A Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência especializada da Organização das Nações Unidas (ONU), alertou nesta sexta-feira (3) que o fenômeno El Niño deverá se intensificar rapidamente entre julho e setembro, atingindo a classificação de evento forte e ampliando o risco de extremos climáticos em diferentes partes do mundo.
Segundo o boletim climático sazonal divulgado pela entidade, o aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial já está em curso e deve ganhar intensidade ao longo dos próximos meses. A expectativa é que o fenômeno alcance o nível 3 em uma escala de quatro categorias, cenário que aumenta significativamente as chances de ondas de calor, estiagens prolongadas, chuvas intensas e enchentes.
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A secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, afirmou que os modelos meteorológicos apresentam elevada concordância sobre a evolução do fenômeno, conferindo alto grau de confiança às previsões. Conforme a agência, as anomalias na temperatura da superfície do mar podem ultrapassar 2°C nas principais áreas monitoradas do Pacífico Equatorial, favorecendo alterações nos padrões globais de circulação atmosférica.
O El Niño ocorre, em média, a cada dois a sete anos e costuma durar entre nove e doze meses. O fenômeno modifica os regimes de ventos, pressão atmosférica e distribuição das chuvas em diversas regiões do planeta, influenciando diretamente o clima em vários continentes.
Brasil já acompanha possíveis impactos
No Brasil, instituições como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil passaram a divulgar boletins mensais conjuntos para acompanhar a evolução do fenômeno.
O primeiro Painel El Niño 2026-2027 aponta probabilidade superior a 90% de permanência do evento até o início de 2027 e indica que o país poderá registrar impactos distintos entre as regiões. A tendência é de chuvas acima da média em parte da Região Sul.
Amazônia pode enfrentar seca, rios abaixo da média e aumento das queimadas

Imagem: Reprodução
Na Amazônia, especialistas acompanham com atenção a evolução do El Niño devido ao histórico de impactos provocados pelo fenômeno na região. De acordo com o Painel El Niño 2026-2027, elaborado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil, há possibilidade de redução das chuvas durante o segundo semestre, principalmente no sul e leste da Amazônia Legal.
A diminuição das precipitações pode favorecer períodos de estiagem mais prolongados, aumento das temperaturas, redução dos níveis dos rios e maior risco de incêndios florestais. Caso o fenômeno se mantenha intenso até o fim do ano, municípios do Amazonas, Pará, Acre, Rondônia e Mato Grosso poderão enfrentar dificuldades relacionadas ao abastecimento de comunidades ribeirinhas, navegação, pesca e produção agrícola.

Seca no Amazonas em 2023 – Foto: Reprodução
Os pesquisadores ressaltam que a combinação entre o El Niño e o aquecimento global tende a intensificar os efeitos das secas na região. Em anos anteriores, como 2023, o Amazonas registrou uma das estiagens mais severas de sua história, com rios atingindo níveis mínimos históricos, isolamento de comunidades, mortandade de peixes e botos, além de prejuízos ao transporte fluvial e ao abastecimento de alimentos.
Apesar das projeções, os órgãos de monitoramento destacam que os impactos podem variar entre as diferentes áreas da Amazônia e dependem da intensidade definitiva do El Niño, além da influência de outros fatores climáticos, como a
Especialistas destacam que esses cenários poderão sofrer ajustes conforme novas atualizações dos modelos climáticos forem divulgadas nos próximos meses.
Temperaturas globais podem voltar a bater recordes
De acordo com a OMM, a influência do El Niño costuma ser mais intensa no ano seguinte ao início do fenômeno, potencializando o aquecimento global já provocado pelas mudanças climáticas.
O último episódio, registrado entre 2023 e 2024, contribuiu para que esses anos figurassem entre os mais quentes da história das medições meteorológicas. Agora, a agência avalia que o novo evento poderá novamente impulsionar as temperaturas médias globais e aumentar a frequência de eventos extremos em diversas regiões habitadas do planeta.
Efeitos previstos em diferentes regiões
As projeções da OMM indicam aumento das chuvas no Pacífico Equatorial central e oriental, enquanto parte do Oceano Índico, do subcontinente indiano e grande parte da Austrália devem registrar precipitações abaixo da média.
Também há previsão de redução das chuvas em áreas do Caribe, noroeste da América do Sul e América Central. Em contrapartida, o sudoeste dos Estados Unidos poderá enfrentar um período mais úmido que o normal.
Na Europa, os modelos apontam maior volume de chuva no sul do continente e condições mais secas no norte, embora as previsões para essa região apresentem menor grau de confiabilidade.
Já durante o verão do Hemisfério Norte, as águas mais aquecidas do Pacífico tendem a favorecer a formação de ciclones e furacões naquela bacia oceânica, ao mesmo tempo em que reduzem a atividade de tempestades tropicais no Atlântico.
Peru adota medidas preventivas
Os impactos do fenômeno já mobilizam governos. No Peru, cerca de 800 municípios estão em estado de emergência diante do risco de chuvas intensas, inundações e deslizamentos de terra. Estimativas oficiais apontam que mais de 9 milhões de pessoas vivem em áreas classificadas como de risco muito elevado para esse tipo de desastre.
A OMM reforça que o monitoramento antecipado permite reduzir perdas humanas e econômicas, principalmente em setores como agricultura, recursos hídricos, energia, infraestrutura e saúde pública. A recomendação é que governos e serviços de proteção civil utilizem as previsões climáticas para planejar ações preventivas e ampliar os sistemas de alerta para a população.
