanto voos para a ilha passaram a ser cancelados regularmente.

A redução do turismo cria um ciclo negativo: menos visitantes significam menos entrada de moeda estrangeira, justamente quando o país mais precisa de recursos para importar combustível, alimentos, medicamentos e peças para sua infraestrutura.

Transporte público também sofre

A falta de combustível paralisa ônibus, caminhões, veículos de coleta de lixo e outros serviços.

Em uma cidade como Havana, onde milhões de pessoas dependem do transporte coletivo, a redução da circulação significa mais tempo de deslocamento e dificuldade para chegar ao trabalho, escolas, hospitais e mercados.

A própria jornada de trabalho vem sendo afetada pelos apagões.

Com empresas sem eletricidade e transporte irregular, determinadas atividades são reduzidas ou interrompidas.

Famílias dependem cada vez mais de parentes que vivem no exterior

Outro fenômeno importante é a dependência crescente das remessas enviadas por cubanos que vivem fora do país.

Famílias com parentes no exterior conseguem comprar equipamentos como ventiladores recarregáveis, baterias, alimentos e outros produtos que se tornaram difíceis de obter.

A AP relatou casos de moradores que utilizam dinheiro enviado por filhos emigrados para adquirir equipamentos básicos e enfrentar os apagões.

Isso evidencia uma divisão importante dentro da sociedade: famílias que recebem dinheiro do exterior possuem alguma capacidade adicional para enfrentar a crise, enquanto outras dependem quase exclusivamente da renda obtida dentro da própria economia cubana.

Governo começa a flexibilizar economia

Diante da gravidade do cenário, o governo cubano começou a ampliar medidas de abertura econômica.

Em agosto, novas reformas passaram a flexibilizar regras para empresas privadas, importação e comercialização de produtos, investimentos estrangeiros, medicamentos e determinados serviços.

Segundo a Associated Press, o governo retirou 46 das 125 restrições existentes para atividades privadas e flexibilizou outras 35 regras. As mudanças incluem setores como medicamentos, transporte, cuidados para idosos e comércio.

A estratégia representa uma mudança significativa para um país cuja economia continua fortemente controlada pelo Estado.

Díaz-Canel afirma que as mudanças não significam abandono do socialismo, mas uma tentativa de adaptar o modelo econômico à realidade atual.

Cuba também busca ajuda internacional

A gravidade da situação levou diferentes países e organizações a discutirem formas de enviar ajuda humanitária para a ilha.

Em maio, o governo americano chegou a oferecer até US$ 100 milhões em ajuda, segundo a Reuters. Díaz-Canel afirmou que os principais destinos seriam combustível, alimentos e medicamentos, mas criticou as condições e a política de sanções de Washington.

A ONU também informou que trabalha para tentar facilitar o fornecimento de combustível destinado a fins humanitários.

Organizações internacionais e grupos de ajuda humanitária têm alertado para o risco de agravamento da situação caso o abastecimento energético não seja normalizado.

O que a população cubana enfrenta hoje

Para o cidadão comum, a crise deixou de ser apenas um problema econômico e passou a atingir praticamente todos os aspectos da vida cotidiana.

O cubano enfrenta, em diferentes graus:

  • apagões que podem durar muitas horas ou até dias;
  • dificuldade para conseguir combustível;
  • transporte público irregular;
  • falta ou aumento do preço dos alimentos;
  • medicamentos escassos;
  • problemas no abastecimento de água;
  • deterioração da coleta de lixo;
  • aumento de riscos sanitários;
  • dificuldade de conservação dos alimentos;
  • redução de atividades comerciais;
  • interrupção de serviços públicos;
  • dificuldades para trabalhar e estudar;
  • aumento da dependência de familiares que vivem no exterior;
  • inflação e perda do poder de compra;
  • crescimento da insatisfação política;
  • protestos e repressão.

A crise também tem um efeito psicológico. Relatos recentes mostram uma população submetida à incerteza permanente, que precisa organizar tarefas básicas em torno da pergunta: quando a energia vai voltar?

Uma crise que vai muito além dos apagões

O cenário cubano de agosto de 2026 não pode ser explicado apenas pela falta de eletricidade. A energia é o ponto central de uma crise em cadeia.

Sem combustível, faltam eletricidade e transporte. Sem transporte, a coleta de lixo é prejudicada. Sem eletricidade, faltam água bombeada, refrigeração e funcionamento regular dos hospitais. Sem combustível e divisas, importar alimentos e medicamentos fica mais difícil. Com menos turismo, entram menos dólares. Com inflação, a população perde poder de compra. E com a deterioração das condições de vida, aumenta a pressão social.

É justamente essa combinação que transforma a atual situação em uma crise humanitária e econômica de grandes proporções.

O governo cubano responsabiliza principalmente as sanções e o bloqueio econômico americano. Os Estados Unidos atribuem parte importante do problema ao modelo econômico e à administração do regime cubano. Organizações independentes, por sua vez, denunciam tanto os efeitos das sanções quanto a repressão e os problemas estruturais internos.

Enquanto o debate político permanece aberto, a população enfrenta uma realidade concreta: ruas com lixo acumulado, casas sem luz, falta de água, alimentos que estragam, medicamentos escassos e uma rotina cada vez mais dependente de poucos minutos de energia.

E, em agosto de 2026, não há indicação de uma solução rápida para o problema. A combinação de infraestrutura envelhecida, escassez de combustível, dificuldades econômicas, pressão internacional e crise dos serviços públicos mantém Cuba diante de um dos períodos mais delicados desde o colapso econômico provocado pelo fim da União Soviética nos anos 1990.