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El Niño ganha força e já influencia o clima no Brasil; Sul tem mais chuva e Amazônia entra em alerta

Órgãos oficiais apontam intensificação do fenômeno no segundo semestre de 2026, com risco maior de extremos de chuva no Sul, seca no Norte e Nordeste e aumento das queimadas.


Nuvens carregadas em Sorocaba (SP) — Foto: Reprodução

 

O El Niño já está influenciando o clima no Brasil e deve ganhar intensidade nos próximos meses. O fenômeno, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico Equatorial, teve sua presença confirmada pelos órgãos de monitoramento climático e tem potencial para alterar o regime de chuvas e temperaturas em diferentes regiões do país.

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Em boletim divulgado em julho, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), em conjunto com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), o Cemaden, o Serviço Geológico do Brasil e o Censipam, apontou elevada probabilidade de que o fenômeno alcance intensidade forte a muito forte entre a primavera e o início do verão.

A NOAA, agência meteorológica dos Estados Unidos, também mantém atualmente o status de Alerta de El Niño. Em sua atualização de 13 de agosto, a agência confirmou que o fenômeno está presente e que as temperaturas do Pacífico Equatorial permanecem acima da média.

Sul já sente os efeitos do fenômeno

Uma das primeiras regiões brasileiras a apresentar sinais associados ao El Niño é o Sul. O padrão climático provocado pelo aquecimento do Pacífico favorece o transporte de umidade para a região e aumenta a frequência e o volume das chuvas.

O Inmet informou em julho que padrões atmosféricos típicos do fenômeno já estavam favorecendo episódios de chuva no Sul do país. Para agosto, o instituto manteve previsão de volumes acima da média em áreas do Rio Grande do Sul.

No Rio Grande do Sul, os efeitos recentes chamam atenção. Segundo dados apresentados no boletim citado pela CNN Brasil, mais de 84 mil pessoas, distribuídas por 171 municípios, foram afetadas pelas chuvas na última semana de julho.

O cenário aumenta a preocupação com enchentes, alagamentos e deslizamentos, especialmente porque o El Niño tende a favorecer períodos de precipitação mais intensa no Sul. O Cemaden também aponta maior risco de eventos extremos na região durante a atuação do fenômeno.

 

Agência climática dos EUA prevê que El Niño tem 90% de chance de atingir  força extrema e preocupa o Amazonas

 

Norte e Nordeste podem enfrentar mais seca

Enquanto o Sul tende a receber mais chuva, o cenário é diferente para o Norte e o Nordeste.

Nota técnica conjunta elaborada por Inpe, Inmet, Funceme e Censipam aponta que o El Niño costuma estar associado à redução das precipitações nessas regiões. Na Amazônia, especialmente na porção leste, a diminuição das chuvas pode provocar queda dos níveis dos rios, afetando navegação, pesca e abastecimento de comunidades.

A combinação de menos chuva, temperaturas mais altas e menor umidade também aumenta a vulnerabilidade à ocorrência e propagação de incêndios florestais.

Esse efeito é particularmente importante para a Amazônia Legal, onde períodos de estiagem podem favorecer o avanço do fogo sobre áreas de floresta e regiões agrícolas. A nota técnica dos órgãos federais cita episódios anteriores de El Niño, como o de 2015, quando condições de seca contribuíram para o aumento da inflamabilidade da floresta e de áreas produtivas.

Risco de queimadas aumenta

O avanço do período seco também coloca o Centro-Oeste e o sul da Amazônia entre as áreas que exigem maior atenção.

Um boletim do Painel El Niño 2026-2027, elaborado por órgãos federais, apontou que o trimestre entre julho e setembro tende a concentrar maior pressão sobre o Centro-Oeste e o arco sul da Amazônia, com possibilidade de maior propagação e persistência dos incêndios.

O Ministério do Meio Ambiente também alertou, em julho, para o aumento do risco de incêndios florestais entre agosto e outubro, principalmente na Amazônia, no Cerrado e em áreas do Centro-Oeste.

Apesar da preocupação, os dados mais recentes não significam que todas as áreas terão necessariamente mais queimadas. O comportamento do fogo depende também de fatores como uso da terra, ações de prevenção, umidade, vento e condições locais.

Amazônia merece atenção especial

Para a Amazônia, o principal alerta relacionado ao El Niño está na combinação entre estiagem e calor.

O Inpe e outros órgãos federais apontam que uma estação seca mais prolongada pode reduzir os níveis dos rios e aumentar o risco de incêndios. Para comunidades que dependem dos rios para transporte e abastecimento, uma eventual intensificação da seca pode trazer consequências econômicas e sociais.

O próprio Painel El Niño monitora os impactos hidrológicos e o risco de fogo justamente para antecipar possíveis situações de emergência.

 

Imagem mostra os pontos de desmatamento e os focos de incêndio na Amazônia em 2025 / Mapa: Amazon Conservation / Maap

 

Centro-Oeste e Sudeste podem ter mais calor

Os efeitos do El Niño não se limitam à distribuição das chuvas. O fenômeno também costuma elevar as temperaturas em grande parte do território brasileiro.

Segundo a nota técnica dos órgãos federais, há maior probabilidade de temperaturas acima da média em boa parte do Brasil, o que pode favorecer episódios de calor intenso. No Centro-Oeste, Norte e Nordeste, a combinação entre temperaturas elevadas e menor precipitação aumenta ainda mais a possibilidade de condições favoráveis às queimadas.

No Sudeste, os efeitos são considerados mais variáveis, mas também há tendência de temperaturas acima da média e possibilidade de períodos mais prolongados de estiagem em determinadas áreas.

Fenômeno pode persistir até 2027

As previsões indicam que o episódio não deve ser passageiro.

Em junho, Inpe, Inmet, Funceme e Censipam estimavam mais de 95% de probabilidade de manutenção das condições de El Niño durante o segundo semestre de 2026, com possibilidade de persistência até o início de 2027. Os modelos também apontavam potencial para intensidade forte a muito forte.

A NOAA já havia indicado, meses antes, que o fenômeno deveria se consolidar durante o inverno de 2026. Em março, o Inmet estimava que a probabilidade de estabelecimento do El Niño superaria 80% a partir de agosto e permaneceria elevada até o fim do ano.

As projeções, porém, são atualizadas regularmente à medida que novas informações sobre o oceano e a atmosfera ficam disponíveis.

O que é o El Niño?

O El Niño é uma das fases do fenômeno conhecido como El Niño-Oscilação Sul (ENOS). Ele ocorre quando as águas superficiais do Pacífico Equatorial ficam anormalmente mais quentes, alterando a circulação atmosférica e, consequentemente, os padrões de chuva e temperatura em diferentes partes do planeta.

No Brasil, os efeitos mais conhecidos são o aumento das chuvas no Sul e a tendência de redução das precipitações no Norte e Nordeste. A intensidade e a distribuição desses efeitos, entretanto, variam de um episódio para outro.

Por isso, especialistas recomendam que os impactos sejam acompanhados regionalmente e que governos e população observem os boletins meteorológicos e hidrológicos atualizados.

Cenário regional

Região Possíveis efeitos do El Niño
Sul Mais chuva, com risco de tempestades, enchentes e deslizamentos
Norte/Amazônia Menos chuva, níveis dos rios mais baixos e maior risco de incêndios
Nordeste Tendência de redução das chuvas e aumento do risco de seca
Centro-Oeste Mais calor, baixa umidade e maior risco de queimadas
Sudeste Temperaturas acima da média e efeitos variados sobre as chuvas

 

Os dados oficiais indicam, portanto, que o El Niño de 2026 já deixou de ser apenas uma possibilidade futura: o fenômeno está estabelecido e seus efeitos atmosféricos começam a aparecer no Brasil. A principal preocupação para os próximos meses é a possibilidade de intensificação dos extremos climáticos, com chuvas mais volumosas no Sul e condições mais quentes e secas em partes do centro-norte do país.

Nota editorial: a versão acima atualiza a matéria original com informações de Inmet, Inpe, Cemaden e NOAA, priorizando fontes oficiais. Há uma diferença importante em relação ao texto da CNN: os órgãos brasileiros confirmam alta probabilidade de um El Niño forte a muito forte, mas isso não significa que já seja possível afirmar que o episódio será “o mais devastador da história”. A intensidade e os impactos ainda dependem da evolução do fenômeno nos próximos meses.